quarta-feira, 13 de julho de 2016

Aproveitando a onda de emoções positivas que a Seleção nos proporcionou


deixo aqui o meu honesto e sentido desejo de que os editores e livreiros do país vencedor do Euro16 sejam enrabados por todos os jogadores, técnicos, massagistas e roupeiros das selecções perdedoras. Duas vezes.

Lojas online em que raros são os livros a custarem menos de 15€, sendo que alguns clássicos não se ficam por menos de 25€ ! Sites absurdos, pensados para analfabetos, com um catálogo éxiguo. E como se não bastasse, na confirmação do processo de compra sou brindado com um "ocorreu um erro, tente mais tarde". Tento mais tarde, o caralho ! (Éderzito, 12 de Julho de 2016)

Como é que é possível tamanha incompetência e azelhice no século XXI ?!


domingo, 27 de março de 2016

A f. fez barda da grossa, eis porquê

É importante perceber porque esta cagada é efectivamente uma cagada.

Porque todo o texto tem um sabor a reportagem antropológica sobre uma tribo perdida na Amazónia, feita enquanto a autora matava tempo até abrirem as lojas do Sablon e da Avenue Louise. É uma falta de respeito por quem lá vive.

Porque é uma caricatura de um bairro e como tal, apoia-se em esterótipos e preconceitos. É tão idiota caracterizar Molenbeek como um viveiro de terroristas, como é dizer que aquilo é tudo gente de bem. Para criticar certo tipo de esteótipos, a Fernanda Câncio limita-se a utilizar outra classe de estereótipos.

No 40 miutos que estive na Bourse, com um custo monetário de 2.30€ em estacionamento, fui entrevistado pela CNN para a América Latina, estiveram estes marmanjos a gritar e a fazer confusão, nas escadarias da Bourse discursava um senhor, presumo que, paquistanês, ao meu lado estava uma tuga a cortar na casaca de uma colega de trabalho e atrás estava um negro a beijar o BI belga enquanto uma criança loirinha desenhava a giz corações no alcatrão. Para além da minha presença na Bourse e os 2.30 € por 40 minutos de estacionamento, que mais poderemos dizer sobre estes 2400 segundos que não sejam absolutas banalidades sociológicas ? Não será antes preferível o reconhecimento da nossa ignorância, seguido por um esforço continuado em atenuar a dita ?

quarta-feira, 23 de março de 2016

Vénia profunda a Dostoievski, um dos poucos que sabe escrever sobre a locura

O mais difícil para mim, neste dia pós atentado, tem sido eu descobrir em mim uma sede de sangue, de vingança. Passo o tempo a discutir comigo próprio, porque não agarrar numa kalash e varrer Molenbeek a chumbo. Ou então, ir esta sexta-feira largar granadas numa das mesquitas de Bruxelas. Ou fazer uma visita aos familiares dos terroristas. Ou....

Eu sei que é errado. Eu sei que provavelmente seria até contraproducente. Eu sei que depois de derramado o sangue, não é possível voltar atrás. Mas não consigo calar esta sede de sangue.

Também sei que daqui a uns dias, volto à normalidade. Foi assim em Novembro, quando Bruxelas foi fechada durante um fim-de-semana fechada. Foi assim aquando os ataques de Paris. Mas até lá cohabita em mim um ser medonho.

quarta-feira, 9 de março de 2016

A Anglo-Saxónia é onde um homem quiser.



Fiz aqui promessa de não voltar ao assunto. E não voltarei ao assunto. Voltarei, contudo, ao problema (mais profundo e preocupante) implícito no assunto, a saber, a ignorância (potenciada pela vaidade e a falta de contraditório) de uma quantidade muito relevante da nossa imprensa. Há quem ainda não tenha conhecimento do investimento (público) educativo, numa população cada vez menos disposta a ler bovinamente os nossos cronistas, uma população com capacidade para zurrar o seu desagrado, sempre que lhe apetece, o que tem sido considerado uma suprema infâmia. É este, em suma, o problema das redes sociais. Os chamados «imbecis» sempre existiram, mas antes não sabiam sequer ler ou escrever. Podiam ser facilmente calados, ou pelo aparelho de Estado ou pelo sufoco financeiro. Por isso, os intelectuais do regime podiam elaborar com livre trânsito, sem sofrer o incómodo da aguadeira, do almocreve, do professor retorcido, ou do empregado de escritório deprimido e proto-revolucionário. Agora, a populaça não só escreve, como manifesta indignação, atrevendo-se a chamar nomes aos bastiões da propaganda.

Será sempre muito mais fácil, depois da criação das redes sociais, alguém encontrar o tempo e a vontade, para mandar algum cronista ir ler um livrinho e moderar o alcance do disparate. Se pensarmos bem, o problema é profundo. Numa época de especialização, o cronista, e mesmo o autor publicado, ao querer iluminar a multidão sobre os mais variados assuntos, logicamente, perde em toda a linha, pois haverá, em quase todos os domínios, alguém mais qualificado. Os jornais (e pelos vistos, as Fundações) não perceberam muito bem isto. Ou perceberam mas não querem perceber. Quanto ao cronista, ferido no seu orgulho de relíquia desqualificada pela modernidade, não gosta de ser contrariado pela plebe, ainda mais a partir de uma coisa grátis, e acessível a toda a gente, de forma escandalosamente igualitária. Como se pode tolerar isto? Só lhes resta despejar livros pagos pelo Alexandre Soares dos Santos sobre as cabeças da multidão.

Interessa-me para já a rara capacidade de João Miguel Tavares, ao introduzir numa mesma crónica uma penalização da crítica ao disparate, para logo em seguida, o mesmo João Miguel Tavares se multiplicar no esforço de defesa do próprio disparate. Sem ter entendido o problema implícito na publicação de Alentejo Prometido, João Miguel Tavares parte do princípio de que as pessoas não leram o livro. Nem precisavam. A indignação nasceu da boçalidade das declarações de Raposo na entrevista e não da leitura do livro, tortura psicológica a que felizmente, muito poucos se entregaram ou entregarão. Henrique Raposo não é odiado por ser cronista de direita. Por exemplo, Lobo Xavier é de direita, fala todas as semanas na televisão, e não é odiado. Não quero justificar os efeitos virais da chacota. Mas é estranho que não passe pela cabeça de João Miguel Tavares que possa, por vezes, existir um levantamento popular de indignação com boas razões, nomeadamente, a incrível estupidez da pessoa alvejada (salvo seja), mesmo sendo de direita. No fundo, isto mostra bem a cultura democrática dos nossos «anglo-saxónicos». O povo sim, tudo bem, mas caladinho, direitinho e na ordem.

Se a filiação política não deve ser motivo de descriminação, também não deve servir de escudo perante a crítica ao disparate. João Miguel Tavares também é, sem o querer, um perigoso indignado, a quem a indignação dos outros incomoda, apenas por ser muito pouca indignação, como no caso Sócrates. Um pouco mais de inteligência lógica, se faz favor.

Passemos então ao estilo, colocando no mesmo saco dois exímios praticantes do chamado caterpillar lógico (uma actividade caracterizada pela terraplanagem da complexidade, de forma a construir uma avenida entre o modelo de realidade pré-concebido e a explicação da própria realidade). Aquilo a que João Miguel Tavares (e outros parolos) chamam estilo cru, provocador, estimulante, não passa, na maior parte dos casos, de disparates ditos com muita força. Isto é, disparates sem argumentação, fundamentação empírica ou encadeamento lógico. Basta tomarmos como exemplo a defesa do livro de Raposo. Criticando os críticos do livro (por não o terem lido) Tavares escreve uma crónica em que, precisamente, não usa um único argumento (empírico ou lógico) para defender o livro, nem sequer invoca qualquer argumento apresentado pelo livro (o que, convenhamos não seria fácil de encontrar). Tavares, um liberal, alérgico a sebentas, recorre, pasme-se, ao argumento de autoridade. Ou seja, não gostando de sebentas, vai refugiar-se debaixo das saias da professora.

