sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Ando com uma vontade de arrebentar com isto tudo

Instruções

1. carregar no play do video
2. reclinar-se na cadeira e apreciar



PS: o devido mérito e vénia ao Insónias em Carvão por ter apanhado este momento de nosso senhor salvador JJ.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

A fenomenologia da cartolina: autorreferencialidade e confusão em Maria Gabriela Llansol e Bruno de Carvalho


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quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Senhoras e Senhores, convosco, o Pai Natal

Proclamação: «Mesmo os livros de Llansol, na sua atemporalidade, e ainda que remetam para a história humana, não deixam de tocar a história portuguesa.»

Comentário: Os livros da Maria Gabriela Lençol parecem saídos da imaginação torturada de uma adolescente problemática com dislexia (peço desculpa a toda a gente) sendo que, remetendo para a humanidade da história humana, e apesar de uma primeira abordagem da história dos pinguins, Maria Gabriela Lençol limitou-se a deixar paletes de folhas manuscritas lá no sótão da casa em Fontanelas, ou na Praia das Maçãs ou em Colares, agora não tenho presente, terão de consultar a obra crítica do Pai Natal.


Proclamação: «O mesmo aconteceu com a poesia em grupos como o do Cartucho (Joaquim Manuel Magalhães, João Miguel Fernandes Jorge, Helder Moura Pereira,António Franco Alexandre) que obrigaram a poesia a um regresso ao real. Mas um real que espelhava o novo Portugal, urbano, fortemente desencantado,profundamente melancólico, mesmo se irónico. É aqui que encontramos também poetas como Vasco Graça Moura, Fernando Pinto do Amaral, Luís Miguel Nava, Al Berto…»

Comentário: A poesia - contrariada - lá se dispôs a regressar ao real.


Proclamação: «A importância das escritoras para a renovação da literatura portuguesa é algo que já vem dos anos 60 mas que se vai solidificar nos anos 80e 90. Quer no romance, com Agustina, Lídia Jorge, Maria Velho da Costa,Teolinda Gersão, quer no conto com Maria Judite Carvalho, Teresa Veiga, Luísa Costa Gomes, quer em obra sem género definido como são os livros de Llansol ou Hélia Correia, foram as mulheres que mais arrojaram em termos temáticos, estilísticos. Elas introduzem uma desordem, com a polifonia, a meta-narrativa, a intertextualidade, uma nova ordem do simbólico que se manifesta na forma como usam os tempos, a auto referencialidade, a subjetividade. Nas escritoras a busca de uma voz é a busca de um sentido e, nesse caminho, elas fizeram uma rebeliãocontra o discurso masculino que dominava a ficção portuguesa.»

Comentário: Aprende, aprende humildemente, o velho é que a leva direita. Gostava entretanto - se me é permitido - de dizer (com todo o respeito) duas ou três palavras: Carlos de Oliveira. Tem pilinha, mas alegadamente, de um ponto de vista da «desordem, polifonia, meta-narrativa, intertextualidade, uma nova ordem do simbólico que se manifesta na forma como se usa o tempo, a autoreferencialidade e a subjetividade» parece-me indiscutivelmente que. Quanto ao referido grupo, tenho dificuldade em, digamos, expressar o meu sentido crítico por motivos, digamos, autoreferenciais, mas note-se: a Hélia Correia não gosta de sol e tem como principal atributo o coleccionismo de memorabilia em torno de uma ou duas notas de rodapé da história da literatura decadentista. Alegadamente, também leu os clássicos, mas lamentavelmente, nunca a vi no estádio da Luz, pelo que, não pode ser. A Teolinda Gersão também sabe alemão, de resto, é uma pessoa espetacular que tenho o prazer em desconhecer absolutamente. A Lídia Jorge diz que a literatura é o prolongamento da infância, uma coisa a todos os títulos de uma originalidade infinita. A Maria Judite de Carvalho não sei quem é. A Teresa Veiga confundo com uma pessoa que vive na Madeira, mas se calhar é a mesma. A Luísa Costa Gomes, calma camaradas. A Agustina é chato, é rural, é exótico, é psicótico, é Camilo com peso a mais.


Proclamação: «A literatura e a poesia são sobretudo um trabalho deestruturação de um olhar sobre o mundo e depois a colocação desse olhar sob aforma de linguagem. Uma linguagem que não se limite a contar factos (isso, láestá, é o que fazem os media) mas que dê a ver o invisível através do visível.»

Comentário: Ôéó-ó! Ôéó-ó, Ôéó-ó-ó-ó-ó, Ôéó-ó-ó-ó-ó!


Proclamação: «A imposição do romance quase como sinónimo de literatura apagando a poesia e o conto, o realismo de cariz conservador e banal, a pobreza da linguagem, são sintomas de um mundo sem memória, onde a cultura, a arte e aliteratura se regem por paradigmas economicistas. O único lugar onde ainda existem valores é na Bolsa. A vida das pessoas gira em torno do consumo e das vivências do corpo mas apenas na sua perspetiva hedonista. Logo, o simbólico, aletra, a palavra saem a perder. A tecnologia apaga a palavra. A literatura foi totalmente contaminada pela acumulação de a tualidade, de informação, abdicandodo espaço da História, da memória. Obriga-nos a um eterno presente onde imperam as imagens.»

