terça-feira, 27 de junho de 2017

O homem pré-histórico, a dor emocional e João Tordo

Nada tenho contra o autor multi-premiado João Tordo, e digo isto com toda a sinceridade que me é possível, tendo em conta o facto de me terem sido concedidos, no atrapalhado e aleatório processo de evolução, um sistema nervoso, competências sociais e linguagem natural dotada com o poder da ambiguidade, mas as reacções apaixonadas dos leitores, e acreditando na escassez de intencionalidade individual implícita na natureza humana, levam-me a esta torturante e infinita missão de compreender os para mim desesperantes enigmas do comportamento em rede, e dou por mim a ler críticas literárias de jovens mulheres, no GoodReads, tal como a que vai seguir-se:


Ser-se português implica carregar todo um legado emocional. Se é verdade que o sentimento saudade só tem palavra definida na nossa linguagem, também é verdade que existem pequenas particularidades que parecem ser encontradas só na nossa gente. A literatura portuguesa tem-se mostrado, nos grandes romancistas, recheada de uma profundidade que é raro encontrarmos na literatura estrangeira. Não falo de complexidades ou genialidades, falo antes de uma capacidade em explorar emoções e locais intrincados da mente humana no que toca ao relacionamento do eu consigo mesmo e do eu com os outros. Estreei-me na escrita de João Tordo com Biografia Involuntária dos Amantes e não demorei muito a aperceber-me que estava perante um escritor com essa capacidade. O luto de Elias Gro, embora num registo diferente, confirma esse talento nato, de alguém já amadurecido na escrita e capaz de enfrentar as suas próprias sombras.

E remata com um excerto do referido livro, O Luto de Elias Gro da autoria do próprio João Tordo:

"Parece que o lugar onde estamos nunca é suficientemente agradável. Deixa-me ver se acolá se está melhor. E, quando lá chegamos, percebemos afinal que a vida também estava a acontecer onde estávamos. Mas agora já estamos acolá e não podemos regressar, porque a vida também acontece acolá."

Vamos deixar por agora esta variação primária, da autoria de João Tordo, sobre um tema original de António Variações, Estou Além, e concentrar a nossa atenção sobre o que nos diz esta simpática leitora que vou manter no anonimato. Quero sublinhar uma afirmação da jovem leitora, quando na posse de uma invejável lucidez diz: Não falo de complexidades ou genialidades, falo antes de uma capacidade em explorar emoções e locais intrincados da mente humana no que toca ao relacionamento do eu consigo mesmo e do eu com os outros. Apetece-me assinalar aqui a enorme generosidade das mulheres, como dizia Vinicius de Morais, colocadas no mundo «só para sofrer pelo seu amor e ser só perdão», não creio que restem dúvidas sobre isso.

Queridos leitores, não quero ser mal entendido! Nesta altura do campeonato já não tenho saúde, idade ou peso para condenar a experiência psico-motora dos meus concidadãos quando se sentem democraticamente representados na página de um livro. A minha perplexidade é sincera, fruto de uma intratável curiosidade mórbida pelo amor gratuito e injustificado, e decorrente de um filtro lógico (imposto à minha mente por um misto de disciplina escolar e recusa da autoridade) viciado em compreender padrões de adesão à realidade. 

Bem sei que um teste sobre a cultura literária (e as competências analíticas e linguísticas dos leitores) nos desvendariam, com excruciante simplicidade, a chave destas problemáticas relações sociais de produção de gajas e gajos apaixonados por livros cheios de tralha sentimental, sem ponta de compreensão sequer da ponta de um corno de um touro de Benavente, quanto mais sobre os locais intrincados da mente humana no que toca ao relacionamento do eu consigo mesmo. Uma das características do eu na relação consigo mesmo é a incapacidade de saber de que forma o eu dos outros se relaciona com eles mesmos. Neste domínio, recomendo um vídeo de Gustavo Santos.

Sabemos bem como tudo isto resulta da liberal desigualdade na distribuição de motores de busca adequados à procura de sentido para o absurdo medo do mundo em que vivemos, num tempo em que a religião deixou de ser socialmente aceitável. As pessoas (e bem) ficaram entregues a si próprias, e invadiram desesperadas as livrarias, em busca de um texto onde a sua incapacidade de subjugar os outros pela inteligência (ou o poder profissional e financeiro) encontre o justo (e generoso) correlato de uma cura para as dúvidas sobre as suas próprias inseguranças. 

Em cima de uma linguagem saturada de palestinianos pescadores de sandálias e platonismo filtrado pelo voluntarismo semita (repetida incansavelmente aos nossos ouvidos durante dois milénios) os sacerdotes descentralizados da pós-modernidade (os cultores da palavra impressa) já muito encostados à parede pela jargão da psicologia popular (os lugares emocionais, as feridas da memória, os amores feridos) vão agora, esfarrapados e esfomeados, recolher pobres leitores perdidos nesse gigantesco subúrbio formado pelos corações atribulados da sociedade do (risos) conhecimento. Sofrem as mulheres (em maior número, na medida em que sempre foram o público mais dotado em capacidades de organização do tempo e interesse pelo que os homens confusos têm a dizer) e sofrem os homens apanhados nas garras da sentimental-literatura-premiada pelo desejo de negociar em espécies raras.