A autoridade, portanto, de Maria Filomena Mónica. Interessa-me sobremaneira esta apologia da brutalidade como factor de sedução. Gritar muito alto, utilizar afirmações tremendas e aforismos definitivos, apresentar certezas inabaláveis e juízos grandiloquentes. Mas eu diria que isto não é inventivo (todo o taxista tem uma mundividência semelhante a Raposo e Filomena Mónica, feita de tremendismo e provocação, e por vezes, ódio aos comunistas). Ora, no caso de Raposo e Filomena Mónica, e sobretudo, no caso de João Miguel Tavares, o «arrojo interpretativo» e a «provocação» não são a marca do estímulo intelectual, e muito menos da sabedoria, mas um sinal de provincianismo e pouca leitura. Onde devia estar a ponderação das diferentes posições de quem estudou o caso, está uma ideia arrojada, tida ao pequeno almoço entre o croissant e a leitura do Expresso, e onde devia estar uma análise racional e comparativa dos problemas, está a ideia de Portugal como choldra, pocilga, degeneração (caso do Alentejo de Raposo) a que os provincianos recorrem desde há vários séculos.

Uma escrita que mistura a autobiografia com o ensaio é uma tradição anglo-saxónica que ainda não entrou nas cabecinhas nacionais. Sobre isto, nem sei o que diga, pois revela tudo sobre a cabecinha de João Miguel Tavares e muito pouco sobre as cabecinhas nacionais, aliás, um conceito revelador dos méritos analíticos do autor. As cabecinhas nacionais são um conjunto de 10 milhões de sistemas nervosos. Não é muito, mas é alguma coisa. Não me vou dar ao trabalho de provar como na tradição anglo-saxónica existe tanto a qualidade como a indigência, normal, onde há abundância de autores. A diferença relevante entre Portugal e a Anglo-Saxónia, em termos de cultura editorial, não está tanto no estilo dos livros publicados, como na crítica e rigor analítico na recepção dos maus livros publicados. Em Portugal foi o povo, nas redes sociais, a indignar-se. Na Anglo-Saxónia, Raposo seria dizimado por cronistas e críticos de referência. Curioso, não é?

Uma segunda nota para o aparelho ideológico do Estado no que à soberania dos neurónios de João Miguel Tavares diz respeito. É sintomático como recorre ao conceito de inteliigentsia, quando Maria Filomena Mónica e Henrique Raposo e o próprio João Miguel Tavares, se enquadram muito mais, e com menos entorse lógico, na dita inteliigentsia. Como não tenho tempo para explanar aqui esse ponto, consultem a wikipédia.

No fundo, importa ainda lembrar que o estilo (biografia + ensaio) do qual o pobre João Miguel Tavares não encontra melhor filiação nacional do que a Professora Doutora Maria Filomena Mónica, e que parece não ter entrado nas cabecinhas nacionais, teve muitos outros praticantes, mais cultos, mais equilibrados, mais conhecedores das mais diversas disciplinas, e com maior domínio da gramática. Talvez João Miguel Tavares esteja esquecido, devido ao facto de as cabecinhas nacionais serem agora deixadas à mercê de intelectuais públicos como Maria Filomena Mónica e Henrique Raposo. Contudo, repito, essa «inovadora» junção (biografia+ensaio) sempre teve cultores em Portugal, não é preciso ir fazer doutoramentos a Oxford para o saber, bastaria ter lido um bocadinho mais algumas cabecinhas nacionais, ou mesmo consultar os catálogos das bibliotecas, uma actividade capaz de provocar o bocejo, compreendo.

Já não vou a Almeida Garrett ou a Alexandre Herculano e presumo que será escusado falar de Francisco Manuel de Melo. Contudo, bastaria pensar, por exemplo, em dois livros editados no século XX, dois livros com um discurso claro e rigoroso, ou se quisermos ser pedagógicos, e utilizar a língua dos intelectuais Pingo-Doce, dois livros de estilo «anglo-saxónico», além dos mais, ainda disponíveis nas livrarias: Carlos de Oliveira, O Aprendiz de Feiticeiro, ou Fernando Namora, Diálogo em Setembro. São comunas, eu sei, mas isso não dispensa João Miguel Tavares de conhecer o campo e o «estilo», sobre o qual pretende dar lições acerca do que faz falta (à malta) ler. O desconhecimento absoluto da realidade nacional, como rampa de lançamento para uma provinciana subserviência anglo-saxónia, é sintomático de uma certa cultura Pingo-Doce, a que não gosto de passar atestados de menoridade, mas que se revela extremamente irritante, quando pretende escolarizar, sem saber o que é a scola. Em muitos casos, essas lições são possíveis, por lhe terem oferecido, na parvónia onde tanto cospem, cátedras universitárias ou colunas de jornais. Até porque essas espectaculares pessoas não encontraram lugar para exercer a sua competência na Anglo-Saxónia da liberdade e da sabedoria.

Como o próprio João Miguel Tavares reconhece, o risco do erro está lá, e está lá em doses cavalares. O arrojo interpretativo está sempre muito próximo do delírio, e da própria estupidez, conforme nos ensinou o sábio de Milão, desaparecido há pouco tempo. Para separar o delírio do arrojo interpretativo, convém recompensar os críticos, ou o sono da razão produzirá os seus monstros. Quanto ao bocejo do papagueio, tudo depende da espécie a que pertencemos. Os papagaios, por certo, encontram elevado estímulo no papaguear das papagaias, e vice-versa. Que os jumentos bocejem perante o canto dos rouxinóis, é normal, afinal de contas não entendem nada daquela doce melodia. Mas a Academia, e a crítica pública, foram criadas para estudar o comportamento dessa selva tribal e agressiva, submetendo-a à razão universal. Seria bom não desistirmos assim tão facilmente da análise, refugiados no coito da «biografia» ou da «liberdade de expressão». Se alguém se levanta para falar, é bom que seja tomado a sério, e é bom que o clima de crítica às ameaças e insultos, não sirva para dar livre trânsito ao disparate encartado, e à propaganda política, paga pelos jornais e as fundações, e apresentada ao público mascarada de literatura.

quinta-feira, 3 de março de 2016

Carta aberta à minha própria estupidez.

Aos desiludidos com o silêncio retroactivo sobre o assunto do momento, tenho respeitosamente a declarar a minha falta de jeito para as simplificações. A partir do momento em que começo a ser arrastado para a lama, fruto da estupidez sempre galopante em todas as matérias consideradas virais, reservo o direito de subir à minha torre de marfim, e apagar qualquer vestígio sobre tão deprimente figura e assunto. Fizeram de um parvo, publicamente agressivo contra pessoas e instituições, e atrevidamente ignorante, um mártir da liberdade de expressão. Com que então, um cronista de um dos jornais de maior tiragem, com acesso a televisões, financiado por uma das instituições culturais mais ricas do país, alçado a combatente pela liberdade, passou a ser apresentado como intelectual perseguido e silenciado? Ao que chegamos. Só nos últimos dois dias, já vi três novos textos do referido «silenciado» em três órgãos de comunicação social de grande tiragem (para não falar dos directores de jornais, televisões, revistas, políticos, jornalistas, almirantes, poetas, empresários, farmacêuticos, que logo correram a fazer soar as trombetas do alarme, em solidariedade com a vítima do povo em armas). Para isto, contribuiu uma incrível falta de inteligência, a começar por mim, mas sobretudo de todos os que. estupidamente, correram a insultar e a ameaçar a figura, da forma mais desajeitada e selvagem possível, incluindo na caixa de comentários deste blogue.