Comentário: A confusão é de tal ordem que temos dificuldade em desatar este novelo de disparatada oração ao Santíssimo Sacramento da Literatura. Se o romance é uma forma comercial e metiaticamente apetecível (tal como o era o teatro grego na antiguidade ou o drama isabelino no final do século XVI ou o folhetim, depois romance em fascículos no século XIX) que tem isso a ver com a qualidade (risos) e a originalidade do conteúdo (olé) veiculados por essa forma? E se a mesma é apreciada por um público disposto a pagar a liberdade do artista, onde está a relação linear entre as preferências do público e a suposta falta de qualidade do produto consumido para fins de edificação mental? Paradigma economicista? Mas agora somos forçados ao paradigma economicista das Universidades centralizadamente financiadas com impostos onde todo o respeitável e reputado escritor deve inexoravelmente ir ajoelhar? O simbólico clube de Portugal está em crise? Mas não estão os estádios cheios? Mas estaremos aqui a ignorar a revitalização do salto-agulha? Professor, doutor, camarada, Barrento, o excelentíssimo professor possui apenas 76 anos, não os transforme, com todo o respeito, em 1776 anos.

Vejamos a seguinte ilustração simbólica do paradigma economicista-consumista numa dimensão, digamos, hedonista de satisfação do corpo enquanto vivência ou quisermos, enquanto delinquência moral, embora, como diria Anselmo Ralph, nem lhes tocamos, apesar de serem duas, a dançar ao som de um torturado e bem-aventurado mancebo, prestes a ser introduzido no maravilhoso mundo da tragédia masculina. Em que gaveta do seu esclerosado instrumentário de apreciação do mundo coloca o senhor professor doutor este conjunto poético-comercial de estímulos mentalmente simbólicos no que à produção da linguagem diz respeito?

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Proclamação: «Há agora também a moda da violência espetacular de um autor de quem já gostei mas que hoje não acho nada interessante que é o Paulo José Miranda. Na mesma linha li um livro do Valério Romão e achei que apesar de tudo ele tem mais recursos. De entre estes novos e mediáticos escritores o único cuja obra eu considero original é o Gonçalo M. Tavares. É um escritor douto,capaz de abarcar um largo espectro de temas, de formas de linguagem, é imensamente culto e consegue trazer essa cultura para dentro dos seus livros.»

Comentário: Calma, não se zanguem. Está tudo bem.


Proclamação: «Penso que, recentemente, há a redescoberta de uma certa fé na poesia aliada a um olhar crítico e irreverente que muito me agrada e que está a acontecer com os poetas muito novos, na casa dos 20/30 anos. Entre eles destaco dois grupos: os criaturistas, Diogo Vaz Pinto, David Teles Pereira e Golgona Anghel ligados à revista Criatura que depois se transformou na editoraLíngua Morta. E os Apócrifos, um conjunto de poetas muito jovens ligados àrevista Apócrifa, cuja primeira antologia vai sair em breve com prefácio meu.Também prefaciei, a pedido da editora [Maripoza Azul], o livro Groto Sato de Raquel Nobre Guerra. Era um bom livro. Infelizmente este novo dela, Senhor Roubado, já achei fraco. Mas o que importa é fazer.»

Comentário:
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segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Não sei se já referi isto neste espaço de cultura, mas a Inês Fonseca Santos desorganiza todos os nossos esforços de construção de uma personalidade, digamos, reponsável

Parafraseando Herberto Helder, «o extremo poder dos símbolos reside em que eles, além de concentrarem maior energia que o espectáculo difuso do acontecimento real, possuem a força expansiva suficiente para captar tão vasto espaço da realidade que a significação a extrair deles ganha a riqueza múltipla e multiplicadora da ambiguidade», ou se quisermos recorrer a um tema popularizado por Marco Paulo, «quando você vem com essa cara de menina levada para a brincadeira, dá-me um arrepio na pele (...)». Não era esta a teoria de Kafka sobre a leitura dos livros fundamentais?

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Para quem se pergunta o que é a crise dos media convencionais, aqui vai um exemplo

Através do blog Ouriquense tivemos conhecimento, arriscamos dizer, do mais consistente projecto crítico em literatura portuguesa, neste momento disponível aos leitores. O autor da referida obra crítica é o escritor Alberto Velho Nogueira, cuja existência desconhecíamos em absoluto (é inútil congeminar teorias) tal como não conhecemos pessoalmente o excelente autor do Ouriquense, responsável por fornecer de forma gratuita ao público, um índice de parte da referida obra crítica de Alberto Velho Nogueira,  remetendo ordeira e organizadamente os leitores, segundo títulos de livros e escritores, para a estimulante prosa crítica.

Um exemplo comprovativo, sobre o aclamado livro de Gonçalo M. Tavares, Uma Viagem à Índia:



Agora, pergunta este cansado autor que vos fala, o que andam a fazer os nossos jornalistas literários, com acesso a jornais e canais de televisão de médio e largo alcance, para só agora termos conhecimento deste blog e através do tenebroso mundo das redes sociais?