Será justo libertar o riso por cima desta Tragédia? Sim, pois não se trata de uma tragédia mas da vida de todos os dias, em que é necessário respeitar o adversário, mas não dar tréguas à ignorância, ao oportunismo e à falta de respeito pelas pessoas, mesmo, ou sobretudo, as que não devem ser tratadas como atrasadas mentais só porque não possuem um Doutoramento em Sociologia dos Transgénicos Pouco Apreciados por Tatuados Comedores de Saladas Biológicas Com Familiares Afro-Ameríndios. Claro que a reacção mais evidente será a de recusar um discurso, neste caso, o meu, assente na expressão eventualmente grosseira de um julgamento (eventualmente sobranceiro e cruel) sobre a trapalhada sentimental em que labora o projecto literário de João Tordo. Afirmativo, como dizem os agentes da autoridade, é essa a beleza de sermos todos diferentes (em diversa relação com o nosso eu e com o eu dos outros) onde acresce o facto de eu ser um gajo particularmente irritante (muitas vezes em desacordo com o meu eu) e apostado em diversificar a fauna do nosso mundo literário. Nesse sentido, queridos amigos, vou partilhar convosco um texto de trabalho, acompanhado por materiais didácticos.

 Aos 4 minutos e 54 segundos do instrutivo vídeo que o estimado leitor pode ter a oportunidade de visualizar no link abaixo, o companheiro de luta João Tordo profere as seguintes afirmações, e passo a citar:

«Como é que eu lido com o sofrimento? Quando eu escrevi o livro percebi alguma coisa sobre o sofrimento que eu não tinha percebido antes, no sentido em que, quando eu terminei o romance... (pausa, confusão mental, curto-circuito, bzzzzzzz, prossegue em esforço) Nós temos uma relação física com a dor que é muito óbvia, quando eu parto um braço (João Tordo agarra o pulso) ou se me dói aqui (João Tordo aponta para o ombro esquerdo) eu vou ao médico e trato o braço, ou trato aqui (João Tordo, um pouco atordoado, aponta para o ombro esquerdo, já visivelmente aterrorizado pela trapalhada em que se meteu) e sei instintivamente que o sítio onde está a dor física é o sítio onde a dor se cura (bzzzzzzz, pfrrrrrrrrr, válvulas em alta pressão, perigo de colapso na cabeça do João Tordo, ó rodas e engrenagens rrrrrrrr eterno! e prossegue em esforço) ou tem a possibilidade de chegar à conclusão. (João Tordo faz nova pausa, olha para o infinito, e de uma forma decidida, corajosa, autoritária, impenitente, remata para a conclusão). Na dor emocional a coisa é muito diferente. Porque na dor emocional, na dor emocional a nossa resposta é a fuga (pausa para pensar, pânico, dúvida existencial, e prossegue). E isto é assim, desde sempre (riso embaraçado, encolher de ombros, pânico, dor física no intestino, vontade de fuga, mas prossegue) Já se falava, já se falava dos homens, do, dooo, doooo, os homens pré-históricos, o homem pré-histórico reagia assim também, os, os, os, tinham três comportamentos, luta (com as mãos abertas, querendo agarrar a fugidia ideia pelos cornos) fuga e paralisia  (olha para o entrevistador como se tivesse avistado um búfalo agressivo, mas retomando a sua posição de estadista, prossegue) E a paralisia surge quando, quando há um fenómeno de tal maneira, de tal maneira, aaaaaaa, estranho ou que cause tanto sofrimento que a nossa única resposta é paralisar (sensação de alívio na cara de João Tordo por ter chegado ao fim da paralisia) E essa nossa reacção que se foi propagando geneticamente (João Tordo faz um gesto de espiral, simbolizando um esforço neuronal no limite das suas possibilidades sinápticas) chegou até hoje, portanto, a nossa resposta perante a dor emocional é fugir». 

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segunda-feira, 24 de abril de 2017

Não quero ferir susceptibilidades, nem ser desagradável (estou muito cansado) mas este conjunto de frases teve a capacidade de suscitar algumas dúvidas sobre o mundo em que vivemos


Mas se não fosse duro, como diz o Professor Rui Vitória, era para os outros. Por isso mesmo, a edição crítico-genética, os elogios da senhora professora doutora e benfiquista Maria Alzira Seixo, a celebração póstuma, a erecção perene, a ilusória intemporalidade, com sua posteridade condicional, a inscrição no programa de controlo das línguas juvenis através das senhoras coercivas professoras ideológicas de Estado, as estátuas à mercê dos pombos e das adolescentes armadas com as suas máquinas fotográficas, as obras completas condenadas às caves das bibliotecas, as citações por respeitáveis parlamentares corruptos e sábios de toga e pixa mole, tudo isso a que se chama a literatura, meus caríssimos leitores, não é para quem quer, é para quem pode.


Evolução artística da humanidade: algumas impressões lógico-técnicas sobre pessoas espectaculares, embora umas mais do que outras




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Agora, atenção!

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Calma.