De um simplificador boçal e cheio de si mesmo, fizeram um herói da coragem literária e da biografia pessoal. Pois bem, não contribuirei mais para essa inacreditável perversão dos factos. Por estar nos antípodas do estilo e substância de um autor como Henrique Raposo, só posso vir a público reconhecer o meu erro. Quem sabe não terei ajudado, fruto da ironia mal compreendida, a incendiar algumas consciências. Quem sabe não terei contribuído para as tristes ameaças e insultos, e muito pior, para a construção do mártir. Só posso nesse caso fustigar a minha própria burrice e incapacidade.

A melhor forma de combater os estúpidos, é ignorar a estupidez, eis um princípio estrutural de uma boa vida, que teimo em não aprender. O controlo (e a proeminência) no espaço mediático pertence invariavelmente aos brutos, insensíveis e ignorantes. Os mais críticos de si mesmos, inteligentes, sensíveis e delicados com os outros e os seus problemas, afundam-se na incapacidade de resistir ao caos, à falta de sentido do mundo. Os mais cuidadosos e responsáveis acabam torturados pela sua consciência, perdidos e assustados no labirinto de consequências e desastres criados no seio da sua poderosa (desgovernada?) imaginação. Hesitam até à paralisia, diante da enorme variedade dos imprevistos humanos, receosos de terem prejudicado indevidamente alguém, triturados na máquina de esconder a injustiça a que chamamos realidade.

Talvez se possa chamar a isto cobardia. Ou cansaço de viver.

quarta-feira, 2 de março de 2016

A vida é curta mas não podemos recuar diante dos grandes dilemas da humanidade.

Na sequência da vaga de fundo irreprimível, vamos voltar a publicar a nossa entrevista fictícia (e satírica) e repito, entrevista fictícia, ou seja, inventada (ficou claro?) ao ilustre Henrique Raposo, mártir da liberdade de expressão.


Henrique Raposo, cronista do Expresso, licenciado em História, investigador em Ciência Política, homem desassombrado, considerado provocador, atacado pela esquerda, bastião da liberdade. Fomos entrevistá-lo a propósito do seu mais recente livro, Alentejo Prometido, no contexto desta recente polémica. A obra incendiou as redes sociais e alegadamente, um grupo de alentejanos já considerou a hipótese de invadir o local de apresentação do livro, apimentando o evento com uma carga de porrada bem distribuída, e fazendo jus à acusação de que o Alentejo é uma terra de violência, num estado de pré-guerra.

Henrique Raposo, obrigado por nos ter recebido aqui em sua casa. Antes de mais, sabendo da sua relação amor-ódio com o Alentejo, pergunto: como é viver em Lisboa?
Sabe, viver em Lisboa é excelente, as pessoas confiam imenso umas nas outras e as raparigas usam variadas vezes a palavra violação, sobretudo para descrever os preços das saladas vegetarianas.

Henrique, já que fala nisso, deixe-me ir direito ao assunto. Durante a sua polémica participação no programa Irritações da Sic Radical afirmou: «as alentejanas antigas não têm a palavra violação para descrever os abusos que sofriam. Ele chegou-se ao pé de mim e pronto».
Isso foi mal interpretado pelas redes sociais, aliás, as pessoas, burras e esquerdistas como são, neste país socialista, atrasado e cheio de alentejanos, tendem a interpretar mal as minhas lições de vida. Eu próprio, ao ser convidado para escrever este livro pela prestigiada Fundação Francisco Manuel dos Santos, fui alvo de uma experiência parecida. O gajo responsável por estes livritos (note-se, livritos vendidos praticamente ao preço do quilo da Amêijoa vietnamita, 3,15 euros, isto é quase dado) chegou-se ao pé de mim e pronto, convidou-me a escrever uma merda qualquer, desde que batesse nos comunistas. Como o Alentejo está cheio deles e a minha família é de lá, não precisava de perder tempo com esses vícios do socialismo como ler livros e exercer a crítica lógica.

Como definiria a experiência de escrever esta magnífica obra, Alentejo Prometido?
Vou dar um exemplo. Sabe, ainda em tenra idade, no monte da minha avó, um maltês pousou a pistola na mesa, e enquanto lhe eram servidos os ovos com linguiça, eu, uma criança já irrequieta, considerei aquilo uma infâmia e perguntei ao maltês se não tinha lido as obras completas de Toqueville. Ele encolheu os ombros. Irado perante o esquerdismo evidente do gatuno, quis saber se o mal-educado não tinha um Pingo Doce onde ir comprar os ovos e a linguiça.

Desculpe interromper, a esquerda é muitas vezes acusada de considerar o Pingo Doce uma instituição perversa, e considerando que o incentivo à criação intelectual deve ser controlado por instituições públicas, com critérios de selecção públicos, critérios esses passíveis de revisão por debate e mudança eleitoral.
Nem mais. Como vê, um absurdo, de outro modo, o público não teria sido brindado com a obra em apreço. Não é para me gabar, mas temos aqui um livro essencial como representação de segmentos da sociedade, descurados pela produção cultural, nomeadamente, os jumentos, mas adiante. O maltês ali estava, a mamar à conta da minha diligente e empreendedora família, quando podia perfeitamente ter adquirido os ovos e a linguiça num magnífico estabelecimento da excelente empresa Soares dos Santos. Mas não, bem pelo contrário, veio incomodar a minha família com uma pistola, dando uns tiros, e pousando a referida pistola em cima da mesa, num claro e inaceitável gesto de terrorismo regional.

Bem, é como diz, Henrique, e isso não o impediu de alcançar uma obra penetrante e arguta, sobre uma das regiões mais trágicas do país, o Alentejo.
Não, de todo, até porque ao escrever, não costumo utilizar o raciocínio lógico. Misturo umas memórias mais ou menos esfarrapadas de mau cinema americano, leio duas ou três páginas daquele velhinho meio holandês, e já um bocado tolinho, o José Rentes de Carvalho, passo a minha língua pela banda magnética do cartão multibanco, e sai-me naturalmente esta capacidade de provocar e combater os lugares comuns.

Fale-nos um pouco mais desta sua especialidade: a provocação. O Alentejo do turismo e do neo-realismo não é o verdadeiro Alentejo. Há toda uma verdade por revelar. No Programa da Sic Radical diz: «Os meus avós (avôs) não tinham carinho pelos filhos porque não tinham a palavra que afunilasse (e sublinho o afunilasse) o carinho, que é "criança"». Esta teoria de palavras capazes de afunilar conceitos, neste caso, o carinho, é algo que nestes últimos dias tem feito brado em algumas revistas de linguística, das mais prestigiadas universidades norte-americanas. Um estudioso chega a sugerir que a origem desta sua clarividente teoria, pode estar relacionada com o facto de os Alentejanos usarem muito o funil, quer para passar o azeite dos tonéis para os galheteiros, quer para passar o vinho dos garrafões para as garrafas.
Não me parece, nunca vi nenhum alentejano a utilizar o funil. A relação entre os conceitos e as palavras, no seio dos alentejanos, é uma relação feita através da faca e da pistola, razão pela qual existe tão pouca gente no Alentejo. E se pensar nisso, verá que é natural, as pessoas têm medo e vão viver para locais onde a confiança é predominante, como Rio de Mouro ou Almada, locais onde, em vez dos Malteses, os antepassados são decoradores de interiores vegetarianos e adeptos de budismo.