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Aquilo a que se chama a filosofia epistemológica

Kate Winslet:

Sai uma sandes de presunto e uma caneca de vinho verde (tinto) para este rapaz que se tem alimentado mal



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segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Televisão em movimento


Para lidar apropriadamente com a quantidade de ideias confusas lançadas nesta prosa poética, seria preciso uma verdadeira legião de autores com o dobro do meu gabarito intelectual e o triplo da minha energia literária, mas como bem sabe o público deste blog, nunca nos negamos ao confronto.

Subscrevemos a primeira afirmação, ou seja: a Cristina Ferreira não só é uma apresentadora de programas populistas da televisão portuguesa, como é também uma apresentadora de programas populistas da televisão portuguesa, sendo que a professora doutora camarada Paula Cosme Pinto, autora do artigo acima supracitado, considera que, em verdade vos digo, a Cristina que muito prezamos Ferreira é também (e passamos a citar, portanto, abrir - perdão - aspas): «uma grande estratega e empresária» e um símbolo vivo da «meritocracia». Recomendamos, neste momento, muita calma. Não vamos referir o investimento em horas de televisão por metro quadrado de área de construção em Malveira da Serra, mas queremos, contudo, dizer algumas palavras sobre gostar ou não gostar do tipo de programa que a Cristina Empresária Estratega Ferreira faz no pequeno ecrã: a relação entre o gosto, o valor comercial de uma marca e a capacidade de gerar audiências é um problema com capacidade para fritar os neurónios à doutora Paula Cosme Pinto, o que, bem tememos, talvez tenha acontecido. O programa é direccionado às massas, massas essas que, em verdade vos digo, concorrem para o sucesso da referida apresentadora, segundo o critério de aferição do que pode considerar-se, a preços de 2016, uma apresentadora de sucesso, ou seja, uma cavalona, digamos, de qualidade estratégica. Mas quantos anos de exposição mediática de homens com bigodinho pagos por uma televisão pública com monopólio da emissão seriam necessários para gerar o referido valor da muito justamente valorizada Cristina Ferreira? Seria justo começar por aqui.

Será que isto belisca a nossa consideração pela condição, digamos, feminina? En-ten-da-mo-nos, se queremos citar o camarada Francisco Louçã, pois o público bem sabe estar, no caso da minha pessoa, na presença de um autor que, inclusivamente, frequentou o mês de Maria, rezou o terço, ajoelhou muitas vezes diante da graciosa e imortal criatura, a estrela da manhã, o berço de virtudes, a cheia de graça, farol do desejo, graciosa mãe natureza, vulgo, a mulher.

Deixando de lado a melindrosa questão acerca do reverencial respeito com que eventualmente se possa misturar chavascal e consideração, perguntamos à doutora professora engenheira Paula Cosme Pinto, de que modo se consegue a atenção de milhões de pessoas sem o recurso a um canal de televisão e à companhia de um desde já por si, apresentador com a atenção de milhões de pessoas, vulgo, Manuel Luís com todo o respeito Goucha? De modo algum queremos aqui beliscar a honorabilidade da referida Cristina Tranca Ferreira, e tudo temos feito neste blogue para a salvaguardar dos vampiros da crítica literária, mas não levemos longe de mais o esforço de justiça, transformando esta questão num problema de índole, digamos, filosófica.

Pergunta, pois, e de lágrimas nos olhos, este famigerado autor que vos fala: quantos anónimos extenuados de trabalho, empenho, profissionalismo, tenacidade, capacidade de criar uma marca em torno de si próprios, continuam a limpar casas de banho ou a levantar graciosamente tabuleiros no centro comercial - com um máximo de televisiva simpatia, eloquência, competência, apetência, suavidade - sem que isso se traduza, digamos, num centésimo do valor conferido pelo sistema de preços, vulgo, carrocel circense em que vivemos? E isto apesar do valor estratégico com que levam o detergente às imundas casas de banho, ou da cabal responsabilidade com que encaminham os hóspedes à porta de um hotel.

No fundo, o Portugal dos pequeninos é o Portugal onde os pequeninos nunca podem, contudo, exteriorizar o seu ódio em paz, ou seja, apenas podem, no fundo, utilizar os recursos democraticamente postos à disposição pelo capitalismo libertário, para fundamentar os pilares da criação de riqueza, oleados pelo ódio (e o desejo) dos referidos pequeninos (quando não incomodam ninguém), e isto num continuado ciclo sofredor que faz as delícias dos doutorados em Economia austríaca com sotaque portuense. Na minha humilde opinião, este estado de coisas tem beneficiado muito pouco o público, no sentido em que as ineficiências de mercado (geradas por tiques de autoritarismo pedante) continuam a representar uma rigidez essencialmente frígida no que ao sistema de preços diz respeito. E isto significa que a valorização dos produtos - se continuamente condicionada por organizações centralizadas, como as televisões - continua a ser cavalgada por uma hierárquica, soviética, católica, apostólica, vitoriana, concepção do público enquanto conjunto de solteironas e solteirões (somos sensíveis às questões de género) muito pouco dados a, digamos, sair das suas, digamos, posições conservadoras, ou se quisermos, dos seus sofás. Vejamos, a título de medição do empenho, um excerto diarístico, da referida Cristina vulgo Ferreira:


Isto não justifica qualquer tipo de insulto, embora revele níveis de empenho e trabalho muito reduzidos, e por isso, convidamos os leitores a pensarem esta relação entre o sucesso da «estratega e empresária» Cristina vulgo Ferreira, e os «valores do trabalho, do empenho, do profissionalismo, da tenacidade, da capacidade de criar uma marca em torno de si própria, partindo do zero».

