sábado, 17 de fevereiro de 2018

Prolongamento

A autora de Um Jeito Manso teve mais uma vez a simpatia de me fazer um reparo e creio que também desta vez sou forçado a dar-lhe razão, de forma ainda mais rápida.


Considerando injusto dizer-se que o «Alf não gosta de concorrência» (em princípio, ninguém gosta, mas esse é um assunto ainda mais difícil, por ser ainda mais abstracto do que o problema da crítica literária) esta reflexão da autora de Um Jeito Manso - sem ostentar emblemas de autoridade literária mas carregada de ideias - tem bastante sentido e constitui uma generosa oportunidade para que possa clarificar e resumir a minha anterior crítica ao trabalho de Luís Miguel Rosa. Justifica-se esta clarificação também por oferecer - com a coragem característica deste autor que vos fala - um motivo para mergulhar na psicologia da pedantice e da arrogância intelectual, mostrando até que ponto somos vítimas dos sistemas de reputação onde pretendemos triunfar. Ora vamos lá. 

Sim, Luís Miguel Rosa é um pouco chato. Aflorei o assunto quando referi a ausência de brilhantismo no estilo e o facto de a sua prolixidade suscitar incoerências e até alguma confusão argumentativa.

Sim, o Luís Miguel Rosa parece não se incomodar com a evidente necessidade de fazer demonstração da sua imensa cultura sobre irrelevâncias socio-literárias (também sugiro isso ao longo da minha crítica) quando nem sempre essa informação vem acompanhada por uma igual densidade, digamos, filosófica.

Sim, a vida (mas a também a literatura) não exige este longo calvário de leituras para se atingir a profundidade, a riqueza de sentido(s), e até a propriedade de argumentos críticos adequados aos problemas estéticos implícitos na escrita de um texto.

Sim, o Benfica será provavelmene Pentacampeão (peço desculpa).

Contudo, a chatice tem muitas faces, e é essa a razão pela qual meia bloga cai aos pés de Luís Miguel Rosa. Para quem se interessa pela sociologia da literatura, o Luís Miguel apresenta não só um conhecimento enciclopédico - como ficou referido - como um trabalho de compilação de dados (datas de edição, entrevistas, edições, prémios, referências em jornais e revistas) absolutamente esmagador. Quem cresceu hipnotizado por esta memorabilia do eterno jogo de sombras socio-literário (que está na base de toda a consagração literária) lê a prosa de Luís Miguel Rosa como se de uma entusiasmante narrativa de ficção se tratasse. Compreendo, por outro lado, o efeito entediante. É um pouco como aquelas pessoas para quem assistir às várias etapas de um Tour de France, com as suas intermináveis subidas e descidas, é algo incompreensível. Não o será, quando dominamos os tempos médios das etapas, as características de cada ciclista, os seus picos de forma (e problemas familiares) os impactos da meteorologia nos trepadores, as probabilidades de acidentes no empedrado, o currículo dos directores de equipa, os orçamentos salariais, etc.

No fundo, a ideia de densidade dos textos (para alguém educado literáriamente) está muito ligada à capacidade de invocar esforço de leitura e conhecimento da tradição (autores, revistas, eventos, entrevistas) sobre a qual se escreve. Isto foi sempre uma enorme armadilha para os escritores de todos os tempos: a confusão entre os valores das academias de especialistas e os valores do leitor comum. O nosso juízo sobre as diferenças de densidade, sobretudo no nosso tempo - como temos por aqui referido - não resulta de nenhum fenómeno obscuro da psicologia da arte, mas da muito palpável economia salarial onde estamos inseridos, vulgo, dinheiro para se comprar o pão com chouriço - e perdoe-se deste já o marxismo da afirmação. Dito de outro modo, a capacidade de resistir à chatice evidenciada por Luís Miguel Rosa, suscita aplausos em eremitas e eruditos precisamente por serem essas pessoas pagas para serem eruditas e eremitas, isto é, campeões na capacidade de resistência à chatice. Se isto poderá ser exagerado para 100% dos eruditos, não o será para 99%, pois a erudição - como todos sabemos - custa muito tempo e dinheiro.

Podemos voltar a invocar o ciclismo: quem sobe aos 1,912 metros do Mont Ventoux recebendo dinheiro e glória para chegar em primeiro lugar, terá alguma tendência para olhar com sobranceria quem se dedica a subir ao Domingo à Rampa da Falperra. Tentemos forçar ainda mais analogia. O problema é quando procuramos justificar em que sentido o ciclista profissional vencedor do Tour realiza qualquer coisa de mais digno, profundo, inteligente ou importante do que o domingueiro subindo ao Bom Jesus de Braga com uma sandes de carne assada na mão esquerda. Se o domingueiro conseguir ganhar mais dinheiro do que o ciclista profissional, então teremos esse fenómeno bem característico de todos os tempos: os cavaleiros do Apocalipse cultural.

Analogia não é perfeita, bem sei, pois em assuntos humanos, o sentido da linguagem não é quantificável (distância/tempo) o que nos tem lançado neste Carnaval a que chamamos a crítica literária. Podemos sempre desistir perante a sabedoria do mercado e o julgamento dos eruditos (para depois nos mostrarmos aborrecidos quando os eruditos e os eremitas são facilmente aclamados e se julgam os guardiães da eterna sabedoria). E com isto termino. 

A questão é se queremos continuar a fazer de conta que existe um sistema de valores literários, mantendo prémios e até cursos superiores de Letras (quando a maior parte do público e dos cidadãos não especializados olha para  crítica como um desperdício de tempo, e tende a considerar de mau gosto o esforço de se apontar - e criticar - méritos literários indevidos) ou se queremos pensar mais profundamente na relação entre a reputação literária e os seus efeitos económicos e políticos ao longo do tempo. Como sabem, pertenço ao segundo grupo, até porque - ao contrário do que pensamos - o próprio conceito de chatice (central na nossa economia) está directamente ligado ao problema da literatura oficial e do seu ensino preparatório e secundário, ao qual - Deus nos valha - estamos todos obrigados. 

Saber onde estão os embustes literários, não é apenas um problema de mau fígado: é zelar pela felicidade das nossas crianças, é ajudar a construir uma linguagem mais eficaz e rigorosa, é dotar os adolescentes de armas contra a ilusão, o pedantismo e o orgulho injustificado. É ajudar a demolir o mundo de enfatuados contra o qual, justamente, a autora de Um Jeito Manso se insurge, perturbada pela incompreensão dos elogios fáceis.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

A crítica da crítica

Um simpático leitor veio aqui ameaçar-nos com um blogue onde, alegadamente, se escrevem textos longos e impressionantes, e onde, de caminho, se revela um impressionante conhecimento da literatura. Apesar de sufocado por uma tenebrosa falta de tempo, fiz minhas as palavras de um conhecido poeta no meio de uma tempestade de neve, e fui ver: o blogue intitula-se Homem-de-Livro e é da autoria de Luís Miguel Rosa. O autor escreve poucos textos mas recorrendo à forma longa. Deixando de lado os textos em inglês, li apenas com atenção o ensaio «A Cada Esquecido o seu Adido» e o maior elogio que se pode fazer é que foi capaz de colocar em progresso as pesadas e gastas correias da minha mecânica mental.

Não é comum dizermos por aqui coisas positivas, sobretudo quando se trata de jovens autores, mas eis chegado o dia em que somos forçados a aplaudir um (pelo menos para mim) desconhecido. Apesar de o autor, Luís Miguel, se exceder na extensão da argumentação, nem sempre utilizando a famosa e sempre tão necessária navalha de Occam, e mesmo recorrendo a expressões arcádicas como «acúmen sentimental» ou «irmanizam» e deixando de lado alguma falta de brilhantismo no estilo (o que funciona como vantagem no alcance democrático da sua reflexão) só podemos agradecer a este promissor autor o seu trabalho. Pensamos sobretudo na compilação de dados que certificam muitas das nossas ideias, por vezes aqui por nós apenas afloradas, mas sem a devida fundamentação, em virtude dessa saborosa combinação (que sempre nos assiste) entre a fatal preguiça e a necessidade de ganhar a vida com outras coisas mais apreciadas pelo vulgo.

Como não podia deixar de ser, passaremos em revista algumas pequenas irritações, para de caminho podermos soltar alguns elogios a Luís Miguel Rosa, com estoiro e espumante, na alegria de ver em letra de forma algumas singelas verdades que, por razões históricas e económicas, é muito raro vermos defendidas no nosso contexto literário. 

Primeiro problema: pela boca morre o peixe. O Luís Miguel parte de considerações sociológicas muito abrangentes mas escolhe como representação desse retrato apenas duas figuras, sobre as quais se demora, Baptista Bastos e sobretudo Joana Emídio Marques. Na verdade, além da insólita e deselegante tareia aplicada a Baptista Bastos (um homem falecido, segundo julgo saber) Luís Miguel Rosa aponta a Joana Emídio Marques - uma crítica literária e jornalista com recente protagonismo nas páginas do Observador - com especial, ainda que justa, severidade. Reconheço que o caso possa ser paradigmático, mas seria muito mais eloquente se o Luís Miguel apontasse vários exemplos, incluindo os vários académicos, muitos editores e infinitos presidentes de júris de prémios literários, mas palpita-me que Luís Miguel Rosa sabe bem por onde passa a linha vermelha da sobrevivência e comete aqui um erro similar, em termos de crítica, ao que pretende denunciar com a sua curiosa e profunda, mas às vezes confusa, análise do problema crítico português: a energia despendida e desperdiçada a fabricar elegias a «escritores esquecidos» é apenas uma via para impiedosamente se poder insultar os novos e contemporâneos. 