Algumas pessoas, tomadas pela inveja, avançam uma outra hipótese para a sua teoria do funil e da criança: a de os seus avós poderem eventualmente ter conhecimento da palavra criança, mas não se sentirem convidados a usá-la, diante de uma figura com a sua maturidade, mesmo quando tinha 6 ou 7 anos, e já lutava pela liberdade das galinhas poderem estabelecer o seu próprio sistema de saúde. Concorda?
Não concordo e vou explicar porquê. Essas pessoas devem ser todas alentejanas. O alentejano é por natureza uma pessoa desconfiada. Pense no cão, por exemplo, o rafeiro alentejano, ninguém fala nisso, mas é uma vergonha. Se chegar a uma aldeia ou vila alentejana, verá um grupo de cães a caminhar na diagonal, de um lado para o outro, em busca de um bocado de osso ou de uma cadelita onde sossegar os instintos, sem que as cadelitas conheçam qualquer latido para designar violação. São animais egoístas os cães alentejanos. Mas se chegar a Arouca ou a Vila Nova de Gaia ou a Santa Comba Dão, verá os cães reunidos em assembleia, desde rafeiros até galgos, a tocarem violino em orquestras de câmara ou reunidos em Parlamento, de onde se conclui que as escolas do norte do país, por estarem menos dependentes do socialismo do Ministério da Educação, e por serem fruto da liberdade cívica e do fervor das comunidades religiosas, até entre os cães conseguem estabelecer laços de confiança e criatividade.

Segundo afirma, os laços de comunidade são fortes no Norte e fraquíssimos no Sul.
Rigorosamente. No sul, como disse, predominaram sempre os malteses, uma espécie de cowboys, bandidos e revolucionários. Uma espécie de cruzamento entre Che Guevara, John Wayne, um cesto de coentros e umas calças de ganga. Os malteses ameaçavam incendiar as colheitas dos proprietários e com este repugnante ataque à propriedade privada, semeavam a violência, e por isso, a desconfiança. Como toda a gente sabe, os malteses são os antepassados da Mariana Mortágua. Só lhe falta ladrar.

Mas no norte, não existirá registo ou vestígio de violência similar?
Nem pense, de todo. Conheço bem o norte, tenho um primo maluco que fez a tropa em Chaves.

Mas em que dados históricos ou sociológicos se baseia?
Ora, não me diga que também é socialista. Baseio-me na minha rica e paranóica experiência em casa dos meus familiares em Santiago do Cacém. Mas deixo aqui mais uma prova irrefutável: já viu a quantidade de malucos no Alentejo? A opção de semear sobreiros ou oliveiras, espaçados entre si, decorre de uma intenção perversa. É para melhor se poderem enforcar em solidão, e com absoluta desconfiança entre si. No norte, por exemplo, predomina o pinhal e nalguns casos, o castanheiro, ou o carvalho. Em todo o caso, tudo árvores altas, precisamente devido ao facto de as pessoas não gostarem de se suicidar. No caso de se verem forçados a fazê-lo, as árvores estão todas juntinhas, o que reforça os laços de confiança.

Mas diga-nos Henrique Raposo: o suicídio é ou não um fenómeno natural no Alentejo?
É curiosa essa pergunta. Repare: ninguém contesta moralmente um terramoto ou o nevoeiro.

Depende, no estádio da Choupana, na Madeira, contesta-se o nevoeiro.
Está bem, nesse caso, sim, mas em geral, as coisas chatas acontecem e pronto. O alentejano vê o suicídio como um fenómeno natural. Olha, matou-se. O que é uma vergonha, as pessoas julgarem que podem agarrar numa corda, enrolar um ramo de figueira, fazerem um nó, e enforcarem-se, num mundo onde existem tantas maravilhas, como eu próprio, ou os livros do Pingo Doce. No outro dia, pretendia ir a um café, numa aldeia da zona, algures no Alentejo, e a senhora, olha para  mim, com um ar de alentejana e diz: está a ver aquele ajuntamento ali. Ele matou-se. E disse isto como quem diz: eu sou do Porto ou do Benfica, ou mesmo, ofereceram-lhe um livro do Henrique Raposo. Já viu bem? Isto não é admissível.

Há muitas pessoas que o consideram apenas um parvo, a quem foi dado um incrível protagonismo, ou por razões comerciais, uma vez que a raridade da sua estupidez atrai imenso público, ou simplesmente por similar estupidez de quem o convidou a escrever, incentivando a sua falta de noção perante o disparate, dando livre circulação à sua despreocupada ignorância e olímpica burrice. O que diria a estas pessoas?

Sinceramente, diria que não passam de uma cambada de socialistas e inimigos da liberdade de expressão, adeptos dos lugares comuns e dessas banalidades, nomeadamente, a crítica esclarecida, a especialização, o trabalho e conhecimento da literatura específica dos assuntos em apreço. Se dermos demasiada importância a essas pessoas, corremos o risco de acabar encurralados numa sociedade totalitária, controlada por alentejanos, sem venda retalho e sem lucros, nem Fundações, sem incentivos privados à criatividade dos verdadeiros intelectuais, num país tão necessitado dos meus conhecimentos.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Em defesa de Pedro Chagas Freitas (e sem ter ingerido qualquer bebida alcoólica).

Desde há muito tempo nos perguntamos: quem são os nossos inimigos? A fazer fé no jornalismo desportivo, temos para nós ser fundamental a constituição de um menu de inimigos, seja por razões de coesão interna (e sabe deus como precisamos de um antídoto para a dispersão mental dos nossos supersónicos interesses) seja por razões de eficiência estratégica (e sabe deus a dificuldade das pessoas em calcular os efeitos de uma decisão neste mundo onde reinam os pivots da Correio da Manhã TV). A fazer fé nesse épico freudiano-ó-militar, Coriulanus, a natureza ensina quem são os nossos inimigos. Mas nós desconfiamos da natureza (já pisámos demasiadas vezes cocó de cão, aleatoriamente deixado num passeio de calçada à portuguesa, sem nada disto ter sido assinado por Joana Vasconcelos).

Assim sendo, somos forçados a utilizar o poder computacional da nossa cabeça. No mundo da literatura (vamos para já assumir este conceito operacional, imaginemos, sei lá, uma jaula de macacos) não há entendimento claro sobre o valor estético de uma obra, e ainda assim, há consensos. Quase todos os conhecedores, críticos, treinadores de bancada, leitores especializados, massagistas, escolheriam, por exemplo, Gonçalo M. Tavares como um digno representante da «grande literatura». O crítico marxista-leninista-jornalista António Alexandre Lucas Guerreiro chega mesmo a dizer como Tavares vale por uma literatura inteira.

Todavia, contudo, temos cada vez mais interesse em pessoas menos dotadas de antecedentes metafísicos, pessoas limitadas, mas com capacidade para potenciar de forma quase milagrosa os seus parcos conhecimentos, colocando-os ao serviço ninguém sabe de quê. Pensemos no edificante exemplo de Abel Xavier, antigo futebolista internacional português e atleta de vários prestigiados clubes, sem ter chegado a saber o que era uma bola. Quando um escritor como Chagas Freitas, do alto do seu talento para inventar títulos (assim como dos alçapões do seu absoluto desconhecimento da mecânica da metáfora ou da narrativa) inventa um império comercial, ao estabelecer a Lamecholândia (como o próprio ironicamente afirma) como derradeiro destino da natureza humana, está a ser de uma sinceridade atroz. Estamos seguros em reconhecer como o público (no meio da sua comovente burrice mas também entronizado pela sua soberana capacidade produtiva e falta de tempo) corre a premiar esta sinceridade, este galopante desejo em comunicar, esta leveza estilística, para utilizarmos um conceito caro a Italo Calvino. Que as obras de Chagas Freitas sejam tão leves ao ponto de não levar nada dentro, é fenómeno merecedor de todo o interesse, e não se julgue que estou a brincar. Naquele rendilhado mecânico, naquela matemática sentimental (com variáveis reduzidas quase ao absurdo do binário gosto/não gosto e amo/não amo) onde o mais ignorante leitor consegue encontrar alguma coisa da sua tragédia mental, há um gosto pela engenharia de paradoxos (Prometo Falhar e Ou é tudo, ou então não vale nada) bastante mais interessante do que a acrobacia aristocrática (e plastificada) do professor universitário Gonçalo M. Tavares. Os jogos a que Chagas Freitas se presta na sua relação comercial com os livros, são de uma inteligência refinada, directamente proporcional à sua enciclopédica ignorância dos grandes textos, o que permite a Chagas Freitas dormir sossegado (isto em princípio, nunca - deus nos livre - compartilhámos a cama) mesmo depois de produzir milhares de páginas de uma falta de inteligência atroz.