Na verdade, caríssima psicóloga engenheira doutora juíza Paula Cosme Pinto: não serão as razões do sucesso de Cristina Ferreira bem mais prosaicas (nomeadamente, sorte e tempo de antena) apesar de inteiramente legítimas? Que os projectos comerciais promovam o ódio é justamente compreensível, sobretudo quando milhares de pessoas com o triplo da inteligência e da capacidade de trabalho da Cristina Ferreira não beneficiam das suas condições, nomeadamente, a oportunidade como apresentadora da televisão, um trabalho que consideramos um justo castigo para todas as pessoas ambiciosas. Em suma, a consideração do intervalo entre as capacidades de Cristina Ferreira e a sua remuneração (directa e indirecta) justifica moralmente a difamação? Talvez não, mas seria mais fértil avançar para um enquadramento da referida difamação que não passasse pela consideração topológica e geométrica das pessoas. Entretanto, uma vez que a referida Cristina Ferreira está longe de ser caso único, recomendo ao público calma e paciência.

Por outro lado, e em verdade vos digo, toleramos todo o género de badalhoquice ao nível das cabeças de topo nos sistemas centralizados, mas quanto à liberdade de expressão no espaço público, alto lá, insultos é que não. Entretanto, está tudo bem, a Cristina Ferreira continuará a prosperar, sem revelar especial incómodo pelo ódio da turba de inquisidores, por estar plenamente consciente - e disto estamos também nós plenamente conscientes - da importância da turba na criação do valor de que a própria Cristina vulgo Ferreira se alimenta. Pode dizer-se que a bela e simpática Cristina Ferreira será nisto de um alcance mental a que justamente podemos colocar o epíteto de estratégico. Estou certo de que a mesma compreende cabalmente os insultos que, certamente, em dado momento da sua vida, também lhe terão passado pela cabeça, ou se não passaram, isso certamente se deveu a um particular benefício dos deuses da televisão. Temos pena que neste particular não seja acompanhada por mais pessoas. Por outro lado, o ódio do público nutre-se de uma justificada consciência da exploração das fragilidades civilizacionais, o que de modo algum deve ser negligenciado pelo público, sendo que, digamos, está tudo bem. Que os medíocres colunistas do Expresso ou do Diário de Notícias julguem importante insultar o público dado a insultos, é apenas um sinal de que, digamos, também está tudo bem.

© Revista Cristina

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Tudo o que tu quiseres

A julgar pelas informações continuamente despejadas pelo Facebook sobre as nossas cabeças, os jovens escritores aclamados pela crítica fazem Like, em todos os textos de estrelas emergentes, vulgo, a Alexandra Lucas Espectacularmente Coelho, com toda a sua eloquência supostamente pop, não faltando a nossa sacerdotiza inatingível, a imortalmente bela, a doutora Inês Fonseca Santos. Temos vindo a colocar esta questão do star system, vulgo, amiguismo, seguidismo, surrealismo, sem contudo obter qualquer tipo de resposta. O que nos diz esta escassa informação sobre o mundo em que vivemos? Nada, somos apenas escritores (risos) a tentar viver das suas mais singelas capacidades, a saber, o uso da inteligência,  a saber, uma coisa tão pouco escassa quanto qualquer outro dos humanos atributos, nomeadamente, um pastor chamando as ovelhas, um taxista palitando os dentes, um bombeiro coçando a urgente micose, um lojista vendendo a sua fruta, uma produtora de televisão com os seus lábios maravilhosamente untados com bâton, se for o Curto Circuito da SIC Radical, digamos, friamente, uma bela, uma belíssima rapariga, embora desligada dos frágeis mecanismos das relações (pausa) humanas, o que só podemos compreender, perfeitamente, e em toda a sua plenitude, tendo em conta as calças de cintura (trau) subida, ou seja, os ténis dourados da referida produtora, não apagam, facilmente, o cansaço de uma vida ao serviço do sucesso.