«Toda a boa crítica é uma celebração, um acto de louvor, se não de amor. Porque não há valores absolutos na estética, o crítico deve dar menos importância à explicação do que ao encantamento. (...) O sermão, a invectiva, o vitupério, a verrina, a diatribe, eis os géneros favoritos dos pretensos guardiões da nossa memória colectiva.»

e mais adiante:


«Volvido um século, esse tom sobrevive em catastrofistas como Clara Ferreira Alves, Ana Cristina Leonardo, António Guerreiro e os demais que se têm em conta como orientadores da cultura e formadores do gosto. Nas mãos deles, os esquecidos são um pretexto para destilarem ódio de forma socialmente aceite (“Ela preocupa-se!”), pois acabam antes por estadear a sua superioridade sobre os outros e expressar de forma segura o habitual desdém pelos portugueses que é o apanágio de todo o intelectual que odeia ter nascido nesta pasmaceira quando podia ter nascido em Paris, Londres, Nova Iorque.»

Caro Luís Miguel, mas não será esse longo texto um magnífico exemplo daquilo que, precisamente, identifica como um problema da crítica nacional? O Luís Miguel - muitas vezes nesse texto, sem grande demonstração ou consistência lógica - acusa a crítica de não ser demonstrativa (o que é correcto) e apesar de aduzir toneladas de informação sociológica (assunto a que voltarei para o elogiar) censura o tom verrinoso e acusatório dos críticos, para logo acusar, verrinosamente, uma série de críticos de serem verrinosos e acusatórios. Isto significa que o problema talvez não esteja na dimensão acusatória ou na verrina, ou nos problemas de sociologia da literatura, que o Luís Miguel Rosa muito bem critica (desmontando falsas ideias sobre escritores alegadamente marginalizados ou esquecidos) mas sim na dificuldade em dizer qualquer coisa de lógico, fundamentado e universal no que respeita ao valor estético de um texto. 

É sempre cómico contemplar o momento em que críticos inteligentes, com formação superior em Literatura e gosto apurado, constatam esta singela realidade (o valor em Literatura é um pântano fumegante), mas horrorizados pelo desperdício de tempo a que, nesse caso, se entregaram, se recusam a daí extrair todas as dolorosas consequências sobre a irrelevância da informação, por eles acumulada ao longo de anos, sobre «literatura de qualidade». Se tudo é manifestação de amor, estaremos mais perto de um Toy do que de um I. A. Richards. Se o Luís Miguel considera despropositado os críticos censurarem Z por não ter lido A (pois a experiência literária é subjectiva) das duas uma: ou o Luís Miguel demonstra que existe uma crítica não subjectiva ou terá de aplicar à crítica a mesma receita que aplica à literatura: o amor honesto é o elementar critério da verdade, pois tudo é subjectivo. Como experiência subjectiva, gosto muito do estilo acusatório e verrinoso e faço neste caso o diagnóstico oposto: temos carência e não excesso desse medicamento genérico.

Aliás, o próprio Luís Miguel conclui na parte final do texto isto mesmo, contradizendo, de alguma maneira, o que escreveu na primeira parte do texto (provavelmente, partes escritas até em dias diferentes e já não tendo o autor inteiramente presente as primeiras afirmações).


«Não há escritores intocáveis, muito menos os actuais; nem estou a proscrever resenhas negativas aos críticos de jornal. Penso aliás que foi a falta de uma tradição de resenhas negativas feitas honestamente que exacerbou este problema: o medo de emitir uma opinião, o medo de julgar, o medo de avaliar, o medo de ofender, levou à falta de um cânone sólido e aceite de forma generalizada. Penso ainda que foi a falta de rigor na avaliação dos escritores dos últimos vinte anos, os quais foram deificados depressa e sem resistência, que leva muitos adidos a iras tremendas.»

Aqui a confusão fica patente: da impotência da subjectividade literária - e da inutilidade de convencer os outros dos nossos gostos - passamos a uma economia do «cânone sólido e aceite de forma generalizada» assente num aumento do número de críticas negativas «honestas». Substituir a verrina pela honestidade, eis o que não se afigura como solução para o problema do valor em Literatura. Mas não sejamos severos. O Luís Miguel - repito - arrisca aqui pisar terrenos que praticamente apenas neste blogue (perdoe-se o exagero) vão sendo desajeitada e preguiçosamente pisados.

Segundo problema: a tendência para polemizar contra tiques ideologicamente institucionalizados num país onde a esquerda política teve inegável relevância literária, leva o autor a entusiasmos político-sociológicos que ferem o tom geral de moderação das suas argumentações ao nível da história literária. Diz a certo momento que «Este medo de contaminação relativo a tudo quanto nascesse além-fronteiras, meio século mais tarde, tornar-se-ia o cavalo de batalha dos filósofos filofascistas ligados ao Estado Novo, o Grupo 57. Esta é uma das muitas semelhanças que irmanizam a I República e a ditadura, embora o seu aprofundamento não costume estar no topo das prioridades dos historiadores.» Muitas semelhanças que irmanizam a I República e  a ditadura? Façamos uma dupla pausa. I República. Ditadura. Parecem-me dois conceitos diferentes. Nem seria necessário sair do reino da filologia para justificar as razões de não chamar à ditadura, II República, dadas as enormes diferenças entre esses dois regimes políticos. E isto fazendo uso da teoria apreciada pelo Luís Miguel Rosa (se as coisas não foram aprofundadas é porque não precisam de aprofundamento). Aliás, esta ideia das semelhanças entre I República e Ditadura é uma banalidade divulgada pelo grupo estrangeirado produzido em Oxford e inseminado artificialmente nessa dourada teta do Orçamento de Estado, o Instituto de Ciências Sociais (peço desculpa, acordei mal disposto). Aqui, o Luís Miguel Rosa volta a incorrer num outro erro que, justamente, pretende censurar: neste caso, cometeu o pecado da verrina, pois faltam dados a confirmar este tremendo juízo disparado a talhe de foice entre a rápida caracterização de um intelectual republicano.

É aliás a única crítica de fundo que tenho a fazer ao belo texto de Luís Miguel Rosa: mistura a génese do nacionalismo (um fenómeno bastante abrangente e complexo, comum a quase todas unidades políticas existentes no planeta terra) o medo da colonização cultural (uma realidade mais circunscrita mas ainda assim bastante comum a outros espaços nacionais) com os problemas da crítica literária em Portugal (um problema de contornos especificamente nacionais determinado pelo tamanho da indústria editorial, a qualidade e quantidade das Universidades e os níveis de alfabetização da população). Resolvido este problema, o ensaio do Luís Miguel seria das coisas mais valiosas escritas em portugal nos últimos tempos

Terceiro problema: oscilação psicanalítica entre a evidente censura do nacionalismo serôdio e a crítica do provincianismo que, como quase sempre - e veja-se o caso de Eça de Queiroz -, redunda numa bipolarização entre declarações de amor ao bacalhau de cebolada e homilias sobre a superioridade intelectual dos anglo-saxões.

«Pode-se facilmente escrever uma história da tradição de os autores portugueses acusarem as próprias épocas de incompetência generalizada, excepção feita ao acusador e compinchas».

E logo adiante:

«Nenhum escritor merece ser atacado em duas linhas rápidas de um artigo, sobretudo quando esse ataque serve apenas o engrandecimento do favorito do crítico. O efeito que isso tende a ter sobre mim é questionar a parcialidade do adido. Isto é uma coisa, entre tantas outras, em que o modelo anglo-americano da crítica literária nos poderia ensinar algo sobre foco e acentuação do positivo. Eles sabem separar a comemoração da aniquilação. Quando um crítico anglo-americano quer festejar um escritor morto há décadas, não desperdiça cinco parágrafos a lamentar o quão maus todos os escritores são hoje em dia; explica da primeira linha para a frente os méritos do seu favorito.»

Jesus, Maria, José! «Foco e acentuação do positivo»? Nada me move contra seminários motivacionais mas creio que, neste particular, Luís Miguel se perdeu no seu amor pelos estudos ingleses. Bastaria um conhecimento tão profundo da sociologia da literatura inglesa como Luís Miguel Rosa demonstra ter da portuguesa, para fazer coro com Sebald, citando Goethe: não há ódio como aquele que é manifestado entre literatos. Só neste país é que se diz «só neste país» para citar a canção de um cantor desafinado e mesmo assim corajosamente detentor de uma carreira de razoável sucesso. Luís Miguel Rosa tem igualmente de rever este ponto no seu texto. Há problemas específicos do meio literário português e há problemas estruturais de qualquer meio literário. Como o próprio afirma, a inveja e a maledicência não são monopólio nacional. E muito menos os esquemas de apreciação literária anglo-saxónicos servem como modelo no complicado panorama estético, tecnológico e político em que nos encontramos. Aqui, caro Luís Miguel, como em tudo na vida, cada um está por sua conta.