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quarta-feira, 29 de março de 2017

Uma simpática interpelação (e não estou a ser engraçado, a interpelação é mesmo simpática) merece resposta digna dada a importância do assunto

Deixemos de lado o assunto sobre a correcta redacção das quotas ou cotas, sou daqueles para quem a ortografia é como a regra do fora de jogo, o que interessa é que a bola (da minha equipa, claro) entre na baliza. Assumo desde já a minha culpa, pelo facto de o texto ter sido escrito num certo estado de embriaguez, não clarificando cabalmente a minha posição. Quero dizer com toda a frontalidade: sou favorável às cotas para mulheres (isto ao som de uma fanfarra com duas bonitas bombeiras a rufar caixa logo na dianteira - peço desculpa). As cotas resolverão um importantíssimo problema: o da diversidade no acesso ao poder, não o da qualidade no exercício do poder. Mais: a justificação das cotas para mulheres com base num alegado aumento do mérito e da competência - e esse era o meu ponto - enfraquece o principal esteio na fundamentação das cotas, a saber, a justiça e a paridade no acesso a cargos de poder. E isto parece-me claríssimo como água, e foi precisamente isto que a jornalista Fernanda Câncio não compreendeu, seduzida pela força da pseudo-lógica e da autoridade do argumento científico e do sacrossanto princípio da (risos) meritocracia no mundo contemporâneo.

É precisamente pelo facto de as coisas poderem correr mal que a decisão será bonita, progressista, humana e absolutamente desejada. Se a clarificação deste ponto ofende a causa, calo-me de imediato, mas tenham paciência, estou devidamente enfadado quanto à fundamentação de valores políticos com base na eficiência. O julgamento do valor deve ser livre, e a política serve, como aliás julgo que defende a nossa leitora, para obter consensos sobre o que deve ser imposto pela força por ser moralmente desejável (como a protecção da vida ou a necessidade de abolir a saúde privada, temos pena) e por isso, impenetrável a qualquer fundamentação mecânica de ganhos materiais ou (risos), incluindo ou sobretudo, qualquer ideia de mérito ou de superioridade da inteligência.

Clarifiquemos os princípios metafísicos do nosso raciocínio. Diz a leitora e autora do blogue Um jeito manso:


Afirmações muito interessantes mas problemáticas. A ousadia na utilização de um termo como medíocre é comum talvez em pessoas habituadas a cargos de chefia. O que é um medíocre? O que é um medíocre sobrevivente? Eu tenho uma ideia: uma pessoa num cargo de chefia. É precisamente por existir um conflito entre evolução e sobrevivência, por um lado, e valor moral, justiça, mérito ou mediocridade, por outro, que a imposição de um princípio «artificial» à evolução natural, nada nos diz sobre os benefícios para a evolução desse artifício. Como a sobrevivência não garante a bondade ou inteligência do sobrevivente mas a sua existência, não podemos fundamentar as nossas decisões políticas em termos de benefícios para a evolução, até porque, caramba, quantas vezes temos de repetir, nós não sabemos para onde vamos. Temos ao nosso lado, outros ilustres doidos varridos como Philip K. Dick ou Emanuel Pimba Kant: a capacidade de alterar as respostas em virtude da estupidez dos resultados obtidos é precisamente o que nos caracteriza como humanos, mas isso nada nos diz sobre a nossa relação com a natureza, pois, senhoras e senhores deputados, nós não sabemos onde termina a natureza e começa o artifício. Mais: a ideia de mérito tem uma relação muito problemática com a evolução e ainda mais com a inteligência, e julgo que nisto também estamos de acordo. Vamos então pensar se andam entre nós andróides, ou seja, pessoas estúpidas e mentecaptas.

Como é evidente, não vos sei dizer, mas posso eventualmente tentar responder onde andam pessoas maldosas - seguramente, muitas, nos cargos de chefia das organizações - e essa é talvez a ideia mais bonita da literatura em geral, sobretudo na obra do não devidamente apreciado e já referido autor, Philip K. Dick. Todavia, tenho cada vez mais dificuldade em qualificar as pessoas como estúpidas, não pela inexistência de estupidez, mas por nos estarem vedados, quer as razões da estupidez dos outros, quer o contributo dessa estupidez para benefícios eventualmente gerais mas invisíveis no momento. Sei como isto me aproxima perigosamente de um qualquer budista californiano neste momento pedrado com canabis e a babar-se algures em S. Francisco, no meio de uma pilha de livros de Tagore, mas como leitor de Cervantes (meu amado mestre) não posso trair a minha natureza de pessoa com uma certa coragem para enfrentar a realidade.

Na verdade, estou convicto de que a infinita beleza e especificidade do ser humano reside precisamente no facto de as pessoas mentecaptas poderem reconverter-se e sei muito bem como a autora de Um jeito manso pensa como eu, ou não teria perdido tempo a dirigir-me a palavra, tentando reconverter um engraçadola que não tem qualquer experiência sobre a dificuldade de ser mulher. E por isso, aconteceu aqui um daqueles bonitos momentos tão comuns nas redes sociais, mas a que os aparelhos ideológicos do Estado não conferem a devida importância: foi-nos apontada cordialmente uma outra perspectiva, com base numa comunicação simples, e nós aceitamos o reparo. Ou seja, a minha estupidez tem obviamente limites e não me julgo muito melhor do que a esmagadora maioria das pessoas. Vou então refazer o meu raciocínio - agora sem alusões indirectas - reforçando uma conclusão radicalmente diferente. Peço paciência para quem me acompanhar.