Ocorre-me indagar, pois, qual a razão do sucesso de Pedro Chagas Freitas? Só pode ser, numa palavra, a condição tão humanamente humana das pessoas, tão humana quanto no tempo de Fernandinho Nogueira, o tótó, Pessoa (ainda assim, remetemos o leitor para a miséria do historicismo), uma época em que, tal como a nossa, os familiares da Rita Ferro - da qual ilibamos os seus descendentes humanos de inegável sucesso - estavam prestes a colaborar na entronização de uma solução política de tendência, digamos, anti-democrática, anti-popular, anti-desenvolvimentista (saudações ao camarada José Neves) e anti-digamos, PUM. E isto, sem, no entanto, beliscar o futuro comercial de qualquer projecto editorial, no fundo, aos famosos será mais fácil ter sucesso editorial do que entrar no reino nos céus, o que só pode constituir motivo de esperança para o mundo dos vivos. Seremos camelos ou não seremos. Gostamos muito de sol, aguentamos a extensão do caminho, estamos conscientes da nossa responsabilidade, a saber, constituir um acidente estatístico, ou se quisermos, um milagre, no fundo, aquilo que faz da natureza o particular atributo da natureza, a saber, um espaço contínuo onde os milagres, a preço de sangue e lágrimas, são obrigados a cavar o seu glorioso caminho.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Sentir

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Segundo consta, a autora Cristina Ferreira terá vendido 15 000 livros em três dias, uma marca considerável para o Portugal leitor. Isto, escassos dias depois de Valter Hugo Mãe ter procurado cantar um fado num programa de televisão, no Brasil, seguido por muitos milhões de brasileiros. Não estou inteiramente seguro da relação entre estes dois imponentes eventos, mas o grande livro da natureza terá algures uma linha onde se explica a relação entre o desejo das pessoas e a infinita generosidade das pessoas, uma linha passível de ser representada matematicamente, no sentido de tranquilizar as mentes mais indignadas perante o curso da história. Entretanto, recomendo calma a toda gente. Vai tudo correr bem.


Neste sentido, não há nenhuma evidência no sentido de considerar que uma pessoa gostar de ver gajas na internet seja sinal de superficialidade



Antes pelo contrário, os instintos funcionam a níveis, para utilizar linguagem freudiana, bastante profundos, ainda que não tenhamos qualquer pejo em afirmar que os instintos, por si só, nada explicam, sendo necessário colocar no terreno, para estudo empírico-teórico, toda a parafernália de experiências linguístico-mentais, a que por vezes se dá o pomposo nome de literatura. A psicanálise bem tentou colocar ordem neste albergue espanhol, mas acabou a fazer programas de rádio com mulheres maduras, por sinal, de voz bastante atraente.

Consideramos que recorrer ao conceito de superficialidade para comentar as redes sociais é uma das coisas mais superficiais de todos os tempos

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

No fundo, no fundo, o escritor contemporâneo (com sucesso junto das elites) é um gajo que não aguenta a pressão do progresso

«Chega a ser proibido
O que os meus sentidos
Me dizem em segredo
Para eu fazer contigo»

Mickael Carreira, Tudo o que tu quiseres

Vamos falar de catequese, vulgo, literatura contemporânea, elites, jornalismo cultural, investigação em letras financiada pelo Estado, vamos falar de pedantice, vamos falar de tempo livre, vamos falar de autonomia e liberdade moral, vamos falar de desorientação e ilusão, vamos falar de ideologia universitária e sobranceria moral, vamos falar de pseudo-hegemonia cultural e decadência, vamos falar de um certo descontrolo verbal, vamos falar de imediatismo e preconceito, vamos falar de amor: o mais maravilhosamente plastificado dos conceitos.





















Este excerto chegou-me numa outra rede social e pertence ao aclamado livro de Valério Romão, Autismo. Curiosamente, o autismo é uma patologia tornada visível numa civilização onde domina a cultura hipnótica, repetitiva e obsessiva do alfabeto, e da normalização da linguagem - e por isso, do comportamento - com o seu belo corolário artificial, o livro impresso. Com grande perplexidade seguimos a sinuosa prosa deste autor e não pudemos deixar de alinhavar algumas notas: pelos vistos, a segunda pergunta deste excerto, quer saber se o desejo é um atributo guiado de tal forma que um dado objecto a desejar exclui todas as outras hipóteses de satisfação. Como bem sabemos, ou deveríamos saber, o funcionamento da natureza não corresponde a uma mera repetição das limitadas capacidades humanas. Será necessário utilizar o raciocínio para fazer escolhas, mais ou menos exigentes do ponto de vista das vaginas ou dos pénis com os quais queremos relações de uma considerável, digamos com o Professor Doutor Valério, urgência.

Diria que se estas gentes «se aprontam a meter a picha onde Fellini nunca ousou meter a câmara», para além da péssima imagem, seria motivo para que as referidas gentes merecessem a nossa admiração artística. Sobre a alma, remeto o leitor e a leitora para o catecismo da Igreja Católica, não sou um especialista em metafísica, deixo isso ao critério dos poetas. Por outro lado, não vejo qual a relação entre neurotransmissores, publicidade, maquilhagem e a existência de quaisquer problemas na fornicação de fantasmas, com os quais não devemos excluir à partida o contacto físico, isto se os referidos fantasmas cumprirem os preceitos da elevada lei moral Kantiana, e corresponderem ao nosso juízo estético e moral em torno de uma, digamos, certa ideia de prazer. Mas agora é proibido manter relações sexuais sem estar devidamente apaixonado? Em que universo paralelo a paixão é um fenómeno menos artificial do que a indústria dos cosméticos? Ainda que admitamos um certo automatismo na ideia de desejo, quantas calorias serão necessárias ao trabalho da imaginação para converter uma simples e frágil impressão no poderoso império da paixão?