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Quarto problema: alguma confusão entre a fundamentação lógica da crítica literária e um esboço de catecismo para uma boa vida.

Luís Miguel Rosa considera que o esquecimento é não só natural como desejável e depois procura demonstrar que em muitos casos não se verifica sequer um esquecimento. «Opinadores culturais nunca aceitam que os imbecis, usando critérios estéticos rigorosos e válidos, possam ter decidido não atribuir qualquer grandeza aos seus favoritos.» Compreendemos, o assunto não é fácil. Luís Miguel oscila aqui entre o imortal argumento liberal aplicado à literatura (e que é não só o resultado da colonização estrangeira - não discuto se com efeitos civilizadores ou barbarizantes - mas também um fruto apodrecido da autoridade ideológica vigente: tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos possíveis) e o impulso para considerar a crítica literária um artifício humano gerador de consequências e produtor voluntário de hierarquias, valorizações e efeitos económicos. Chega a aflorar o assunto, quando refere as quantidades industriais de livros e textos produzidos pelos sistemas de informação (sejam livros, revistas ou, hoje em dia, redes sociais) mas desiste perante a dificuldade e deixa depois à consideração de um mecanismo ético individual - a honestidade - a resolução do problema, profundo e perturbador, a saber, a dimensão política e reputacional de um sistema literário nascido de uma cultura elitista e invadido pela democratização da escrita e multiplicação de tecnologias de difusão de textos. Para Luís Miguel Rosa resta esperar de quem escreve nos jornais, quem edita, quem ensina, a defesa e o amar de um conjunto de «autores preferidos», divulgados com argumentos sólidos. E a crítica Luís Miguel? E a crítica? Se é fruto da subjectividade, incorremos noutros fascinantes problemas: deverá o Estado financiar Universidades onde se ensinam Estudos Ingleses?

Bem sei que o decadentismo, salpicado de nacionalismo e verniz poético, precisa das apropriadas doses de naftalina. Mas é igualmente preguiçoso considerar que as coisas são pela simples razão de que existem razões para o terem sido, o que nos dispensa de explicar as razões e – ainda melhor – nos exime de sair à rua com um programa de trabalhos e melhoramentos para o que consideramos ter sido mal construído por essa engenheira feminista, a Natureza. Mesmo se estamos a  falar sobre a Natureza da efeméride literária. Não se pode demolir a tendência para o decadentismo - censurando todos os que diariamente engrossam o coro diante da perda de valores - para depois abraçar uma outra versão Correio da Manhã TV da filosofia Ocidental: as coisas sempre foram o que são.

«Dos clássicos não aprendemos que o passado foi mais simples, mais apetecível; aprendemos que o mundo sempre foi tão horrível quanto suspeitamos que é.»

Discordo! Com os clássicos aprendemos que a cada nova geração é preciso reinventar o mundo (sejam as nossas ideias sobre o horror, sejam as nossas concepções sobre as diferenças entre o passado e o presente) e o julgamento sobre a nossa responsabilidade nessa interminável batalha de dar sentido às coisas, será medido pela fertilidade do nosso trabalho (escrito e publicado) no alívio do sofrimento e no alcance da sobrevivência para as gerações futuras. Mas compreende-se que Luís Miguel Rosa não pudesse corresponder a exigências de um nível, digamos, olímpico.

Em suma, aplaudindo o que interessa: Luís Miguel Rosa apresenta uma boa ideia e um mérito raro e demonstrado. A ideia, consistente e brilhante, reside na defesa de uma crítica literária mais exigente.

 «Quais são as probabilidades de uma pessoa nascer numa geração tapizada de génios? Em Portugal são mesmo muito boas! A literatura não é uma caridade; o talento é sovina, não partilha os seus dons com as massas por geração – excepto por cá. »

O mérito raro e demonstrado reside na apresentação de dados e no esforço de fundamentação como pouco se tem visto na imprensa publicada. Como o próprio afirma, o sentido global é fundamental para o crítico, e o conhecimento da história literária portuguesa apresentado por Luís Miguel Rosa é enciclopédico. Teme-se que Rosa durma na secção de revistas e periódicos da Biblioteca Nacional. As correcções de erros factuais sobre conferências, prémios e artigos de jornais são impressionantes. Que possa existir alguém disposto a passar horas destruindo os globos oculares diante de micro-filmes e esquecidas edições da Colóquio Letras de 1958 ou ignorados números do Jornal de Letras de 1969, para saber em que ano Natércia Freire foi agraciada com uma medalha ou Artur Portela Filho conferenciou por trás de uma mesa com um arranjo de flores, acerca das técnicas de Robe-Grillet, é constatar um acidente social e contrair uma dívida da qual nunca nos poderemos libertar. Como os limites da racionalidade humana (e já agora, também os da memória auxiliar) são uma realidade confirmadíssima pela ciência, tememos pelo que faltará a Luís Miguel Rosa noutros campos essenciais do conhecimento. Mas deve dizer-se com franqueza: se a especialização pode ser uma virtude, aqui está uma indesmentível confirmação. Já o suspeitávamos, mas é sempre bom poder confirmar como na crítica literária, a exaustividade dos dados aduzidos aos argumentos pode ser muito frutuosa na hora de construir juízos críticos mais exigentes. 

Deixo-vos com um emblema de coragem: 

«Há três anos ainda pude comprar 6 livros dele (José Cardoso Pires) na Leya na Feira do Livro; tenho a edição da BIS d’O Delfim, leve, barata, portátil e livre de prefácios de Gonçalo M. Tavares.»

Com ou sem esquecimento, com Luís Miguel Rosa, há esperança para a crítica literária em Portugal.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Progressista - escrito como quiserem! Ricardo Araújo Pereira e os perigosos inimigos invisíveis.

Ricardo Araújo Pereira (RAP) é um homem inteligente, deixemos desde já estabelecido este ponto, como serviço aos leitores que, militantes na causa das vitórias garantidas, já afiam os dentes na áspera lima das suas mórbidas expectativas, e partem do princípio que vamos aqui atacar o talento humorístico ou a capacidade estratégica do maior humorista português dos últimos, digamos, vinte anos. Contudo, caros camaradas, a inteligência é uma propriedade fisiológica, não um método infalível. E sendo uma propriedade fisiológica, tendo em conta o que julgamos conhecer quanto à estrutura evolutiva do nosso ecossistema, enfrenta crescentes desafios, consoante o ambiente se torna aparentemente mais dócil para o indivíduo na sua progressão, íamos a dizer labuta, diária. O que hoje constitui uma deliciosa facilidade, pode revelar-se a horrorosa tragédia do amanhã: eis a grande lição de mais de dois mil e quinhentos anos de literatura estóica. Acontece, todavia, aos melhores, o serem amolecidos pela aclamação precoce. Creio que foi (e é) esse o caso de RAP no seu último livro, Reaccionário com Dois Cês, Rabugices sobre os Novos Puritanos e Outros Agelastas, Tinta da China.

Para poupar os leitores a uma análise fastidiosa, vou abordar o texto impresso na badana do livro, até pelo poder simbólico que representa na economia do sistema editorial.



No texto que serve de aperitivo ao perspicaz livro de compilação das suas Crónicas, RAP constrói uma situação absurda, em que pretende revelar a pouca inteligência dos utilizadores das redes sociais. Vejam bem, falamos aqui dos utilizadores das redes sociais, isto é, nós mesmos, que somos tolinhos e não atingimos o significado oculto das nossas acções populistas, demagógicas e pouco esclarecidas. Utilizadores que, na sua boçal compreensão das coisas, sujeitam os corajosos, sensíveis e espectaculares produtores de conteúdos de valor cultural reconhecidamente excelente, a um rol de interpretações delirantes. E que faz RAP para erigir esta crítica sobre o delírio da internet? Resolve teletransportar Shakespeare para os nossos dias, submetendo-o à violência bárbara e obscurantista de uma alegada italiana farmacêutica, natural de Verona e utilizadora do Facebook. Percebemos perfeitamente onde RAP pretende chegar e estamos solidários com a sua luta. E isto apesar de por vezes cometermos o nosso imperdoável pecado, a saber, sermos detentores de uma opinião crítica sobre a realidade, baseada em, digamos, valores «politicamente correctos».

Acontece que o absurdo da situação se revela relativamente pouco absurdo, na nossa modestíssima opinião. E quase temos vergonha de o dizer, caros leitores, para não melindrarmos a liberdade de expressão de ninguém.

Sobre o facto de a simpática farmacêutica italiana de Verona - imaginada por RAP - ter ficado indignada com a facilidade de aquisição do veneno, comprado por Romeu a um pobre Boticário, deve assinalar-se que o próprio Shakespeare foi bastante cuidadoso com esse aspecto. Podemos dizer, com a coragem que nos caracteriza, que o poeta e autor de Romeu e Julieta chegou mesmo a ser, digamos, «politicamente correcto». Pois deixa bem claro no texto da peça, pela própria boca do Boticário, como a lei de Mântua punia com a morte quem vendesse ao público aquele veneno letal. Eram cuidadosos os cidadãos de Mântua. E vergonhosamente, politicamente correctos. Se Shakesperare fosse utilizador das redes sociais, talvez, ele mesmo, considerasse uma infâmia não se ter esclarecido o público sobre esse curioso aspecto.