Sim, é verdade, o poder de sobrevivência nada tem a ver com o mérito ou a mediocridade, posso sobreviver e isso resultar num rotundo falhanço da minha inteligência, aliás, posso sobreviver precisamente por ser um bocado estúpido. Estamos portanto de acordo. E pode dar-se o caso de as mulheres eleitas para cargos de poder, precisamente por estarem, na sua formação, sujeitas a um ambiente muito adverso, serem ainda mais estúpidas do que os homens chegados de forma «natural» aos cargos de poder. Teríamos de analisar cada caso, pois em assuntos humanos, é muito perigoso aplicar princípios gerais em assuntos como o mérito: e este, repito, era o meu ponto. Creio que continuamos a usar a selecção natural e a teoria da evolução sem uma cabal compreensão do equivalente à hereditariedade genética em termos de reprodução em cargos de relevância social. Ou seja, não conhecemos muito bem a economia humana na articulação entre autoridade, prestígio e género sexual, caso contrario, já estaríamos todos no paraíso. Vamos então à adaptabilidade do mecanismo das quotas no sentido de garantir o triunfo sobre a mediocridade. Senhoras e senhores, aqui começam os problemas. 


A autora refere «não acreditar» na inexistência geral de uma mulher pelo menos tão competente quanto o menos competente dos homens nessa comissão, mas a sua crença e a sua experiência pessoal são argumentos, se me permite, muito frágeis, pois eu diria que depende muito da organização, do número de mulheres a trabalhar nessa organização e sobretudo, dos critérios de quem escolhe os colaboradores. Não subestimaria a hipótese de a mulher escolhida ser pior do que o pior dos quatro homens (e pior em quê?), tudo depende do conjunto, e sobretudo dos critérios, repito, dos critérios com que foram seleccionados os homens e as referidas mulheres. A autora de um jeito manso diz que, em geral, em níveis mais baixos das organizações, há normalmente muitas mulheres e esse é um dado em que tenho de confiar, mas é um dado no mínimo vago. Na verdade, um dos problemas das cotas, será a obrigatoriedade de estender a obrigatoriedade de um mínimo de mulheres escolhidas, em todos os níveis da organização, caso contrário, o efeito pode ser um bocado pífio, e resultar precisamente no contrário aos objectivos pretendidos, um fenómeno aliás, estatisticamente muito comum na política. 

Creio que no afã de suportar uma causa justa (e a causa é justa, relembremos) estamos a esquecer que o mesmo raciocínio poder servir para um caminho inteiramente diverso. E por isso, a argumentação do meu post anterior: se o machismo é dominante e se os homens estão em franca maioria (e não me parece que apenas no cargos de chefia, depende das profissões, e por isso, teremos de, em seguida, passar ao problema das profissões «masculinas»), a pressão de competição entre os homens será maior, e talvez a injustiça, em termos relativos, quanto a nomeações por competência nos cargos de chefia, seja até maior no caso dos homens. Não vejo por isso qualquer relação entre a determinação de cotas para mulheres e o aumento da competência nos cargos de chefia - e este era o meu ponto. A obrigatoriedade de cotas para mulheres no topo das organizações pode, pelo contrário, demonstrar uma «falsa» inaptidão da mulher para cargos de chefia, ao recrutar num ambiente menos numeroso, mas muito adverso, e isso seria mortal para o argumento da competência e da meritocracia. Todavia - e agora as bombeiras começaram a rufar as caixas - isto não tem qualquer interesse para o argumento da paridade no direito da mulher obter um cargo de chefia, seja mais ou menos incompetente do que os seus colegas homens. 

Talvez o meu erro tenha sido argumentar sobre um assunto onde, concedo, a urgência de garantir a igualdade deve preceder considerações de ordem meritocrática, até porque as organizações, as empresas, os clubes de futebol, estão cheios de homens estúpidos e incompetentes. Nesse sentido, tenho o prazer de anunciar que concedo inteiramente este ponto. Talvez não seja o tempo de cobardes considerações teóricas sobre os equívocos da meritocracia em termos de selecção dos cargos de chefia (até porque em geral as pessoas escolhidas, i.e., os sobreviventes, serão, com toda a certeza, lamento, os piores de nós). Talvez seja, sim, o tempo de conceder a igualdade de acesso às mulheres no comando da sociedade. Quanto aos resultados, logo se vê.

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terça-feira, 28 de março de 2017

Na sociedade da informação, o mérito, seja homem ou mulher, é de quem conseguir terraplanar a complexidade com um sorriso nos lábios