Apetece-nos recorrer aqui a Mickael Carreira, «O teu corpo é tudo o que vejo» sendo que a passagem das impressões do corpo a uma ideia de paixão mental, só é possível com o concurso de  todos os artificialismos morais, da família cristã ao sadomasoquismo, consoante a maravilhosa e diferenciada cabeça do apaixonado, que é sempre fruto de uma esforçada narrativa, se quisermos utilizar uma expressão cara ao engenheiro José Sócrates.  No fundo, a aclamada literatura (um produto circunstancial da derrota universitária das Humanidades) é a continuação, por outros meios, da cansativa e extenuada catequese vitoriana. Valha-nos Deus.

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Como apreciadores da beleza agressiva, gostamos imenso de livros.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Toy, Levinas ou Blanchot: isto não é uma daquelas merdas para ter piada, aqui falamos muito a sério, ou seja, metemos o nosso pescoço nos carris onde passa impiedoso o mortal comboio da história

C’est dans cette perspective que Maurice Blanchot avançait cette formule admirable de précision et de grâce : « les amants sont ensemble, mais pas encore ». L’amour semble n’offrir qu’une illusion de plénitude. Il dépouille l’Autre qui lui est de fait impénétrable. D’où le paradoxe. Moins qu’une entreprise de destruction de l’Autre, l’amour serait une vaine passion, l’amour essaye de dompter une figure opaque, insensible à la caresse. L’amour est un investissement éperdu, une étrange ascèse, une marche vers l’invisible. Le toi du « je t’aime » n’est jamais mon contemporain. Terminons avec Levinas : Je l’ai choisie pour ce qu’elle avait de merveilleux, de spécial, ou d’unique ; maintenant, « j’aime en elle non pas une qualité différente de toutes les autres mais la qualité même de la différence ». Elle a beaucoup changé.

Mas também seria possível recorrer a Herberto Helder, o poetastro:

De meu recente coração a vida inteira sobe,
o povo renasce,
o tempo ganha a alma. Meu desejo devora
a flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espuma
de crepúsculos e crateras.
Ó pensada corola de linho, mulher que a fome
encanta pela noite equilibrada, imponderável -
em cada espasmo eu morrerei contigo.

E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo


eu morrerei contigo.

Uma espuma de crepúsculos e crateras? A fome encanta? Talvez, talvez, em todo o caso, neste final, é Toy quem triunfa, o poeta sente-se intoxicado pela pirotecnia de imagens bizarras (para não dizemos burguesas) e converte-se aos encantos da utilidade, no fundo, sente os limites da racionalidade e encara a língua de frente, assume corajosamente a sua pobre condição de pessoa que acabou a viver da única coisa que lhe foi possível manejar com uma certa distinção, a língua: «Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo eu morrerei contigo.» Ainda que não estejamos certos de que o poeta esteja disposto a morrer por uma gaja, não sabemos, apesar de tudo, o Toy parece mais convincente. Posto isto, venho informar o público sobre a espectacular sabedoria democrática das nossas vidas empurradas umas contra as outras, de onde tem resultado uma esforçada mas inequívoca marcha em sentido de um Kantiano e germânico progresso. Quer isto dizer que o caminho é fácil? De modo nenhum, se fosse fácil era para os outros. Como diria Rui Vitória, não estou nada focado nesse tipo de coisas, é preciso encarar cada jogo com seriedade e ter alegria em jogar, mas que isto não nos distraia das nossas responsabilidades, o progresso, atentos aos sinais do grupo, do colectivo, da soma desta maravilhosa espécie a que pertencemos e temos orgulho em pertencer. Como sinal e prova dos fundamentos pelos quais norteamos as nossas decisões aqui fica o exemplo. Podemos interpretar o amor à luz dos textos de Blanchot, ou podemos ouvir Toy que diz - o senhor, a natureza, a humanidade e a semiótica sejam louvados - a mesmíssima coisa de forma mais económica, mais democrática, mais transparente, mais exígua e travejada, numa palavra, de forma mais racional.

Porque é que eu vou ao teu encontro se nem me vês/ porque é que me arranjo e me apronto, fico a teus pés/ (L’amour semble n’offrir qu’une illusion de plénitude) vou fingindo que até nem percebo que te sou indiferente/ E apenas por uma palavra que tu me dirijas, eu fico contente/ Porque é que eu prometo a mim mesmo não mais te ver/ e no dia seguinte procuro me convencer/ porque ainda é possível quem sabe, voltar a ter carinho/ nessa esperança procuro falar-te mas acabo sozinho/ (Il dépouille l’Autre qui lui est de fait impénétrable) Estupidamente apaixonado (D’où le paradoxe) quem me manda ser assim/ a culpa é minha por sofrer (l’amour serait une vaine passion, l’amour essaye de dompter une figure opaque, insensible à la caresse) com a mania de viver à espera que gostes de mim/ estupidamente apaixonado 
é mais forte do que eu/ tenho a certeza vou deixar a vida inteira para te amar porque o meu coração é teu. Terminons avec Levinas (j’aime en elle non pas une qualité différente de toutes les autres mais la qualité même de la différence).