Que a página do Globe Theatre fosse invadida por centenas de mensagens, também não nos parece uma situação insólita. Na época tinham métodos bastante mais eficazes para expressar o politicamente correcto, nomeadamente, o encerramento do teatro, a prisão dos autores e dos actores, ou simplesmente a monumental vaia, a interrupção da peça, ou o civilizado pontapé directamente aplicado ao rabo dos artistas.

Sobre a mensagem negativa de Romeu e Julieta, quanto ao universo problemático dos jovens adolescentes, que a preocupada mãe de Verona e farmacêutica - imaginada por RAP - julgou necessário noticiar nas redes sociais, para aviso dos futuros amantes, julgamos que, sobretudo neste aspecto, não andará a bela italiana de Verona longe das intenções de Shakespeare ao escrever a peça.

Antes de mais, um ponto de ordem. Se estamos realmente na posse das nossas faculdades mentais (o que não é garantido) julgamos ter compreendido o sentido da ironia do nosso inteligente humorista, RAP. A histeria crítica do nosso tempo - a que alguns chamam o integrismo ou puritanismo do «politicamente correto» - se existisse na época do bardo inglês, teria inibido o poder criativo de Shakespeare. Teria implicado com os poderes artísticos do maior poeta de todos os tempos. Dito de outro modo, se Shakespeare existisse hoje, talvez a sua gloriosa imaginação estivesse (esteja) a ser reprimida por esses infames inquisidores do «politicamente correcto».

Contudo, sou forçado a dizer (embaraçosamente) que Romeu e Julieta é - precisamente - uma peça sobre o «politicamente correcto» e não precisamos de ser escravos da preocupação com as redes sociais para interpretar cabalmente o assunto.

A peça começa com um edital ou a publicação de uma Lei - como muitas das peças de Shakespeare - na tentativa de estabelecer a ordem, perante o desconcerto do mundo. O que revela, desde logo, uma certa ansiedade com a repressão dos comportamentos. Ou seja, Shakespeare era um homem preocupado com o «politicamente correcto». Qualquer pessoa que participasse em distúrbios ou confrontos públicos na cidade de Verona, seria punida com a morte. Shakespeare estaria preocupado com a escalada de violência na sociedade em que vivia, e fez decorrer a acção sobre o absurdo irracional de todos aqueles que, desobedecendo à lei, consideravam os interesses de família, direito e propriedade, superiores ao amor  selvagem entre duas mentes rebeldes. Ou muito me engano, ou isto soa um bocado «politicamente correcto». Mas estamos contigo, RAP, e não nos deixaremos perturbar.

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Vamos deixar de lado o facto de Shakespeare ter escrito Titus Andronicus (1592-1594) antes de Romeu e Julieta (1594-1596) pois são pormenores eruditos que não interessam à luta pela liberdade. Com efeito, são muitos os temas que na Lamentável Tragédia de Romeu e Julieta, poderiam ter sensibilizado RAP a construir uma reflexão sobre o mundo em que vivemos. O ataque à luta feudal entre duas poderosas famílias - considerando que as dinastias familiares e os seus fetiches de poder (que o diga a Sonae) já não serviam como fundamento da realidade, numa sociedade cada vez mais entusiasmada com o comércio e os direitos dos indivíduos. Mas RAP não quis abordar o mundo diurno da lei, dos livros e da autoridade, com as suas regras de conduta rígidas, crescendo ameaçador sobre os sonhos de prazer da juventude. Nem mesmo a forma como o velho Capuleto ameaça a sua filha, se esta continuasse a rejeitar a autoridade do pai e a recusar o casamento com Paris, arriscando Julieta, nada mais, nada menos do que a expulsão de casa, da protecção e do conforto, com a multiplicadora violência que esta ameaça lançava sobre uma jovem mulher. Curiosamente, caros leitores (e contra mim falo, de lágrimas nos olhos) Romeu e Julieta - tal como o debate que hoje ameaça engolir-nos - é sobre o direito das mulheres exercerem a sua justa parte num mundo governado por homens. Homens com poder, quase sempre, com alguma tendência para serem parvos e abrutalhados.

Photo of Claire Danes from Romeo + Juliet (1996)

Em todo caso, Shakespeare - e lamento desiludir RAP - está bastante preocupado com as mensagens negativas em torno dos adolescentes, tal como a farmacêutica de Verona, utilizadora do Facebook. Se estivermos atentos à peça, veremos que a criada de Julieta faz menção de recordar - irónica e provocadoramente - como tinha perdido a virgindade aos doze anos. Na verdade, Julieta vê-se confrontada com uma decisão de casar com um homem indesejado, ainda antes de fazer catorze anos. Se RAP estivesse um pouco mais atento (embora compreendamos que a sua luta é exigente e monopolizadora) teria percebido que esse é precisamente o tema central da peça.

Dirão os corajosos defensores da liberdade contra os esbirros do politicamente correcto: «a ironia de RAP pretende apenas denunciar como a deriva inquisitorial dos bons costumes corre o risco de inibir ou reprimir, ou até impedir, a expressão artística no seu mais elevado nível de realização». Certo, estaremos todos de acordo, embora, do meu ponto de vista, os critérios que permitem uma elevada realização artística dificilmente podem ser relacionados com o aumento ou a diminuição da liberdade de expressão, com muita pena o digo.

Ricardo, se me está a ouvir, deixa-me dizer-te: Romeu e Julieta é uma peça sobre o conflito de gerações e a incapacidade de compreender os riscos e a beleza das paixões (aparentemente irracionais) dos novos tempos e dos seus mais frágeis filhos, os mais jovens. A geração mais velha, presa nos seus livros, na sua sabedoria arcaica (e muitas vezes elitista) nos seus direitos de propriedade, nos seus feudos, revela-se quase sempre incapaz de compreender a nova realidade e as suas circunstâncias, a começar por novas formas de amor (pois é, pois é).

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Romeo + Juliet (1996) de Baz Luhrmann com Claire Danes (Julieta) e Leonardo DiCaprio (Romeu). 

Compreendemos que a manutenção de poder dos meios de comunicação de massas seja um tema caro a quem ganha a vida nos meios de comunicação de massas e teme a boçalidade da multidão. Shakespeare também viveu essa angústia, mas revelou-se progressista, abraçou o mercado do teatro isabelino, onde a concorrência era forte e o público soberano, por isso o bardo se apressa a dizer, logo no Prólogo de Romeu e Julieta: «se quiserem ouvir com benévola atenção, o nosso zelo há-de esforçar-se por corrigir o que na peça acharem digno de emenda». Inaceitável contemporização diante do público. Mas perdoemos Shakespeare, pois era um homem «politicamente correcto».

Compreendemos que um humorista como RAP não possa perder tempo com estas ninharias, ocupado a enfrentar multidões perigosas furiosamente teclando nos seus computadores, multidões que vandalizam com horrorosa cacofonia as páginas de Facebook das editoras, dos jornais de referência e das televisões e chegam mesmo a fazer ameaças perturbadoras como: «isso que o senhor disse é machismo». Quem pode resistir a ataque tão violento como este? Quem pode ficar impassível quando os valores da liberdade são atacados por mulheres sensíveis e alfabetizadas?

Compreendemos que RAP tenha de enfrentar irascíveis cardeais munidos com caldeiras de água benta, e donas de casa católicas, frequentadoras dos cursos espirituais dos jesuítas, e perigosas associações de pais de liceus prestigiados, e ameaçadoras advogadas de associações de protecção às vítimas, e selváticas e perigosas jornalistas do Diário de Notícias, e membros de coros alentejanos, e agremiações defensoras da moral pública, com o seu tentacular poder, e ferozes membros da associação dos amigos dos animais, e militantes de grupos activistas defensores da macrobiótica. O número de oponentes cresce todos os dias. Os idosos e reformados já se posicionam para atacar a liberdade e defender os bons costumes. Todos os braços são poucos para travar esta perigosa luta. O inimigo multiplica as suas forças, gerando milhares de pequenos balões de mensagens nas letais caixas de comentários.

Felizmente, temos homens como RAP. Homens que nunca deixarão de lutar em favor da liberdade, apesar de apenas podermos ouvir a sua voz nos frágeis e ameaçados espaços de informação como a TVI24, a Sport TV, a TSF, a Visão ou a Rádio Comercial. Apesar de frágeis, continuarão o seu corajoso trabalho. Não deixarão pisar a dignidade ortográfica da língua.

Guerras, injustiças, desigualdade económica, poder mediático das televisões e dos grandes grupos de comunicação, violências sobre as mulheres, racismo? Que são todas essas ninharias perante a escandalosa supressão de uma consoante surda?