Mas quem pretende inteligência pura, recorrerá à literatura? Duvido. Ou melhor, antes de sermos agredidos por deputadas do Bloco de Esquerda (o que muito nos agradaria, ao contrário de Pedro Arroja) clarifiquemos este ponto. Os territórios da razão lógica e da especulação matemática onde Tavares julga arriscar um lugar de prestígio, estão muito para lá das capacidades do mesmo Tavares, e esta propriedade sobre um olho em terra de cegos, é uma coisa para a qual me falta saúde, paciência e dinheiro. Quem passar os olhos pelas páginas da obra de Tavares (e o mais difícil será escolher por onde começar dada a prolixidade do génio) e tiver frequentado, pelo menos, o currículo de Matemática do 12º ano, não leva nada de significativo em termos de capacidade operativa, curiosidade ou conhecimento dos belíssimos labirintos do pensamento exacto. Quem tiver lido os sonetos de Camões nesse mesmo 12º ano da era da sua própria escolarização, também, convenhamos, ficará muito insatisfeito com as experiência emocionais proporcionadas pela obra de Tavares, à parte um livro onde a acção começa com um pequeno-burguês a «fazer» a criada. Já o despreocupado e pouco exigente leitor de Chagas Freitas, também não atingirá os terrenos obscuros dos fundamentos da matemática ou das lógicas não lineares, nem a sofisticação emocional do carrossel camoniano (ora com lágrimas correndo no rosto, ora desejando a morte do dia do nascimento) mas terá pelo menos a experiência de contacto com a mente de uma pessoa com algum conhecimento dos seus limites (e sabe deus a falta que isso nos faz nos dias de hoje) uma pessoa, e falamos de Chagas Freitas, note-se, com a coragem (inteligência?) suficiente para desvalorizar a literatura na era dos computadores e dos bombardeamentos da Síria.

Que Gonçalo M. Tavares chame repetidamente a si mesmo o papel de guardião da consciência moral e impute à (sua) literatura a função de despertador, ao contrário de uma literatura supostamente com propriedade soporíferas, é um sinal bastante claro, de como o mesmo Tavares se permite destacar a raridade da sua inteligência, e apresentar-se como um pilar da cultura, desconhecendo como o futuro se rirá da superficialidade académica das suas brincadeiras vocabulares, tal como hoje, todos nos rimos das academices de Filinto Elísio. Eis-nos pois chegados ao nosso resultado. No momento de sermos chamados a escolher (diante de um pelotão de fuzilamento) um titular da nossa herança mental e guardião dos nossos manuscritos, não hesitaríamos em escolher Chagas Freitas, uma pessoa consciente de que em primeiro lugar, vem a nossa paixão pelas mulheres/homens/cães/gatos/bananas/objetos de borracha (riscar o que não interessa) e só depois, as nossas construções programáticas e holográficas sobre o mundo. Sim, podemos afirmar corajosamente: não hesitaríamos em escolher Chagas Freitas, não só por estarmos com uma venda nos olhos (e não termos de olhar para a sua cara) não só por estarmos prestes a entrar no reino da morte, mas também pelos seus notáveis dotes de organização comercial e empreendimento, uma pessoa, creio, consciente de que os livros servem para ganhar dinheiro e prestar um serviço, e isso da literatura, é um lugar onde só os chamados têm entrada.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

O que raio se passa com a academia portuguesa ?

1. O Mário Centeno foi apresentado ao público, e pelo Público, como sendo o campeão intelectual da esquerda. A pessoa que suportava intelectualmente o exercício da "Agenda para a Década".  Afinal o homem é doutorado em Harvard.

Não faço puto ideia o que é que se ensina em Harvard, que eu só andei por chafaricas nacionais.  Mas estou curioso em saber se em Harvard é normal argumentar que não se devem “transpor conclusões de artigos científicos para a legislação nacional, porque se tentar fazer isso é um passo para o desastre”.

Primeiro porque é falso. Prova, bastaria um exemplo, mas eu sou um tipo generoso: o plano nacional de vacinação, a saudosa RITA dos anos 90, as siglas NP e CE. A não ser que sejam catástofres nacionais o aumento da qualidade de vida da população, a existência corriqueira de um telefone fixo cá em casa ou o meu micro-ondas não ter rebentado quando aqueci a sopa da garota.

É perfeitamente normal que as conclusões de um doutorado, por exemplo em Harvard, não sejam aplicáveis ao Portugal de 2016. Porque os pressupostos que sustentam o estudo não são válidos, porque o estudo afinal tem erros, porque um paper não se resume ao abstract e às conclusões, etc....

Que o Mário Centeno, em vez de falar claro e sem preconceitos, se tenha refugiado numa desculpa esfarrapada é triste. 

2.O Paulo Pereira Trigo por seu lado é doutorado em Leicester. E consegue nos dois artigos que publicou no Observador, (no primeiro) confundir a média com a mediana e (no segundo) demonstrar uma perfeita ignorância do mundo fora da academia. O primeiro erro é lamentável vindo de quem vem, o segundo é patético. E como não é um doutorado em Harvard, termina por aqui a crítica.

3. O Porfírio Silva tem um doutoramento em filosofia, ignoro a alma mater. E lançou hoje a hipótese de que "é bem possível que a Comissão Europeia esteja a tentar tramar o governo português".

Sim é bem possível. Como também é bem possível que a Comissão Europeia se esteja nas tintas para o Costa. Outra possibilidade é a de que o mundo seja um disco, suportado por quatro tartarugas que por sua vez estão suportadas cada uma por uma baleia com um foguete a cagar lume do cú. Possibilidades, tal como os chapéus, há muitas. A estupidez essa, é infinita.


Aguenta: não chora.



Qualquer dúvida urgente da jornalista, comediante, nóbel da paz, representante do Magrebe e enviada especial ao reino dos sete-dias-por-semana-são-para-escrever-um-livro, a doutora Alexandra Lucas Guerreiro Coelho ou mesmo do meretíssimo magistrado, o senhor professor e almirante António Alexandra Lucas Guerreiro, sobre o que possa vir a pedir-se a todo o artista que é artista, e sabe ser artista, é consultar este Verbete da enciclopédia Luso-brasileira. Se ainda assim, permanecerem dúvidas sobre o destino do escritor numa sociedade sem apoios, sem classes, sem auxílio na montagem de móveis do Ikea, sem solução estirpada, estripada, estilhaçada de ambiguidades no que ao uso do vídeo-árbitro diz respeito, e sobretudo, mas não esquecendo, sem tremoços no acompanhamento da imperial, amanhã mesmo, viremos a este mesmo local de paraíso, esclarecer todas as dúvidas restantes, incluindo as dos leitores crentes na literatura especulativa em torno das aparições de Fátima, pois como todos sabemos, em teu ventre, Maria, Sara, Ana, Lúcia, ou seja, Lucília Baptista, perdão, em terra de cegos, quem tem um olho é cronista do Público: eis o que se pretende demonstrar.