Portanto, deixem-me ver se estou já devidamente embriagado ou não. A imposição (artificial) de um mínimo de representação de mulheres vai acabar com a escolha dos homens só por serem homens. A meu ver, invocando a teoria dos conjuntos e as pressões reprodutivas da selecção natural, a avaliação dos mecanismos de «escolha dos homens só por serem homens», no caso de uma suposta medição dos critérios e análise da eventual justiça meritocrática da escolha, teria sempre de lidar com quantidades relativas, como por exemplo o número de homens interessados em cargos políticos à partida, num estado inicial, e as escolhas efectivas, no ponto de chegada, introduzindo depois o elemento, e passo a citar, «natural», acerca dos géneros reproduzidos no ecossistema, avaliando então o sistema informal de cotas. Até se pode dar o caso de termos uma pressão muito superior nos concorrentes masculinos. Imaginem um cenário onde 10 000 homens tentaram ser políticos e apenas 100 conseguiram e 50 mulheres tentaram idêntico desiderato (uma palavra que ainda não tinha utilizado no meu tempo de vida) e apenas 5 mulheres conseguiram o cargo. Não é necessário ter recebido o nome de Isaac Newton para compreender que a pressão meritocrática, nesta hipótese académica, seria superior para os homens, apesar da inferioridade comparativa em termos absolutos. O que estaria aqui em causa não seria tanto o mecanismo de selecção mas a razão de existirem muito menos mulheres interessadas nos cargos políticos, o que não é a mesma coisa. Não sei se o estudo faz isto, não fui ler, não sou maluco. 

Na verdade, é absolutamente espectacular de um ponto de vista cosmológico que a Fernanda Câncio, sempre disposta a ter em conta os meandros infinitesimais do sofrimento humano, apareça aqui a defender que o mero estreitamento dos canais de acesso a um dado conjunto humano, seja por si só, uma garantia de justiça e paz no amplo conjunto dos interessados na vida eterna. Saúdo os mais recentemente convertidos ao capitalismo selvagem legitimados pela luta de género. Acho, contudo, extraordinário, a introdução da meritocracia (oleada pela mecânica dos fluídos) ao nível da sustentação dos direitos sociais legítimos. As cotas também podem (se os critérios de escolha dos homens forem simplesmente parvos) expulsar ainda mais homens competentes dos cargos políticos, e trazer as únicas cinco mulheres incompetentes para a representação política, Aliás, creio que esta é a hipótese mais provável, no actual cenário.

Estarei com isto a defender uma repugnante descriminação do sexo feminino? Não me parece. Avancem as cotas, e sem qualquer discussão sobre os critérios de selecção dos candidatos a cargos políticos em geral. Se escrevo este texto é apenas por embirração com a Fernanda Câncio (não por ser mulher, isso pelo contrário, até a favorece, peço desculpa, isto é sexismo, devia já passar ao insulto, mas nesse caso, seria acusado de sexismo, enfim, valha-me deus, estou confuso) e sobretudo indignação perante o tratamento leviano de um tão fundamental assunto. Platão já esgotou o tema com o seu diálogo Teeteto (não sei se etimologicamente o título está relacionado com tetas, mas parece-me que não). No fundo, Fernando Câncio, com a eficácia que a caracteriza, está aqui a recorrer a uma das mais bem remuneradas práticas da vida moderna: para resolver um problema, colocamos em prática um mecanismo, qualquer que seja a relação deste mecanismo com o problema. Se o mecanismo funcionar, aconteceu ciência, mesmo que o problema se tenha agravado e multiplicado por mil.

Novels are about other novels — and how they make us suffer

Felizmente, ainda há pessoas preocupadas com o nosso entretenimento. Saiu o novo livro da fabulosa Elif Batuman. Aqui.

O jihadismo está entre nós



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segunda-feira, 27 de março de 2017

Era no tempo em que os escritores ganhavam dinheiro

The editors of the Post agreed to the idea of a series, but suddenly there was a problem. Faulkner discovered that his plan would not work with just the three additional stories he had in mind. H e needed to provide a bridge; he had to use some of his material to get him from what he called "the War-Silver-Mule business"" to the Reconstruction. Then another problem developed. Graeme Lorimer, of the Post's editorial staff, would not offer as much for the series as Faulkner wanted. At this juncture the flirtation from Hollywood turned into a contract offer from Hawks: Universal Studios would hire him at $1,000 on a week-to-week basis. He may have been relieved to leave the stories for the time being, and he made plans to fly out.

terça-feira, 21 de março de 2017

Voltemos ainda, agora e sempre ao mesmo tema, a saber, trau

O vellhino, oi, joga o manuel Rentes de Carvalho tem sido motivo para reflexões ao nível das mais elementares instâncias, incluindo a excelentíssima senhora, Patrícia Construção do Vazio Reis, o que a todos nos deixa muito consideravelmente, a saber, perplexos. Não comungo da opinião daqueles que, dando o exemplo do sueco, dinarmaquês (ou norueguês) e cito de cor, Knut Hamson, se põem a falar da importância da obra por oposição à pessoa humana, e cito, do escritor. Bastaria por exemplo, pensar no caso único de um parvo como Luís Fernando de Celine Dion, talvez o único a quem se deve permitir ter sido um chapado filho da puta, por ter sido o incrivelmente autor do inacreditavelmente livro Viagem ao Fim da Noite. Mas estes acidentes cósmicos não acontecem, graças a deus, muitas vezes. Em geral, os parvos são apenas parvos, quer enquanto pessoas, quer enquanto escritores, quer enquanto parvos. É o caso de Rentes de Henrique Raposo de Carvalho.