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

A Estranha Ordem das Coisas e a bizarra preguiça intelectual de António Damásio

A ciência está a entrar na sua fase totalitária - o que é uma pena, mas talvez seja uma fase inevitável de qualquer projeto cultural agressivo - e o novo livro de António Damásio, A Estranha Ordem das Coisas, aí está para o provar. 60% do livro (o que não consiste em descrições seguras da biologia evolutiva do cérebro) é formado por banalidades, lugares comuns (e algumas imprecisões) a propósito das culturas humanas. Não tenho por hábito diabolizar a ciência, antes pelo contrário, prefiro diabolizar as Humanidades, mas desta vez julgo que atingimos a fase imperialista do cientismo.

É como se o Boaventura Sousa Santos publicasse um livro resumindo - de forma tosca, rápida e atrapalhada - os últimos 50 anos de publicações nas neurociências, mas omitindo ou lendo apressada e erradamente o contributo dos principais cientistas, e perante esse facto insólito, toda a gente baixasse reverentemente a cabeça. Não pretendo policiar o direito dos neurocientistas dizerem banalidades sobre a cultura. Eu próprio vivo da publicação de algumas banalidades sobre todos os assuntos disponíveis, incluindo a pesca do atum. Já me parece mais preocupante que ninguém até ao momento (que eu saiba) - nem sequer os antropólogos - tenha reagido publicamente a um livro cuja ambição não me parece minimamente adequada às capacidades reveladas pelo autor ao longo do livro. Deixo apenas um exemplo.

Uma parte do que é apresentado como novidade - a precedência (ou pelo menos a enorme relevância) dos sentimentos na criação das culturas humanas (e só esta expressão já faz corar de vergonha uma pessoa educada) - é um problema profundamente discutido, sem conclusões definitivas, na Antropologia, sobretudo desde os artigos de Cliford Geertz, publicados nos anos 70 e 80, para não falar em Levi-Strauss que Damásio arruma numa nota de rodapé, citando bizarramente um único trabalho L'Anthropologie face aux problèmes du monde moderne. Já não refiro Michel Foucault – que o autor despacha sem qualquer referência concreta e ainda dizendo que o seu título (A Estranha Ordem das Coisas) nada deve à publicação em inglês de As Palavras e As Coisas, traduzido como The Order of Things, sendo que Foucault pouco mais fez do que escrever, durante trinta anos, sobre a armadilha das simplificações, na interpretação biológica da natureza, bem como sobre a manipulação cultural dos sentimentos, ou seja, sobre a dificuldade de os interpretar fora de uma ordem (relativa) discursiva.

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Damásio refere que a linguagem e a sociabilidade desfilam na história cultural mas não os sentimentos. Talvez por ser difícil dizer mais do que banalidades funcionais sobre os sentimentos, sem recorrer à linguagem. Eu, que sou um ignorante, tenho a ligeira sensação de que a formação da mente cultural é associada pela tradição da história natural (e pelas Humanidades) à linguagem, precisamente por se identificar que o salto qualitativo e significativo, não se compreende sem a linguagem e a complexidade descritiva (dos estados interiores e da relação com o ambiente) implícita na quase infinita gama de possibilidades permitida pela linguagem (e não pela maquinaria biológica básica sentimental). Podemos explicar por sinais (e analisar como fez Darwin) as expressões faciais, mas isso não permite avançar um milímetro na compreensão da evolução das culturas humanas. Como o próprio Damásio reconhece várias vezes, varrendo a contradição para baixo do tapete, as origens da maquinaria sentimental são humildes e comuns a outros animais. Eureka! Daí os cientistas sociais e biólogos terem escolhido a linguagem (e não uma coisa tão difícil de interpretar como os «sentimentos») para momento chave na evolução cultural. Além do mais, a linguagem é a porta (por excelência) para a análise dos sentimentos, como o próprio Damásio reconhece também, invocando a importância da literatura, e definindo Shakespeare como o maior especialista na sua área. Não se percebe então, para lá da graçola nos jornais, a razão de não ter recorrido a Shakespeare para estruturar o seu livro. Seguramente, a coisa tinha corrido melhor, na forma e no conteúdo.


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Sobre a novidade implícita no livro.

Deixo um excerto de Geertz (inteiramente ignorado no livro, talvez trocado por coisas mais actuais, mas serôdias - o primeiro erro do cientismo é considerar a novidade cronológica como valor em si) com respectiva citação, para os interessados pesquisarem depois, se quiserem, e confrontarem com algumas das banalidades escritas por Damásio (quando fala de cultura e história cultural) e para os desconfiados a quem passa pela cabeça neste momento a hipótese de eu ser um pobre pedante, sem noção dos meus limites e indiscutível estupidez, por descrever nestes termos o trabalho do senhor professor doutor António Damásio.

«And therefore, the development, maintenance, and dissolution of "moods," "attitudes," "sentiments," and so on - which are "feelings" in the sense of states or conditions, not sensations or motives - constitute no more a basically private activity in human beings than does directive "thinking." The use of a road map enables us to make our way from San Francisco to New York with precision; the reading of Kafka's novels enables us to form a distinct and well-defined attitude toward modern bureaucracy. We acquire the ability to design flying planes in wind tunnels ; we develop the capacity to feel true awe in church. A child counts on his fingers before he counts "in his head"; he feels love on his skin before he feels it "in his heart." Not only ideas, but emotions too, are cultural artifacts in man. Given the lack of specificity of intrinsic affect in man, the attainment of an optimal flow of stimulation to his nervous system is a much more complicated operation than a prudent steering between the extremes of "too much" and "too little." Rather, it involves a very delicate qualitative regulation of what comes in through the sensory apparatus ; a matter, here again, more of an active seeking for required stimuli than a mere watchful waiting for them. Neurologically, this regulation is achieved by efferent impulses from the central nervous system which modify receptor activity.» 

Geertz, The Growth of Culture and the Evolution of Mind, The Interpretation of Cultures, Basic Books, 1973, pp. 81-82.

 Esta "novidade" foi publicada em 1973.


Camaradas! Não se trata aqui de esgrima sobre notas de rodapé. Trata-se de uma guerra pelo estatuto e mais uma prova de como as Humanidades estão em irreparável perda, em parte por culpa própria, por ignorância, cobardia e situacionismo dos senhores professores doutores em Humanidades. Todo este ensaio de Geertz é impressionante - e fundamental para o tema abordado por Damásio - e posso garantir que dificilmente lerão algo tão rigoroso e profundo, no que respeita à relação entre sentimentos, evolução, mente e cultura, no livro de António Damásio. O livro A Estranha Ordem das Coisas merecia uma estranha discussão à altura da terraplanagem nele contida, mas suspeito que o silêncio vai reinar como uma imperatriz asiática.

Isto é decisivo para o ponto principal desta minha esfusiante indignação: Damásio parte de uma ideia - a de que os sentimentos são um motor decisivo das culturas - apresentando-a como novidade, ou seja, lançando para o caixote das irrelevâncias três séculos de estudos em Humanidades. O que dizer do total silêncio a que vota Rousseau, um homem para quem, até às suas dolorosas lágrimas derramadas na estrada de Vincenne, a enorme preponderância dos sentimentos não tinha sido tida em conta na análise da cultura, das artes e das ciências?

Não resisto a brindar o leitor com uma entusiasmante novidade:

«Pretende-se que a linguagem dos primeiros homens corresponda à língua dos geómetras, mas o que nós vemos é que ela tem antes que ver com a língua dos poetas. E assim deve ter sido. Não se começa por raciocinar mas por sentir. Diz-se que os homens inventaram a fala para exprimir as suas necessidades, mas esta opinião parece-me insustentável. (...) Qual seria então a sua origem? As necessidades morais, as paixões. (...) Não foram nem a fome nem a sede mas sim o amor, o ódio, a piedade ou a cólera que pela primeira vez soltaram a fala dos homens. (...) Os frutos não nos fogem das mãos, podemo-los comer calados; é também em silêncio que se persegue a presa que se pretende abater - mas para conseguir comover um coração ainda inocente ou afastar um agressor injusto é a natureza que nos dita os seus acentos, exclamações ou lamentos.» 

Esta simples conclusão acerca da importância dos sentimentos na história cultural - apresentada por Damásio como novidade - foi escrita por Jean-Jacques Rousseau, no Ensaio sobre a Origem das Línguas, provavelmente, entre 1753 e 1756 e publicada apenas postumamente em 1781. (edição portuguesa, 1981, Estampa, pp. 47-48)

Isto acontece, apesar de António Damásio referir logo no prefácio como as Humanidades são importantes. Sim, importantes, sobretudo como público comprador dos seus livros e consumidor da sua ciência, e para utilizar como emblema na lapela do casaco, citando Shakespeare, pois a forma olímpica como Damásio contorna a biblioteca das Humanidades, o que empobrece o seu trabalho, é verdadeira e espetacularmente, digamos, acrobática. 

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Com a exceção de Hume, Marx, Durkheim, Freud e o inclassificável William James, Damásio praticamente não considera relevante abordar as ideias de autores provenientes da tradição histórica, filosófica e antropológica. Chega a falar da forma como se tem negligenciado o intestino como fenómeno de equilíbrio homeostático, quando para além dos gregos (não exijo o conhecimento de toda a tradição peripatética) por exemplo, Nietzsche escreveu e muito sobre o tema. E o que dizer da lateralização de Adam Smith e das suas impressionantes tentativas de circunscrever uma teoria dos sentimentos morais? A leitura de Smith teria impedido Damásio de escrever os confrangedores parágrafos a propósito de lucro celular, lucro social e ganância.