Sem pinga de ressentimento ou ideias desagradáveis a uma pessoa que só poderia um dia ousar um fraterno abraço a uma tangente (muito hesitante) a qualquer actividade socio-paneleira, no caso de esse dia, ser o dia em que Rousseau descesse novamente à terra, prometo por minha culpa, por minha tão grande culpa, fazer todo o possível por explicar o dilema económico de um mercado para o trabalho intelectual, sem ultrapassar o intervalo psicadélico de uma geração, ou seja, pretendo não violar os limites tecnológicos de um belíssimo texto intitulado «O que é uma cotovelada», texto esse, digamos, elaborado com o escasso tempo roubado ao bem remuneradíssimo labor da minha tão convidativa vida de visibilidade permanente, em prol das mais diversas actividades ciganó-culturais, nomeadamente, a intoxicação alimentar com chamuças estragadas num café-bar-restaurante, propriedade de imigrantes minhotos, a saber, O areal. E isto, caros concidadãos e irmãos em Cristo, sem passar pela casa da partida, sem seguro de saúde, sem receber dois contos, sem nunca ter ido ao Brasil (deus nos livre de morrer sem lá ir) sem rebentar o sistema nervoso central, e ainda antes de o galo cantar e o sol voltar a ser decapitado pelo rolar irreversível da grande noite que a todos nos deu vida.

sábado, 5 de dezembro de 2015

E disse o Senhor a Caim: Onde está Abel, teu irmão? E ele disse: Não sei; sou eu guardador do meu irmão?

Apenas um pormenor me chamou a atenção do entrevista ao irmão do Abdeslam Salah, o tipo que se acobardou aquando dos atentados de Paris e se presume estar escondido em Bruxelas.

Quando a entrevistadora perguntou ao irmão se não notou nada de estranho no comportamento dos irmãos, uma vez que os dois participaram nas atrocidades do passado 13 de Novembro. E a resposta foi, que efectivamente não tinha reparado em nada de estranho e que não tem sequer a possibilidade de andar a seguir o que os irmãos faziam. Embora eu acredite que Mohamed Salah esteja a ser sincero, a frase que serve de título não está la por acaso.

A senhora da foto escreveu no ínicio dos anos noventa Islam and Democracy, em parte como catarse após a primeira guerra do Golfo. A ideia que passa é a de que as sociedades muçulmanas estão ainda na fase da adolescência. Confusas, perdidas e zangadas com tudo e todos. Bem sei que as generalizações devem ser evitadas, mas é difcíl quando se fala sobre um livro que trata ao de leve algo tão complexo como a grande comunidade muçulmana (a Umma) ao longo dos séculos.

Embora a autora revele ela própria sinais de grande confusão, acertou na mouche quando aponta um dedo às cleptocracias que geralmente ocupam o poder nos países muçulmanos e mantêm a gleba sem outra esperança que a da sobrevivência diária. O outro está apontado a nós, os ocidentais (o Edward Said que me desculpe) por pactuarmos com ditadores do outro lado do Mediterrâneo. Digo ditadores porque o livro foi escrito nos anos 90, hoje provavelmente seria a indeferença que mostramos para com os conflictos sangrentos que lá sucedem.

Fica portanto a pergunta, serei eu o guardador do meu irmão ?

domingo, 29 de novembro de 2015

Será que os terroristas são muçulmanos ?

A resposta é um inquívoco, rotundo e sólido sim. Porque primeiro, eles se definem assim. Segundo porque o Islão não é um bloco homogéneo, e existem diferentes prácticas (sunitas, shiitas, sufis, etc..). Terceiro porque o Islão não é uma religião de paz, no sentido em que os seus praticantes são pacifistas empedernidos que não fazem mal a uma mosca.

A pergunta que se coloca agora é porque é que o Islão tem o quase monopólio da produção do terrorismo. Mais abaixo, e de forma muito atabalhoada, tentei uma resposta que resumidamente se traduz nisto. Boa parte da história original do Islão, e para os fanáticos portanto o Islão na sua forma mais pura porque mais perto da fonte, é violenta.  Os tipos e tipas que se deixam seduzir pelo terrorismo encontram no Islão a justificação para o nihilismo que seguem. Não fosse o Islão, e eu estou convencido que este tipos e tipas se dedicariam ao roubo, à prostituição, ao tráfico e, os mais extroviados d'entre eles, o assassínio.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Renovada genoflexão ao Edward Said

Sendo certo que discordo em alguns pontos do cavalheiro acima retratado, estou em crer que acertou na mouche quando afirma que os orientalistas (um termo perjorativo para Edward Said) vêem no Oriente uma reflexão dos seus desejos e medos mais intímos.

Se nos séculos XIX e XX, eram europeus letrados que iam em peregrinação pelo Oriente à procura de si mesmos, agora são jovens muçulmanos nascidos e educados na Europa a procurar no Oriente a resposta às suas inquetações espirituais.

Religiões de paz

Fraternização inter-religiosa de Bordeaux (c 732), com os muçulmanos a explicarem que o Islão é uma religião de paz, a um grupo de gauleses cristãos decididamente insensíveis a subtilezas teológicas. Uns quilómetros mais acima foi a vez dos cristãos explicarem que de paz percebem eles.

Hoje na TV belga, o coordenador europeu contra o terrorismo afirmou, com a calma de quem pede um pires de tremoços, que estimava em 100 mil os cidadãos europeus que decidiram ir em excursão atè a Síria. E que cerca de um terço infelizmente (o advérbio é meu) voltou.

Para as almas mais sensíveis volto a insistir que a violência vêm em várias cores. Temos, por exemplo, o mui católico Ruwanda conseguiu eliminar À katanada, cerca de 800 mil (!) almas em menos de dois meses. Ou a profundamente protestante alemanhã que reduziu a cinzas cerca de 6 milhões de humanos.

Compare-se agora com os atentados de Boston, que mataram três (sim três) pessoas e feriram com mais ou menos gravidade outras 246. Irrelevante no que toca à quantidade, eu quero antes me focar na qualidade. Os irmãos Tsarnaev fizeram pelo menos 17 mil quilómetros (ida e volta entre Boston e Grozni) com o objectivo final de matar pessoas que, provavelmente na sua imensa maioria, não sabem sequer pronunciar Chechénia.

Ou seja, a violência dos terroristas islâmicos não é contra os vizinhos (como no Ruwanda) mas sim contra uma categoria: todos os que não são como nós. Tal como os Nazis fizeram nos anos 30 e 40, por exemplo. E os bolcheviques e mencheviques antes deles.

domingo, 22 de novembro de 2015

Profunda vénia ao Edward Said, seguida de uma oferta de explicação para os tempos que vós acompanhais pela televisão e eu tenho a felicidade de assistir quase em directo. No momento em que vos escrevo, estão a occorrer várias operações policiais, duas delas a menos de 3 km da minha excelsa pessoa e as sirenes são audíveis. Mas está tudo bem, o Islam marcou e o Sporting ganhou.

Tal como o Edward Said, eu não acredito que o que se está a passar actualmente seja um confronto civilizacional. Não me interpretem mal, a Europa e o Médio Oriente são como o dia e a noite e se (actualmente) vivem lado a lado é devido a meras contigências geográficas e históricas. Pese embora representantes das supracitadas civilizações, EUA e agora a França de um lado e o Daesh do outro, andarem a trocar mimos entre eles não deixa de ser verdade que na Síria o Daesh está a levar com a Rússia (civilização ortodoxa com sabor a comunismo e temperada com pós de KGB), o Bashar (nationalismo arábico sabor a comunismo requentado) e outros ramos do Islão que agora não me lembro. A situação é portanto mais complexa do que aparenta, e portanto deixemos o mundo de faz de conta para o Costa, Centeno e associados.

O problema com o Huntigton é que está meio certo, não acertando no alvo também não o falha completamente e isso é quanto basta para que os comentadeiros se sintam confiantes em desfilar ignorância pela tv, rádio e jornais. Pior ainda no caso de quem, como este vosso criado, efectivamente leu o "Confronto de Civilizações". O Huntington fornece uma teoria, e as ferramentas, para a trabalhar. E como o homem falha o alvo por pouco, é extremamente sedutor alinhar pela melodia do confronto de civilizações.