Recentemente, o abominável homem das neves, António Lobotomia Antunes, veio muito eficazmente, palavra de honra, corrigir a péssima imagem deixada a propósito da obra do internacionalmente aclamado José é do caraças Saramago, e nisto, o senhor Antunes resolveu chamar ao cancro, uma puta (imagem a meu ver injustamente exagerada) e de caminho, acenou ao senhor Barata, explicando ainda a genealogia do seu génio (do senhor Antunes claro, do senhor Barata apenas sabemos que é tipógrafo, o resto não interessa) embora o referido senhor Antunes, nos tenha explicado o seu amor à sua obra, ainda por cima, como homem (coitado) martirizado por uma casa carente de elogios, governada por um pai, segundo homem a contar da direita do mais espectacular falhanço ao nível do prémio nobel, e por uma mãe, aparentemente pessoa capaz de exercer as mais violentas pressões ao nível do pagamento de cartas de condução. Ainda referiu, a dado momento, como o augusto autor, em hora felicíssima, optara por se dedicar à escrita, desobedecendo rebelmente à hierática e circunspecta autoridade dos pais, pois se ficara consignado apenas ao magro salário de um chefe de Serviço médico, então, isso sim, andaria agora a vender pensos rápidos nas pastelarias, o que deve ter enchido de comoção literária e remorsos luxuriantes, a seguramente muitíssimo bem paga senhora encarregue de limpar as casas de banho da Sociedade Portuguesa de Autores. Deste modo, o homem vocacionado a escritor, encontrou-se com a sua puta, perdão, o destino: a stand up comedy onde, me parece, teria alcançado fama, fortuna e a felicidade de uma obra à medida dos limites paradigmáticos das suas potenciais capacidades, ou seja, trau.

Muito se poderia dizer a propósito de reprodução social e comédia, a propósito de cartas de condução e literatura, a propósito de sentimentos de protesto e força na coluna para subir a um palanque e estar diante de uma plateia, sem nos rirmos, sem nos mijarmos, sem pedir desculpa por estarmos ali, transformados em forças vivas de uma terapêutica, aplicada aos mais ou menos pulmões destruídos de todos aqueles que, incapazes da referida e descomunal latosa, recusam deixar-se instrumentalizar pela secreta e indomável tendência para nos sagrarmos como agentes da salvação, oremos senhor. Na verdade, também o Rentes de joga o Manuel Carvalho  veio a público defender as suas ideias de escritor aclamado por efeito de livros por mim nunca lidos, nem hipoteticamente lidos, mas folheados, a saber, um neo-pós-realismo, ou para citar António Espectacular Guerreiro, um exercício provinciano e marroquino em hiper-literatura, nomeadamente, a ideia de que os marroquinos estão a roubar o dinheiro a velhinhos, talvez como o senhor Barata, mas em holandês, absorvendo os custos de uma Segurança Social, insuficiente para dar cumprimento a todos os sonhos certa vez sonhados pela República das Letras. Contudo, não lembra do professor doutor joga o Manuel Rentes de Carvalho como também os marroquinos a trabalhar na Holanda talvez ajudem a pagar os almoços dos infinitamente necessários professores de literatura portuguesa em Amesterdão, para não falar da, a saber, tão difundida ideia de que a cultura, perdão, a cultura (sic) joga o Manuel Cultura, é alguma coisa melhor e mais biologicamente necessária ao cultivo do espírito humano do que instalar soalho ao som de Quim Barreiros. Nem só de pão vive o homem, diremos, mas então, se não só de pão vive o homem, mas também de toda a hospitalidade concedida aos marroquinos, vamos lá a ser moderados no tratamento deste delicado assunto que a todos nos martiriza no actual momento.

Acontece isto porque o referido António Rentes jogo o Manuel Antunes de Carvalho insistiu em partilhar connosco as suas ideias para o futuro da Europa (e que belo futuro esse, sem marroquinos, nem transmontanos a quem talvez faltem os dentes), e sempre que os terapeutas da alma decidem partilhar as suas ideias hiper-realistas para o futuro da nossa vida em comum, mostram à saciedade como a literatura é feita, não só de pessoas inteiramente ignorantes das regras do fora-de jogo, como também de todos os bons sentimentos somados à passagem do tempo, somados à tiragem dos jornais, somados à situação específica da nossa ignorância. E isto é particularmente doloroso para todos aqueles que, como nós, não fazem puta de ideia sobre como melhorar o mundo em que vivemos, a não ser, dei-xar-mo (tracinho) nos de merdas e produzir a chamada (vírgula) literatura, incluindo nela a crítica estética (ou seja, a política mastigada) aquilo que nos sai do sangue (e sejam perdoados os nossos, perdão, pecados dada a pouca originalidade) a nós, sim, a nós, os poucos de merdosos, que, a saber, não consideram os sentimentos um material diferenciado da inteligência, e estão apostados em raspar a imaginação com uma espátula, após a necessária aplicação do devido decapante, a ver se caiem sentimentos feridos de inteligência, caso contrário, seremos convocados a conviver em almoços com amigos do elevado calibre de um José Sousa Jorge Tavares Letria de Carvalho, joga o Manuel, Antunes.

Almoços, pois, almoços. O que de modo algum pode ser visto como um caminho aceitável para quem apenas pretende menos espalhafato e mais entretenimento (e contas pagas) a saber, a inteligência sentimental como material plastificado, mas de altíssima qualidade, na medida em que, considerando a nossa particular situação num dado momento, talvez seja legítimo considerar que sempre poderia ser outra a nossa situação num outro diverso dado momento qualquer, e isto, meus amigos, não é relativismo, isto é socialismo democrático, ou seja, isto é o contrário da pessoa humana, no fundo, é ter a dolorosa consciência daquilo a que todos, e lamentavelmente, aspiramos, agora ainda e sempre (com mais ou menos talento) ou seja, sermos aclamados qual santinho imóvel e pacificado a luzir no altar do futuro.