Para os mais desatentos, o que Damásio acaba por fazer, mesmo involuntariamente, prolongando um imortal debate, é defender a precedência de uma natureza universal (neste caso sentimental) sobre a cultura, com tudo o que isso significa de homérica ignorância sobre a força do hábito, e das segundas naturezas, e sobre as armadilhas dos projetos educativos e éticos, baseados em coisas tão imprestáveis como o conceito de virtudes clássicas. Como já dizia Tucídides, «sagradas são as armas quando só nelas reside a esperança». Talvez Damásio queira explicar a sua teoria educativa aos terroristas, quer os árabes, quer os cristãos, ou talvez os considere como ignorantes, a precisarem de ser educados, ou doentes mentais, a precisarem de internamento, ou talvez reconheça que o contexto das culturas humanas evolui sobre as manipulações da linguagem, a retórica e a escultura dos «sentimentos» e que a compreensão das coisas implica sempre uma certa violência sobre as coisas.

Como não sou um guru académico, não vou cair na tentação de me pronunciar sobre o tema, e fujo cobardemente para a minha irrelevância, mas não deixo de vislumbrar - e este é o sentido deste longo, desagradável e aborrecido post - um certo facilitismo da parte de António Damásio. O que me custa, num autor pelo qual sinto (lá está) um certo respeito.

Deixo uma prova final com a retumbante conclusão a que Damásio chega depois de milhões de anos de análise do caldo de bactérias até às sinfonias metafóricas do Livro do Desassossego, de Bernardo Soares, com que nos brinda para nos elucidar – como se fosse preciso, valha-nos Deus - sobre a complexidade da relação entre sentimentos e consciência:

«A educação, no sentido mais vasto do termo, é o caminho óbvio a seguir. Um projeto educativo a longo prazo que tenha como objetivo criar ambientes saudáveis e socialmente produtivos terá de destacar comportamentos éticos e cívicos e de encorajar as virtudes morais clássicas - honestidade, bondade, empatia e compaixão, gratidão, modéstia.» A Estranha Ordem das Coisas (p. 307).

Saúde e Produção. Ética e Cidadania. Valha-nos Deus, pela segunda vez! Se isto é o que um especialista sobre a Vida, os Sentimentos, as Culturas Humanas (um tema supermodesto, note-se) tem para nos dizer, estamos perdidos. Consta que no Médio Oriente tentaram este projeto educativo, há cerca de 2000 anos, e não tem corrido muito bem. Em parte devido à nossa propensão (Ocidental) para a saúde e a capacidade produtiva.

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No fundo, António Damásio prescreve como modelo para a educação da humanidade o professor doutor António Damásio.

Bem sei, o professor doutor António Damásio trabalha respeitosamente dentro das disciplinas mas quer dinamitar os limites das disciplinas. Contudo, não se pode ter sol na eira e chuva no nabal, como bem diz o povo, que não vai à escola, mas tem sentimentos.

terça-feira, 27 de junho de 2017

O homem pré-histórico, a dor emocional e João Tordo

Nada tenho contra o autor multi-premiado João Tordo, e digo isto com toda a sinceridade que me é possível, tendo em conta o facto de me terem sido concedidos, no atrapalhado e aleatório processo de evolução, um sistema nervoso, competências sociais e linguagem natural dotada com o poder da ambiguidade, mas as reacções apaixonadas dos leitores, e acreditando na escassez de intencionalidade individual implícita na natureza humana, levam-me a esta torturante e infinita missão de compreender os para mim desesperantes enigmas do comportamento em rede, e dou por mim a ler críticas literárias de jovens mulheres, no GoodReads, tal como a que vai seguir-se:


Ser-se português implica carregar todo um legado emocional. Se é verdade que o sentimento saudade só tem palavra definida na nossa linguagem, também é verdade que existem pequenas particularidades que parecem ser encontradas só na nossa gente. A literatura portuguesa tem-se mostrado, nos grandes romancistas, recheada de uma profundidade que é raro encontrarmos na literatura estrangeira. Não falo de complexidades ou genialidades, falo antes de uma capacidade em explorar emoções e locais intrincados da mente humana no que toca ao relacionamento do eu consigo mesmo e do eu com os outros. Estreei-me na escrita de João Tordo com Biografia Involuntária dos Amantes e não demorei muito a aperceber-me que estava perante um escritor com essa capacidade. O luto de Elias Gro, embora num registo diferente, confirma esse talento nato, de alguém já amadurecido na escrita e capaz de enfrentar as suas próprias sombras.

E remata com um excerto do referido livro, O Luto de Elias Gro da autoria do próprio João Tordo:

"Parece que o lugar onde estamos nunca é suficientemente agradável. Deixa-me ver se acolá se está melhor. E, quando lá chegamos, percebemos afinal que a vida também estava a acontecer onde estávamos. Mas agora já estamos acolá e não podemos regressar, porque a vida também acontece acolá."

Vamos deixar por agora esta variação primária, da autoria de João Tordo, sobre um tema original de António Variações, Estou Além, e concentrar a nossa atenção sobre o que nos diz esta simpática leitora que vou manter no anonimato. Quero sublinhar uma afirmação da jovem leitora, quando na posse de uma invejável lucidez diz: Não falo de complexidades ou genialidades, falo antes de uma capacidade em explorar emoções e locais intrincados da mente humana no que toca ao relacionamento do eu consigo mesmo e do eu com os outros. Apetece-me assinalar aqui a enorme generosidade das mulheres, como dizia Vinicius de Morais, colocadas no mundo «só para sofrer pelo seu amor e ser só perdão», não creio que restem dúvidas sobre isso.

Queridos leitores, não quero ser mal entendido! Nesta altura do campeonato já não tenho saúde, idade ou peso para condenar a experiência psico-motora dos meus concidadãos quando se sentem democraticamente representados na página de um livro. A minha perplexidade é sincera, fruto de uma intratável curiosidade mórbida pelo amor gratuito e injustificado, e decorrente de um filtro lógico (imposto à minha mente por um misto de disciplina escolar e recusa da autoridade) viciado em compreender padrões de adesão à realidade. 

Bem sei que um teste sobre a cultura literária (e as competências analíticas e linguísticas dos leitores) nos desvendariam, com excruciante simplicidade, a chave destas problemáticas relações sociais de produção de gajas e gajos apaixonados por livros cheios de tralha sentimental, sem ponta de compreensão sequer da ponta de um corno de um touro de Benavente, quanto mais sobre os locais intrincados da mente humana no que toca ao relacionamento do eu consigo mesmo. Uma das características do eu na relação consigo mesmo é a incapacidade de saber de que forma o eu dos outros se relaciona com eles mesmos. Neste domínio, recomendo um vídeo de Gustavo Santos.

Sabemos bem como tudo isto resulta da liberal desigualdade na distribuição de motores de busca adequados à procura de sentido para o absurdo medo do mundo em que vivemos, num tempo em que a religião deixou de ser socialmente aceitável. As pessoas (e bem) ficaram entregues a si próprias, e invadiram desesperadas as livrarias, em busca de um texto onde a sua incapacidade de subjugar os outros pela inteligência (ou o poder profissional e financeiro) encontre o justo (e generoso) correlato de uma cura para as dúvidas sobre as suas próprias inseguranças. 

Em cima de uma linguagem saturada de palestinianos pescadores de sandálias e platonismo filtrado pelo voluntarismo semita (repetida incansavelmente aos nossos ouvidos durante dois milénios) os sacerdotes descentralizados da pós-modernidade (os cultores da palavra impressa) já muito encostados à parede pela jargão da psicologia popular (os lugares emocionais, as feridas da memória, os amores feridos) vão agora, esfarrapados e esfomeados, recolher pobres leitores perdidos nesse gigantesco subúrbio formado pelos corações atribulados da sociedade do (risos) conhecimento. Sofrem as mulheres (em maior número, na medida em que sempre foram o público mais dotado em capacidades de organização do tempo e interesse pelo que os homens confusos têm a dizer) e sofrem os homens apanhados nas garras da sentimental-literatura-premiada pelo desejo de negociar em espécies raras.

Será justo libertar o riso por cima desta Tragédia? Sim, pois não se trata de uma tragédia mas da vida de todos os dias, em que é necessário respeitar o adversário, mas não dar tréguas à ignorância, ao oportunismo e à falta de respeito pelas pessoas, mesmo, ou sobretudo, as que não devem ser tratadas como atrasadas mentais só porque não possuem um Doutoramento em Sociologia dos Transgénicos Pouco Apreciados por Tatuados Comedores de Saladas Biológicas Com Familiares Afro-Ameríndios. Claro que a reacção mais evidente será a de recusar um discurso, neste caso, o meu, assente na expressão eventualmente grosseira de um julgamento (eventualmente sobranceiro e cruel) sobre a trapalhada sentimental em que labora o projecto literário de João Tordo. Afirmativo, como dizem os agentes da autoridade, é essa a beleza de sermos todos diferentes (em diversa relação com o nosso eu e com o eu dos outros) onde acresce o facto de eu ser um gajo particularmente irritante (muitas vezes em desacordo com o meu eu) e apostado em diversificar a fauna do nosso mundo literário. Nesse sentido, queridos amigos, vou partilhar convosco um texto de trabalho, acompanhado por materiais didácticos.