A quem explicar a diferença entre o José Maria Varia Mendes e o Pedro Chagas Freitas, ficaremos eterna e penhoradamente agradecidos e ofereceremos um disco de Toy.

A Inês Fonseca Santos (aguilhão torturante das nossas manhãs, sacerdotisa do nosso ofício de viver, farol do nosso desgovernado desejo, pináculo de todos os nossos esforços catedralícios para sermos pessoas reconhecidamente pessoas) entrevistou mais um monumento de emoção, sensação, tentação, absorção, o grande, o único, o profundo, José Maria Vieira Mendes, autor das linhas que se vão seguir:

«Prefiro assim. Detesto perceber as pessoas. As pessoas que percebes não têm piada nenhuma. Normalmente são pessoas que não são pessoas. Quer dizer, são pessoas que são assim uma imagem de qualquer coisa que elas imaginam que é uma pessoa. Pessoas que se querem fazer perceber. Não consigo perceber. Não consigo perceber essa necessidade. E portanto também não percebo essas pessoas. Se calhar é como não te perceber a ti. Mas não é a mesma coisa. É diferente, é. Não sei explicar melhor do que isto.»


sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Apesar de todos os acontecimentos histórico-histéricos, nós, os verdadeiramente derrotados, vamos continuar a manter níveis de calma em posições espectacularmente elevadas

Professor Lord's book, like the studies of Milman Parry, is quite natural and appropriate to our electric age, as The Gutenberg Galaxy may help to explain. We are today as far into the electric age as the Elizabethans had advanced into the typographical and mechanical age. And we are experiencing the same confusions and indecisions which they had felt when living simultaneously in two contrasted forms of society and experience. marshall mcluhan, gutenberg galaxy, 1962



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terça-feira, 8 de novembro de 2016

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

A pedido de um comentador anónimo (tendo em conta o nosso já lendário respeito pelo público trauliteiro e enigmaticamente genial deste blog) vimos por este meio esclarecer quem é a Inês Fonseca Santos

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O texto é do Manuel António Pina (mas o sublinhado é nosso).

An allegory of the defeat, ou seja, o Elogio da Derrota, a espalhar magia desde 2007 ou uma cena assim, já não me lembro quando decidimos fundar este bastião em defesa do esclarecimento, da felicidade e da concórdia humana. Devo ainda informar que a referida autora tem um poema onde alude a Jonas, no nosso entender, uma prefiguração epifânica do goleador brasileiro - com frequência da licenciatura em Farmácia - e actual atleta do Sport Lisboa e Benfica, por sinal, instituição que ocupa o primeiro (e mais distinto) lugar da Liga Profissional de Futebol em Portugal, Viva a Poesia.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Nesta mensagem encriptada está o segredo da vida e da morte, do centro e da periferia, da construção do ser em si, para ti e para mim, no fundo, para todos nós, os tocadores de bombo

Peço desculpa aos leitores pelo que vai seguir-se, a saber, a Sinopse de um livro recentemente publicado, o Dançarino Subtil, e sem mais, trau:



O leitor sente-se bem? Procure uma cadeira, feche os olhos, dentro de momentos voltará a sentir a normalidade do mundo em que vivemos. Talvez por enquanto sinta ainda uma forte vertigem, como se uma mão invisível o tivesse agarrado pelo pescoço. Um vertigem, sem dúvida, podemos mesmo falar num certo efeito de absorção ao contrário, ou melhor dito, numa espiral de ideias e propostas de leitura em que a pessoa desprevenida é agitada, que digo eu, é sacudida de cabeça para baixo, até avistar círculos concêntricos centrais e periféricos, com patinadoras francesas a recitar o Levítico em grego, altura em que aparece um poeta alemão do século XVIII, nu da cintura para baixo, declarando a morte do realismo, recomendando a depuração da morte (com soda cáustica ou ácido muriático) ou no caso de não ser possível depurar a morte (a morte às vezes está indisponível a tricotar umas meias para os netos) recomendando ao leitor uma modificação da identidade (por uns módicos 17,91 euros) ou se o leitor quiser pagar mais, um memento ético-religioso, o que não recomendamos por causa do fígado.

Respiremos fundo e tentemos em primeiro lugar lidar com o conceito de autoimunidade da democracia: portanto, a democracia seria um sistema com tendência para utilizar mecanismos imunitários contra agentes do próprio sistema. Mas quais mecanismos? Os legítimos ou ilegítimos? Partimos do princípio que ilegítimos se utilizamos aqui uma patologia, o que nos obrigaria a lidar com o conceito de normalidade ou saúde em sistemas políticos, e estaríamos com um pé no fascismo, pelo que a autora deste livro, como se vê pela sinopse, não faz a mínima ideia do que pretende dizer. Não bastaram 2500 anos de más metáforas biológicas a lançar a confusão sobre a política, embora nessa época, servisse de desculpa o estado incipiente dos conhecimentos em Biologia. Agora temos analfabetos científicos (tanto em Biologia como em Política) a fazerem salada russa de conceitos, vendendo esta refeição estragada por 17,91 euros. 