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S. Sebastião a ser curado por Santa Irene, Niccolo Renieri, 1625.

sábado, 18 de março de 2017

Levantai hoje de novo o esplendor de Portugal


O negócio do luxo a nível mundial dará, alegadamente, para comprar um equipa de 10 000 (dez mil) Cristianos Ronaldos, e por isso, Portugal deve apostar no negócio do luxo, disse a simpática senhora representada à direita na imagem, e responsável pelos Cursos de Luxo no ISEG, rematando com uma imperturbável e solene invocação do hino: «Levantai hoje de novo o esplendor de Portugal». Parece inventado, mas não é, acabou de acontecer, num programa intitulado A Cidade na Ponta dos Dedos, mais uma referência no mínimo dúbia, o que demonstra um conhecimento muito consolidado das subtilezas do mestre Quim Barreiros. Na verdade, podemos repetir: quem está disposto a levantar o esplendor de Portugal? Eu, considerando a espectacular realidade em que vivemos, e com muita pena minha, sinto-me um pouco cansado. Mas fica o apelo.

sexta-feira, 10 de março de 2017

A Pequena Europa e a grande chatice


Não sei se temos considerado devidamente a relação entre os «planos inclinados» e a «palavra como instrumento do pensamento». No meu caso, nutro um considerável interesse pela palavra como suspensão do pensamento ou mesmo como veículo das intenções mais baixas do instinto humano, ó maravilha fatal da nossa idade, a saber, a divinização de tudo quanto é humano, para citar Philip K. Dick, não foi o homem a matar deus, foi deus quem engoliu o homem, e isso tem sido um vasto problema, estamos todos cheios de ambições desmedidas, no fundo, não temos trabalhado bem o jogo interior, nem a reacção à perda, e isto vai de goleada em goleada.

Vamos lá ver se nos entendemos: a chamada recriação, nomeadamente, do porco preto, será também ela (a recriação do porco preto) subsidiária do pensamento? E quanto à cultura do pastel de bacalhau? Este exemplo foi dado por Lobo Antunes, numa entrevista relativamente recente, e parece-me um notável sintoma de hipocrisia intelectual, pois nunca vi a cultura do pastel de bacalhau devidamente tratada nas obras de Lobo Antunes, e o tanto que teríamos todos a ganhar com isso. Na verdade, se eu for andar de carrocel e tentar em simultâneo resolver umas palavras cruzadas, estamos diante de um exercício de recriação ou de um instrumento do pensamento?

Pergunta: onde pretende o senhor doutor autor da supracitada peça crítica, traçar a linha divisória entre pensamento e recriação? Paradoxalmente, os críticos literários, talvez por visitarem muitas vezes exposições de arte contemporânea, mantêm, regra geral, uma atribulada relação com a clareza do raciocínio, não gostam do lúdico, nem do entretenimento, nem do prazer da chalaça e do chavascal imagético, no fundo, são filhos do modernismo (essa adolescência tardia da civilização), não esqueçamos a carrada de horas passadas pelo pobre James Joyce entre melancólicos padres.

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Este assunto é tratado de um ponto de vista radical, num filme italiano da autoria de Tinto Brass, curiosamente, transmitido pela Correio da Manhã TV, numa madrugada destas. Com a excelente Anna Alexandrovna Jimskaya, nascida no Uzbequistão, de mãe ucraniana e padre russo, uma acrobata com experiência do circo, fabulosa atleta, praticante de ginástica artística e exímia bailarina clássica, o filme é uma reflexão sobre o mundo editorial, o desejo e as diferenças entre arte superior e chavascal. Vamos ver algumas imagens.

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Neste filme, a bela protagonista, fantasia eroticamente com uma relação adúltera, pois o marido (um editor) parece desinteressado de uma cabal utilização de todas as possibilidades do corpo feminino, isto sem ponta de exploração ou violência, mas numa verdadeira e cabal análise do prazer físico humano, amen. Com o pito a arder (peço desculpa mas a expressão artística não é minha) a bela protagonista trava conhecimento com um artista francês que a certa altura confronta o prazer oferecido pela leitura de vários autores, Byron incluído, e a posse, ainda que precária e breve, das excelsas ancas e das volumosas e firmes nádegas da bela protagonista, que vai coligindo todos os seus secretos raciocínios num livro, considerado pelo seu marido, e já perto do final do filme, como um obra-prima de erotismo. Dirão os mais conservadores: para certos homens, a mulher é apenas um objecto de prazer. Sim, é uma questão que nos inquieta, admitamos. A nós e a Homero, essa instituição colectiva, segundo a qual, a posse (repitamos, a posse) de uma mulher, leva os mais abrutalhados guerreiros do mundo antigo a mergulharem num arraial de porrada e assassínio, para resgatar a bela Helena. Isto é literatura masculina, por certo, e não estarei a ironizar quando antevejo um problema complicado, no momento em que o professor Eduardo Pitta considera que os melhores romances das últimas décadas tenham sido escritos por mulheres, dando o fabuloso exemplo da sua colega de trabalho, a vice-directora da Revista Sábado (onde, creio, escreve o professor doutor engenheiro Eduardo Pitta) de seu nome, Dulce Garcia, uma pessoa para quem Julian Barnes e Ian MacEwan são os modelos a seguir: o sagrado coração de Maria nos proteja, a julgar por este trailer, o livro deve ser um prodígio da profundidade literária, um hino à inteligência humana.