Olhando para o desperdício de ribossoma e demais ácidos nucleicos que andaram por Paris a espalhar destruição, constato que se trata de indivídios (passe o abuso de linguagem) com vidas profundamente antisociais. Até terem encontrado o caminho para a Síria, um dia bom consistia em foder, ganzar e beber. Chegados à Síria, continuaram como dantes mas de kalash nas mãos. Estou em crer que em condições normais, estes tipos acabavam ou presos por tráfico e roubo ou com vários tiros no lombo, cortesia do gangue rival.

E o que são condições normais ? Demos um salto até ao Brasil. Nas favelas do Rio e São Paulo, decorre uma guerra urbana entre traficantes e polícia. Estou em creer que os tipos de Molenbeek, nunca teriam encontrado o caminho para a Síria se tivessem nascido no mui cristão Brasil. Porque para a vida de miséria espiritual e material, que os tipos levavam aqui em Molenbeek e noutros quartiers de Paris, o escape social devidamente sancionado no Brasil é a criminalidade e a violência com a bófia.

Trazidos de volta a Bruxelas e Paris, podemos constatar que uma não desprezável parte da população atrás das grades são exactamente magrebinos. Dito de outra forma, a criminalidade como a válvula de escape existe por cá também. Então porque é que os tipos fizeram a merda que fizeram ?

Aqui chegados é altura de jogar a manilha de trunfo, que tínhamos guardada. Eu estou convencido que o Islão facilita e justifica a via da violência como meio de afirmaçao, e controlo territorial, de um grupo. Olhando para os tempos iniciais do Islão, vemos um pequeno grupo a tentar sobreviver num meio que lhe é hostil, matando e roubando sempre que necessário. A identificação que um terrorista fará entre a sua vida e a do profeta, parece-me fácil de fazer. Aliás, a biografia que Lawrence Wright faz de Zawahiri e Bin Laden é disso exemplo. Os tipos passaram as passas do Algarve, e muitas vezes quase tudo parecia perdido. Penso que se viam como encarnando uma versão moderna do profeta, e a forma quase miraculosa como foram escapando com vida das várias encrencas em que se meteram, apenas reforçou a esta crença.

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O irmão do Salah Abdeslam foi hoje entrevistado pela televisão belga. Prefere que o irmão seja preso antes que morto. Eu também. Já chega de morte.

Tempo de reflexão

Um comentário típico dos muçulmanos tem sido que os fascínoras de Paris (e Síria, e Nigéria, e Mali, e Afeganistão, e etc...) não são muçulmanos porque bebem, fumam e não vão à mesquita. Curiosamente ausente da lista de coisas que os muçulmanos não fazem está o matar gente indiscriminadamente.

sábado, 21 de novembro de 2015

Sobre as reacções

A reacção quase unâmine das pessoas que conheciam os terroristas, foi de espanto e incredulidade. Eram todos bons rapazes, não se percebe como e porque é que fizeram o que fizeram.

O tom dissonante é em relação à moça que se fez explodir, sobre a qual disseram o que Maomé não disse do toucinho. Não deixa de ter a sua piada. Eles bons rapazes, ela uma putéfia.

Uma outra reacção típica, no sentido Newtoniano, foi a de classificar os bairros onde viviam os tipos como sendo lugares aprazíveis, onde podemos sem qualquer problema, deixar a carteira e o telemóveis bem visíveis dentro do carro destrancado.

A última reacção que se costuma ver, classifico-a como "os muçulmanos com quem eu me dou são todos tipos simpáticos". Como é óbvio, porque se não fossem tipos fixolas não estariam no vosso círculo de amigos.


Cuidado com as falácias

Antes de tentar responder à pergunta aqui por debaixo, duas pequenas notas sobre esta discussão.

Aqui compara-se Jesus e Buda a Maomé. Indirectamente, está certo, mas a comparação está lá. Buda desconheço, mas Jesus é (para os cristãos) Deus encarnado enquanto que Maomé e Jesus são (para os muçulmanos) profetas.É natural portanto que a relação do cristianismo, nas suas várias formas, com Jesus seja distincto da relação dos muçulmanos, mas suas várias formas, com Maomé.

Termino com uma chamada de atenção para o facto de o catolicismo ter em tempos bem recentes, sujado as mãos q.b. no Ruwanda ou na Bósnia. Não pretendo com isto nivelar o campo moral, apenas sim chamar a atenção para os diferentes tipos de violência que estão em jogo. No Ruwanda, por exemplo, foi todo um grupo que se dedicou, com brio e afinco, a chacinar outro. O Daesh, tal como o Boko Haram ou a Al-Quaeda, têm como objectivo o controlo territorial e a legitimação internacional desse controlo.



Pergunta

Um dos argumentos mais ouvidos sempre que um muçulmano se explode após ter morto uma mão cheia de inocentes, é que ser muçulmano não é ser terrorista.

Pois bem, seja. O que distingue então os muçulmanos dos tipos por detrás das carnificinas de Paris, Síria, Boston, Nova Yorque, Madrid e Londres (concentrando-me apenas e só no presente milénio) ?

sábado, 14 de novembro de 2015

Paris 13Nov15

Show me just what Muhammad brought that was new and there you will find things only evil and inhuman, such as his command to spread by the sword the faith he preached.

God is not pleased by blood – and not acting reasonably is contrary to God's nature. Faith is born of the soul, not the body. Whoever would lead someone to faith needs the ability to speak well and to reason properly, without violence and threats... To convince a reasonable soul, one does not need a strong arm, or weapons of any kind, or any other means of threatening a person with death...

Manuel Paleólogo


Estou a braços com uma dissonância cognitiva. Eu sei que os muçulmanos são pessoas como eu. Mas pessoas como eu não andam a matar pessoas como eu. Portanto, será que os muçulmanos são pessoas como eu ?

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

A Faina: uma história social.

Joel Neto, A Faina



Mágoas e traições. Solidões. 
Dificuldades e tropeções. Trapalhões. 
Falta de talento e ambições. Escoriações.
Homem embriagado, ontem à noite, em Matos Cheirinhos, Abóbada.



Julgo termos já chegado aquela saborosa fase da nossa relação, em que nos podemos permitir coisas, como o não justificar a abordagem de um dado escritor, em vez de um outro qualquer. Além do mais, foi-nos pedido expressamente, na caixa de comentários, que voltássemos a Joel Neto. Pedido justo, legítimo. Contudo, não tivemos até ao momento qualquer oportunidade para desenterrar esse glorioso marco na história do jornalismo português. Nem sequer nos despertou qualquer sentimento de análise, o anunciando «regresso do grande romance aos Açores» (de onde, parece, o grande romance tinha partido, em busca de melhor vida). Hoje, porém, encontrámos, por mero acaso, uma melancólica reflexão sobre a faina, da autoria do aclamado autor insular. Como o leitor pode constatar, a crónica A Faina é uma bonita rememoração, quase Elegíaca, de um homem a braços com a sua culpa (embora também inclua cavalas e código morse, e uma senhora chamada Catarina, aparentemente, suada). Ora muito bem, eis, finalmente, um regresso a esse tema literário por excelência: a culpa, a melancólica e ocidental culpa, a culpa de não ter nada para fazer, enquanto se repuxa da minúscula cabeça o doloroso parágrafo, e enquanto os pescadores anónimos, ao longe, se preparam, alegadamente, para  pesca da cavala, espécie a que, hipoteticamente, fará mal o Outono; não sabemos, é uma ideia, apenas em tese, avançada no texto.