Não vou entrar na apreciação crítica da obra de Gonçalo M. Tavares e já por diversas vezes considerei ser justo reconhecer a Tavares um mérito razoável, não por qualquer relação com um suposto desafio da racionalidade ou confronto com a cultura científica mas porque revela preocupação com o rigor da metáfora, embora esse rigor não esteja ao serviço de coisa nenhuma a não ser o carrinho de compras repleto de banalidades filosóficas que vai buscar a intelectuais pós-modernos, sendo esse - na minha humilde opinião - o seu grande problema. Tavares é filho da confusão que pretende combater. Não se conseguiu orientar no pensamento, formou-se no pechisbeque filosófico contemporâneo (razão pela qual foi parar à Motricidade Humana e não à Filosofia). Tavares é um tipo a quem tudo correu socialmente bem (emprego, fama) e por isso, não há sombra de protesto (para utilizar a imagem de Tchékov) e por isso, é incapaz de assumir ou alimentar uma ideia política, acabando por se dedicar por inteiro à descrição do vazio (o que seria um projecto legítimo e até aliciante) se não fosse vendido como lucidez, mas sim apresentado como sátira de si próprio (um académico violentamente publicado que diz ter perdido o mapa). Contudo, caros amigos, é preciso muita confiança no próprio sistema nervoso para abraçar um projecto de auto-satirização, e por isso, a literatura acontece tão raramente (e digo isto para o leitor não ir daqui de mãos vazias). 

Talvez essa descrição pomposa (e até pedante) do vazio filosófico e literário contemporâneo (as boas cabeças vão quase todas atrás de bons empregos para cursos de base tecnológica e científica), seja a razão do grande interesse suscitado numa legião de académicos com ambições literárias mas sem qualquer talento para escrever (como é o caso da autora em apreço) uma multidão de intelectuais excluídos e desorientados em face do triunfo económico e político da tecnologia e da ciência modernas, intelectuais incapazes de se voltarem para uma literatura mais comprometida com o sofrimento por lhes cheirar a neo-realismo. 

Na verdade, há uma legião de intelectuais que adora o glamour tecnológico mas não compreendendo a beleza da ciência, cospem no prato onde comem, ladrando todos os dias contra o comboio, incapazes de perceber que se aprende mais sobre a crítica da tecnologia e da ciência numa página de Kant ou Rousseau do que em toda a obra de Gonçalo M. Tavares. Mas para quem abandonou a matemática no 9º ano, a prosa de Tavares cheira a «ciência» social, e no terreno da «escrita» e da errância (onde não há regras formais) talvez seja possível finalmente vencer um (ao menos um) combate contra o sistema.

A finalizar, um exemplo de como Tavares laborava (esperemos que já não labore, o texto é de 2004) numa espécie de filosofia do gajo privilegiado que se julga muito inteligente:

E o que me parece é que só podemos treinar e desenvolver a lucidez em tempos tranquilos, afastados portanto da guerra ou das grandes tragédias. Porque nestas situações limite temos de agir com urgência. Agir. Todos nós temos então de agradecer não sermos obrigados a agir constantemente em situações limite. E uma forma de agradecer é aproveitarmos bem esse tempo. Treinar a musculação da lucidez é uma boa hipótese para aproveitar o tempo, parece-me.

Portanto, nada mais claro. A literatura é para quem anda tranquilo, ou seja, é para o académico, porque não precisa de agir. Guerras ou grandes tragédias não são compatíveis com lucidez, sendo que aproveitar bem o tempo, é treinar a musculação da lucidez, contando que alguém vai lavar a roupa e fazer a comida, despejar o lixo, aturar as crianças na escola, ocupar os balcões das lojas, as linhas de montagem das fábricas, os andaimes da construção.

Quando à sinopse, talvez tenha sido escrita pelo editor (embriagado) e a autora não tenha culpa. Ora, tomem lá mais um excerto da autora de O Dançarino Subtil:

O Senhor Gonçalo M. Tavares é um poeta que parece não necessitar mais, minimamente, de qualquer ideia de verso ou de linha ou de frase, esta discussão não é mais a sua. É um poeta que sugere, contra e com o cogito, a hesitação e a emergência. A sua questão, ou propósito, é emergir o espírito livre na figuração errante de um dançarino sutil em meio a uma escrita oscilante, errante, que se pretende uma dança investigativa das conexões mais equivocadas e certeiras entre a existência e a linguagem.

Meus caros amigos, o sublinhado é meu, e deixa-me deprimido, preocupado com o que andamos todos aqui a fazer, contra e com o cogito. Boa sorte a todos os que entre a hesitação e a emergência, gostando de livros, ainda precisam de investigar as conexões entre o saldo bancário e as contas a pagar.