 Aos 4 minutos e 54 segundos do instrutivo vídeo que o estimado leitor pode ter a oportunidade de visualizar no link abaixo, o companheiro de luta João Tordo profere as seguintes afirmações, e passo a citar:

«Como é que eu lido com o sofrimento? Quando eu escrevi o livro percebi alguma coisa sobre o sofrimento que eu não tinha percebido antes, no sentido em que, quando eu terminei o romance... (pausa, confusão mental, curto-circuito, bzzzzzzz, prossegue em esforço) Nós temos uma relação física com a dor que é muito óbvia, quando eu parto um braço (João Tordo agarra o pulso) ou se me dói aqui (João Tordo aponta para o ombro esquerdo) eu vou ao médico e trato o braço, ou trato aqui (João Tordo, um pouco atordoado, aponta para o ombro esquerdo, já visivelmente aterrorizado pela trapalhada em que se meteu) e sei instintivamente que o sítio onde está a dor física é o sítio onde a dor se cura (bzzzzzzz, pfrrrrrrrrr, válvulas em alta pressão, perigo de colapso na cabeça do João Tordo, ó rodas e engrenagens rrrrrrrr eterno! e prossegue em esforço) ou tem a possibilidade de chegar à conclusão. (João Tordo faz nova pausa, olha para o infinito, e de uma forma decidida, corajosa, autoritária, impenitente, remata para a conclusão). Na dor emocional a coisa é muito diferente. Porque na dor emocional, na dor emocional a nossa resposta é a fuga (pausa para pensar, pânico, dúvida existencial, e prossegue). E isto é assim, desde sempre (riso embaraçado, encolher de ombros, pânico, dor física no intestino, vontade de fuga, mas prossegue) Já se falava, já se falava dos homens, do, dooo, doooo, os homens pré-históricos, o homem pré-histórico reagia assim também, os, os, os, tinham três comportamentos, luta (com as mãos abertas, querendo agarrar a fugidia ideia pelos cornos) fuga e paralisia  (olha para o entrevistador como se tivesse avistado um búfalo agressivo, mas retomando a sua posição de estadista, prossegue) E a paralisia surge quando, quando há um fenómeno de tal maneira, de tal maneira, aaaaaaa, estranho ou que cause tanto sofrimento que a nossa única resposta é paralisar (sensação de alívio na cara de João Tordo por ter chegado ao fim da paralisia) E essa nossa reacção que se foi propagando geneticamente (João Tordo faz um gesto de espiral, simbolizando um esforço neuronal no limite das suas possibilidades sinápticas) chegou até hoje, portanto, a nossa resposta perante a dor emocional é fugir». 

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segunda-feira, 24 de abril de 2017

Não quero ferir susceptibilidades, nem ser desagradável (estou muito cansado) mas este conjunto de frases teve a capacidade de suscitar algumas dúvidas sobre o mundo em que vivemos


Mas se não fosse duro, como diz o Professor Rui Vitória, era para os outros. Por isso mesmo, a edição crítico-genética, os elogios da senhora professora doutora e benfiquista Maria Alzira Seixo, a celebração póstuma, a erecção perene, a ilusória intemporalidade, com sua posteridade condicional, a inscrição no programa de controlo das línguas juvenis através das senhoras coercivas professoras ideológicas de Estado, as estátuas à mercê dos pombos e das adolescentes armadas com as suas máquinas fotográficas, as obras completas condenadas às caves das bibliotecas, as citações por respeitáveis parlamentares corruptos e sábios de toga e pixa mole, tudo isso a que se chama a literatura, meus caríssimos leitores, não é para quem quer, é para quem pode.


Evolução artística da humanidade: algumas impressões lógico-técnicas sobre pessoas espectaculares, embora umas mais do que outras




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Agora, atenção!

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Calma.

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quarta-feira, 29 de março de 2017

Uma simpática interpelação (e não estou a ser engraçado, a interpelação é mesmo simpática) merece resposta digna dada a importância do assunto

Deixemos de lado o assunto sobre a correcta redacção das quotas ou cotas, sou daqueles para quem a ortografia é como a regra do fora de jogo, o que interessa é que a bola (da minha equipa, claro) entre na baliza. Assumo desde já a minha culpa, pelo facto de o texto ter sido escrito num certo estado de embriaguez, não clarificando cabalmente a minha posição. Quero dizer com toda a frontalidade: sou favorável às cotas para mulheres (isto ao som de uma fanfarra com duas bonitas bombeiras a rufar caixa logo na dianteira - peço desculpa). As cotas resolverão um importantíssimo problema: o da diversidade no acesso ao poder, não o da qualidade no exercício do poder. Mais: a justificação das cotas para mulheres com base num alegado aumento do mérito e da competência - e esse era o meu ponto - enfraquece o principal esteio na fundamentação das cotas, a saber, a justiça e a paridade no acesso a cargos de poder. E isto parece-me claríssimo como água, e foi precisamente isto que a jornalista Fernanda Câncio não compreendeu, seduzida pela força da pseudo-lógica e da autoridade do argumento científico e do sacrossanto princípio da (risos) meritocracia no mundo contemporâneo.

É precisamente pelo facto de as coisas poderem correr mal que a decisão será bonita, progressista, humana e absolutamente desejada. Se a clarificação deste ponto ofende a causa, calo-me de imediato, mas tenham paciência, estou devidamente enfadado quanto à fundamentação de valores políticos com base na eficiência. O julgamento do valor deve ser livre, e a política serve, como aliás julgo que defende a nossa leitora, para obter consensos sobre o que deve ser imposto pela força por ser moralmente desejável (como a protecção da vida ou a necessidade de abolir a saúde privada, temos pena) e por isso, impenetrável a qualquer fundamentação mecânica de ganhos materiais ou (risos), incluindo ou sobretudo, qualquer ideia de mérito ou de superioridade da inteligência.

Clarifiquemos os princípios metafísicos do nosso raciocínio. Diz a leitora e autora do blogue Um jeito manso:


Afirmações muito interessantes mas problemáticas. A ousadia na utilização de um termo como medíocre é comum talvez em pessoas habituadas a cargos de chefia. O que é um medíocre? O que é um medíocre sobrevivente? Eu tenho uma ideia: uma pessoa num cargo de chefia. É precisamente por existir um conflito entre evolução e sobrevivência, por um lado, e valor moral, justiça, mérito ou mediocridade, por outro, que a imposição de um princípio «artificial» à evolução natural, nada nos diz sobre os benefícios para a evolução desse artifício. Como a sobrevivência não garante a bondade ou inteligência do sobrevivente mas a sua existência, não podemos fundamentar as nossas decisões políticas em termos de benefícios para a evolução, até porque, caramba, quantas vezes temos de repetir, nós não sabemos para onde vamos. Temos ao nosso lado, outros ilustres doidos varridos como Philip K. Dick ou Emanuel Pimba Kant: a capacidade de alterar as respostas em virtude da estupidez dos resultados obtidos é precisamente o que nos caracteriza como humanos, mas isso nada nos diz sobre a nossa relação com a natureza, pois, senhoras e senhores deputados, nós não sabemos onde termina a natureza e começa o artifício. Mais: a ideia de mérito tem uma relação muito problemática com a evolução e ainda mais com a inteligência, e julgo que nisto também estamos de acordo. Vamos então pensar se andam entre nós andróides, ou seja, pessoas estúpidas e mentecaptas.

Como é evidente, não vos sei dizer, mas posso eventualmente tentar responder onde andam pessoas maldosas - seguramente, muitas, nos cargos de chefia das organizações - e essa é talvez a ideia mais bonita da literatura em geral, sobretudo na obra do não devidamente apreciado e já referido autor, Philip K. Dick. Todavia, tenho cada vez mais dificuldade em qualificar as pessoas como estúpidas, não pela inexistência de estupidez, mas por nos estarem vedados, quer as razões da estupidez dos outros, quer o contributo dessa estupidez para benefícios eventualmente gerais mas invisíveis no momento. Sei como isto me aproxima perigosamente de um qualquer budista californiano neste momento pedrado com canabis e a babar-se algures em S. Francisco, no meio de uma pilha de livros de Tagore, mas como leitor de Cervantes (meu amado mestre) não posso trair a minha natureza de pessoa com uma certa coragem para enfrentar a realidade.

Na verdade, estou convicto de que a infinita beleza e especificidade do ser humano reside precisamente no facto de as pessoas mentecaptas poderem reconverter-se e sei muito bem como a autora de Um jeito manso pensa como eu, ou não teria perdido tempo a dirigir-me a palavra, tentando reconverter um engraçadola que não tem qualquer experiência sobre a dificuldade de ser mulher. E por isso, aconteceu aqui um daqueles bonitos momentos tão comuns nas redes sociais, mas a que os aparelhos ideológicos do Estado não conferem a devida importância: foi-nos apontada cordialmente uma outra perspectiva, com base numa comunicação simples, e nós aceitamos o reparo. Ou seja, a minha estupidez tem obviamente limites e não me julgo muito melhor do que a esmagadora maioria das pessoas. Vou então refazer o meu raciocínio - agora sem alusões indirectas - reforçando uma conclusão radicalmente diferente. Peço paciência para quem me acompanhar.