Joel Neto é um belo cultor da frase curta, não querendo arriscar as esquinas dos períodos mais longos, embora por vezes, a fazer fé no seu relato, procure ler morse, sem saber morse. O leitor pergunta-se: porque tenta alguém ler morse, sem saber morse? Talvez pela mesma razão que muitos se arriscam a serem escritores, sem saber escrever. Seria injusto, contudo, ficar pelo elogio da frase curta. Há nesta crónica uma panóplia de sentimentos contraditórios, desde o aguçar dos ouvidos para constatar o rumor da música pop e o marulhar das ondas, até à constatação fria, cruel, verdadeira, de que todos os Invernos morrem pescadores

A alusão às tempestades e aos pedidos de socorro imprimem no leitor um sentimento de perigo, em que logo vêm à imaginação os dolorosos naufrágios da costa portuguesa. Mas não se julgue que Joel Neto, lançando mão do sentimentalismo barato, ou à boleia do baixo jornalismo, que tão amiúde e corajosamente o nosso autor vitupera, procura tirar partido dos mais recentes e dramáticos episódios na costa portuguesa. Quando Joel Neto se refere às mulheres em casa rezando, é na paleta memorial da nação que vai molhar o seu pincel: velhinhas nazarenas ou poveiras, tão do apreço de poetas cantores como António Nobre, aparecem no carrossel de alusões de A Faina, e aí, Joel Neto, embalado pelo seu talento natural, arrisca o ritmo na sua prosa forte. O resultado de tão arriscado e profundo malabarismo, onde estão em jogo o próprio destino da arte da escrita e até a sorte de toda a zona económica exclusiva, é este bonito balançar da língua: Mágoas e traições. Solidões. Não resistimos a repetir a citação: Mágoas e traições. Solidões. O leitor que permaneça (ou fique) surdo com os encantos deste sonoro tambor, a ecoar por dentro dos miolos qual gongo chinês, pode não ter muitas certezas neste mundo, mas uma coisa podemos garantir: nunca entenderá a beleza da prosa da Joel Neto.

Além da beleza sonora, assalta-nos o provocador conteúdo da batida. Mágoas dos pescadores obrigados a deixar o seu lar, enquanto ele, Joel Neto, se senta confortável à lareira com os seus cães? E como sofre um homem comovido. Mágoas das mulheres rezando? Enquanto os seus maridos, companheiros e amantes vão para o mar arriscar a vida por uma cavala? E traições de quem? Dos que insensíveis à sorte dos homens do mar, continuam absortos nas suas vidas, incapazes de reconhecer um homem de talento como Joel Neto? E as solidões? Do mar, das varandas no Terceira-mar, dos píncaros onde vive solitário, o grande criador de parágrafos, obrigado a dominar as vagas de melancolia empurradas pelos furiosos ventos de uma sensibilidade incomparável? São perguntas com que o leitor se debate, no meio de uma profunda dor moral e de um indisfarçável prazer artístico.

Mas Joel Neto não se perturba com o sucesso da sua arte, e muito menos se deixa salpicar com a lama das emoções fáceis. No recato da sua profunda serenidade, não comenta as traições, as mágoas, ou as solidões. Refere, condoído e triste, o regresso da sua companheira de viagem (não sabemos se esposa, filha ou amante) a suada Catarina, após o justo exercício do ginásio. E aí, caros leitores, o escritor Joel Neto, esmagado pelas lutas interiores a que se entregou na varanda do bar, moído por uma inteligência capaz de comover-se com a sorte de homens infelizes, meros joguetes nas mãos do tresloucado mundo (Ouvirão esta música? Decifrarão as luzes do hotel? Que histórias contarão entre si? Que libertação, que desespero experimentarão a bordo daquele barquinho que uma onda poderia virar?) aí, o escritor Joel Neto, mortificado pela consciência de que vai em busca da lareira, dos cães e do sossego do seu lar, aí o escritor vibrante, pois sente a bondade e o conforto da cena campestre que está prestes a protagonizar, fazendo crepitar a lenha, rodeado de cães e das recordações do seu terrível e belo entardecer na varanda sobre o mar, aí, meus estimados leitores, o verdadeiro escritor não poderia nunca deixar de fazer essa dolorosa e derradeira pergunta: haverá cavala amanhã?

Não se julgue que falhamos aqui o significado profundo desta ironia. Não, Joel Neto não é desses arcádicos ocupado com jogos e flores. Joel Neto não nos atiraria com dúvidas sobre a cavala, se com o peixe não viessem também tesouros de sensibilidade. Joel Neto, ao perguntar pela cavala, insulta o desprezível modo de vida burguês, preocupado com a escassez da cavala e as virtudes do ômega 3, e desse modo, espeta no coração desta sociedade, falha de valores e de homens sensíveis, o verdadeiro aríete da revolta social, a palavra poética. Mesmo que a capitanear essa revolta social, venha uma pergunta acerca da comparência, na manhã seguinte, de uma cavala assada no forno. Qual Victor Hugo do Terceira-Mar (um product placement, que esperamos não envolva contrapartidas) Joel Neto obriga o leitor a terminar o seu texto, não o deixando partir sem lhe desferir uma vergastada no coração. 

Caríssimos leitores, poderão rir à vontade, se for esse o vosso desejo, mas a verdade é que, amanhã, ao almoçar, saberão como cada cavala despejada no vosso prato, implica o trabalho e o risco de vida de cada um dos pescadores que andou na dura faina. Saberão que foi preciso Mágoas e traições. Solidões. para que essa cavala possa agora jazer no prato entre salsa e batatinhas. Por isso, Joel Neto faz questão de nos lembrar: por cada conjunto de pescadores que arrisca o coiro, há um gajo numa esplanada a coçar a micose, enquanto espera pela Catarina, ainda suada. Quem paga estes vagares? Não sei, nem me diz respeito. Poderá esse gajo, habituado a coçar a micose na esplanada, ter hipóteses de vir a escrever algo capaz de agradar a este crítico? Não sei, mas desconfio que não tenha jeito para a faina.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Tenham lá paciência, mas estando nós fartinhos de filhos famílias (a arrastarem o seu sofrimento metafísico em sofás de pele, e diante de estantes com livros) estamos completamente apanhadinhos por esta lufada de ar fresco chamada Joanne Rowling (por outras palavras, há quem diga sabedoria, ou seja, o que mantém viva a literatura).



I cannot remember telling my parents that I was studying Classics; they might well have found out for the first time on graduation day. Of all the subjects on this planet, I think they would have been hard put to name one less useful than Greek mythology when it came to securing the keys to an executive bathroom.

I would like to make it clear, in parenthesis, that I do not blame my parents for their point of view. There is an expiry date on blaming your parents for steering you in the wrong direction; the moment you are old enough to take the wheel, responsibility lies with you. What is more, I cannot criticise my parents for hoping that I would never experience poverty. They had been poor themselves, and I have since been poor, and I quite agree with them that it is not an ennobling experience. Poverty entails fear, and stress, and sometimes depression; it means a thousand petty humiliations and hardships. Climbing out of poverty by your own efforts, that is indeed something on which to pride yourself, but poverty itself is romanticised only by fools.

An exceptionally short-lived marriage had imploded, and I was jobless, a loneparent, and as poor as it is possible to be in modern Britain, without being homeless. The fears that my parents had had for me, and that I had had formyself, had both come to pass, and by every usual standard, I was the biggest failure I knew

Now, I am not going to stand here and tell you that failure is fun. That period of my life was a dark one, and I had no idea that there was going to be what the press has since represented as a kind of fairy tale resolution. I had no idea then how far the tunnel extended, and for a long time, any light at the end of it was a hope rather than a reality.

So why do I talk about the benefits of failure? Simply because failure meant a stripping away of the inessential. I stopped pretending to myself that I was anything other than what I was, and began to direct all my energy into finishing the only work that mattered to me.

Atenção: temos aqui literatura e eu vou explicar porquê.

gif jon stewart JK Rowling The Daily Show

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