Sim, é verdade, o poder de sobrevivência nada tem a ver com o mérito ou a mediocridade, posso sobreviver e isso resultar num rotundo falhanço da minha inteligência, aliás, posso sobreviver precisamente por ser um bocado estúpido. Estamos portanto de acordo. E pode dar-se o caso de as mulheres eleitas para cargos de poder, precisamente por estarem, na sua formação, sujeitas a um ambiente muito adverso, serem ainda mais estúpidas do que os homens chegados de forma «natural» aos cargos de poder. Teríamos de analisar cada caso, pois em assuntos humanos, é muito perigoso aplicar princípios gerais em assuntos como o mérito: e este, repito, era o meu ponto. Creio que continuamos a usar a selecção natural e a teoria da evolução sem uma cabal compreensão do equivalente à hereditariedade genética em termos de reprodução em cargos de relevância social. Ou seja, não conhecemos muito bem a economia humana na articulação entre autoridade, prestígio e género sexual, caso contrario, já estaríamos todos no paraíso. Vamos então à adaptabilidade do mecanismo das quotas no sentido de garantir o triunfo sobre a mediocridade. Senhoras e senhores, aqui começam os problemas. 


A autora refere «não acreditar» na inexistência geral de uma mulher pelo menos tão competente quanto o menos competente dos homens nessa comissão, mas a sua crença e a sua experiência pessoal são argumentos, se me permite, muito frágeis, pois eu diria que depende muito da organização, do número de mulheres a trabalhar nessa organização e sobretudo, dos critérios de quem escolhe os colaboradores. Não subestimaria a hipótese de a mulher escolhida ser pior do que o pior dos quatro homens (e pior em quê?), tudo depende do conjunto, e sobretudo dos critérios, repito, dos critérios com que foram seleccionados os homens e as referidas mulheres. A autora de um jeito manso diz que, em geral, em níveis mais baixos das organizações, há normalmente muitas mulheres e esse é um dado em que tenho de confiar, mas é um dado no mínimo vago. Na verdade, um dos problemas das cotas, será a obrigatoriedade de estender a obrigatoriedade de um mínimo de mulheres escolhidas, em todos os níveis da organização, caso contrário, o efeito pode ser um bocado pífio, e resultar precisamente no contrário aos objectivos pretendidos, um fenómeno aliás, estatisticamente muito comum na política. 

Creio que no afã de suportar uma causa justa (e a causa é justa, relembremos) estamos a esquecer que o mesmo raciocínio poder servir para um caminho inteiramente diverso. E por isso, a argumentação do meu post anterior: se o machismo é dominante e se os homens estão em franca maioria (e não me parece que apenas no cargos de chefia, depende das profissões, e por isso, teremos de, em seguida, passar ao problema das profissões «masculinas»), a pressão de competição entre os homens será maior, e talvez a injustiça, em termos relativos, quanto a nomeações por competência nos cargos de chefia, seja até maior no caso dos homens. Não vejo por isso qualquer relação entre a determinação de cotas para mulheres e o aumento da competência nos cargos de chefia - e este era o meu ponto. A obrigatoriedade de cotas para mulheres no topo das organizações pode, pelo contrário, demonstrar uma «falsa» inaptidão da mulher para cargos de chefia, ao recrutar num ambiente menos numeroso, mas muito adverso, e isso seria mortal para o argumento da competência e da meritocracia. Todavia - e agora as bombeiras começaram a rufar as caixas - isto não tem qualquer interesse para o argumento da paridade no direito da mulher obter um cargo de chefia, seja mais ou menos incompetente do que os seus colegas homens. 

Talvez o meu erro tenha sido argumentar sobre um assunto onde, concedo, a urgência de garantir a igualdade deve preceder considerações de ordem meritocrática, até porque as organizações, as empresas, os clubes de futebol, estão cheios de homens estúpidos e incompetentes. Nesse sentido, tenho o prazer de anunciar que concedo inteiramente este ponto. Talvez não seja o tempo de cobardes considerações teóricas sobre os equívocos da meritocracia em termos de selecção dos cargos de chefia (até porque em geral as pessoas escolhidas, i.e., os sobreviventes, serão, com toda a certeza, lamento, os piores de nós). Talvez seja, sim, o tempo de conceder a igualdade de acesso às mulheres no comando da sociedade. Quanto aos resultados, logo se vê.

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terça-feira, 28 de março de 2017

Na sociedade da informação, o mérito, seja homem ou mulher, é de quem conseguir terraplanar a complexidade com um sorriso nos lábios


Portanto, deixem-me ver se estou já devidamente embriagado ou não. A imposição (artificial) de um mínimo de representação de mulheres vai acabar com a escolha dos homens só por serem homens. A meu ver, invocando a teoria dos conjuntos e as pressões reprodutivas da selecção natural, a avaliação dos mecanismos de «escolha dos homens só por serem homens», no caso de uma suposta medição dos critérios e análise da eventual justiça meritocrática da escolha, teria sempre de lidar com quantidades relativas, como por exemplo o número de homens interessados em cargos políticos à partida, num estado inicial, e as escolhas efectivas, no ponto de chegada, introduzindo depois o elemento, e passo a citar, «natural», acerca dos géneros reproduzidos no ecossistema, avaliando então o sistema informal de cotas. Até se pode dar o caso de termos uma pressão muito superior nos concorrentes masculinos. Imaginem um cenário onde 10 000 homens tentaram ser políticos e apenas 100 conseguiram e 50 mulheres tentaram idêntico desiderato (uma palavra que ainda não tinha utilizado no meu tempo de vida) e apenas 5 mulheres conseguiram o cargo. Não é necessário ter recebido o nome de Isaac Newton para compreender que a pressão meritocrática, nesta hipótese académica, seria superior para os homens, apesar da inferioridade comparativa em termos absolutos. O que estaria aqui em causa não seria tanto o mecanismo de selecção mas a razão de existirem muito menos mulheres interessadas nos cargos políticos, o que não é a mesma coisa. Não sei se o estudo faz isto, não fui ler, não sou maluco. 

Na verdade, é absolutamente espectacular de um ponto de vista cosmológico que a Fernanda Câncio, sempre disposta a ter em conta os meandros infinitesimais do sofrimento humano, apareça aqui a defender que o mero estreitamento dos canais de acesso a um dado conjunto humano, seja por si só, uma garantia de justiça e paz no amplo conjunto dos interessados na vida eterna. Saúdo os mais recentemente convertidos ao capitalismo selvagem legitimados pela luta de género. Acho, contudo, extraordinário, a introdução da meritocracia (oleada pela mecânica dos fluídos) ao nível da sustentação dos direitos sociais legítimos. As cotas também podem (se os critérios de escolha dos homens forem simplesmente parvos) expulsar ainda mais homens competentes dos cargos políticos, e trazer as únicas cinco mulheres incompetentes para a representação política, Aliás, creio que esta é a hipótese mais provável, no actual cenário.

Estarei com isto a defender uma repugnante descriminação do sexo feminino? Não me parece. Avancem as cotas, e sem qualquer discussão sobre os critérios de selecção dos candidatos a cargos políticos em geral. Se escrevo este texto é apenas por embirração com a Fernanda Câncio (não por ser mulher, isso pelo contrário, até a favorece, peço desculpa, isto é sexismo, devia já passar ao insulto, mas nesse caso, seria acusado de sexismo, enfim, valha-me deus, estou confuso) e sobretudo indignação perante o tratamento leviano de um tão fundamental assunto. Platão já esgotou o tema com o seu diálogo Teeteto (não sei se etimologicamente o título está relacionado com tetas, mas parece-me que não). No fundo, Fernando Câncio, com a eficácia que a caracteriza, está aqui a recorrer a uma das mais bem remuneradas práticas da vida moderna: para resolver um problema, colocamos em prática um mecanismo, qualquer que seja a relação deste mecanismo com o problema. Se o mecanismo funcionar, aconteceu ciência, mesmo que o problema se tenha agravado e multiplicado por mil.

Novels are about other novels — and how they make us suffer

Felizmente, ainda há pessoas preocupadas com o nosso entretenimento. Saiu o novo livro da fabulosa Elif Batuman. Aqui.

O jihadismo está entre nós



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segunda-feira, 27 de março de 2017

Era no tempo em que os escritores ganhavam dinheiro

The editors of the Post agreed to the idea of a series, but suddenly there was a problem. Faulkner discovered that his plan would not work with just the three additional stories he had in mind. H e needed to provide a bridge; he had to use some of his material to get him from what he called "the War-Silver-Mule business"" to the Reconstruction. Then another problem developed. Graeme Lorimer, of the Post's editorial staff, would not offer as much for the series as Faulkner wanted. At this juncture the flirtation from Hollywood turned into a contract offer from Hawks: Universal Studios would hire him at $1,000 on a week-to-week basis. He may have been relieved to leave the stories for the time being, and he made plans to fly out.