Ora, arrisco dizer, estamos aqui diante do principal problema literário de todos os tempos: atingimos a felicidade pelo chavascal ou pela ascese? E pensará a mulher da mesma maneira ou prepara, na sombra, uma revolução capaz de separar de uma vez por todas chavascal e ascese, negando aos homens a relação atribulada com o corpo feminino? Meus amigos, não será esta uma falsa questão? Creio que estamos, homem e mulher (e todas as variáveis possíveis a partir deste modelo binário) unidos na mesma luta: como intensificar o prazer sem destruir a fonte do prazer e sem nos destruirmos?

Do meu ponto de vista, e ao contrário do preconceito, não há qualquer divisão entre os sonhos de fusão sexual, voluptuosidade matrona e o triunfo intelectual da mulher. Curiosamente, as mulheres (devido ao alto valor conferido pelo desejo masculino ao prazer sexual) parecem ser as principais promotoras desta divisão, fazendo pagar bem caro a posse da beleza (loira burra) e ameaçando com o ostracismo social toda a mulher, apostada em baixar o preço do relacionamento sexual, o que é antes demais, uma tremenda castração da mulher como sujeito do desejo, e isso é justamente o que o filme de Tino Brass põe em causa, ainda que a condição fisiológica da mulher, considerada em geral submissa (como anatomicamente penetrada) seja um problema difícil de ultrapassar e tenda  a inquinar uma parte do debate. Diria, com a coragem que me assiste, que os homessexuais têm uma palavra a desempenhar na história sexual da humanidade, expondo como o ser penetrado (uma razão de opróbrio para a cultura romana e latina) em nada devia beliscar a dignidade das pessoas.

Na verdade, basta ler os comentários sobre as mulheres participantes na Casa dos Segredos ou das mulheres envolvidas na indústria da pornografia para se ter uma ideia deste problema, como se vender o corpo diante de uma câmara fosse assim tão diferente de vender a inteligência ao comércio da literatura e da reputação artística, ou da santidade religiosa. Custa-me sobretudo que Jesus Cristo tenha visto claramente visto este problema («comem comigo pecadores e publicanos») mas as pessoas em geral insistam em não ver.

No fundo, o problema da raiva contra o entretenimento, é um sub-problema da nossa relação com o prazer físico, ou seja, da nossa relação com os limites do nosso corpo. Não quero ressuscitar o cadáver de Freud, mas o facto deste velho austríaco e devasso se ter enganado em muita coisa, não significa que não tenha olhado para o fundo do abismo. Aliás, foi por ter olhado, sem medo, para o fundo do abismo que falhou redondamente e motivou o ódio generalizado, foi por nos ter assustado que hoje tão facilmente cuspimos no seu maravilhoso delírio.

Quanto a mim, e considerando as coisas de um certo ponto de vista, digamos, rebarbado, a recriação, o lúdico, o entretenimento, são conceitos a que falta uma historiografia do uso mediático e literário. Posso jogar xadrez, é certo, e com isso estaria a usar o pensamento, mas também posso recriar-me observando a Casa dos Segredos, e aí posso usar o pensamento mas também outro tipo de complexos físico-neurológicos. Na verdade, este assunto continua a ser embrulhado em celofane e distribuído como brinde avulso em jeremiadas produzidas por uma grande parte das pessoas da Cultura, sempre muito amiguinhas dos desgraçados, e veja-se o mais recente filme São Jorge, mas também sempre prontas a considerarem o seu gosto como um modelo da excelência universal. Pergunto: qual a diferença substancial entre o pensamento utilizado para tocar uma Sonata de Mozart ou aturar a Teresa de Guilherme, respondendo a perguntas comportamentais, durante meia hora? Claro que o problema está sobretudo naquilo a que chamamos educação, hábito, mecanismos de reputação, e não tanto no grau ou na intensidade da inteligência ou do pensamento. Não negamos contudo os continentes de distância em termos de horas de treino e automatismo acumulado na infância (para os quais é imperioso guito e estatuto), para não falar do custo de um piano em casa, o que desde logo nos remete para uma economia das funções intelectuais, tema que não tem merecido o interesse dos vanguardistas dos nossos dias (talvez exceptuando o chatíssimo e péssimo escritor Bordieu) e sabemos bem porquê. #poesia

Voltemos portanto ao assunto que aqui nos trouxe, um livro escrito por uma mulher educadíssima e espectacularmente inteligente.

A própria disposição textual do romance engendra um sistema respiratório do romance em que manchas textuais distintas correspondem a diferentes intensidades e sentidos. 

Isto poderia ser dito sobre o romance, o facebook, a lista telefónica, as legendas informativas do telejornal, os letreiros e montras de um Centro Comercial ou o teleponto da Cristina Ferreira. Peço ao estimado leitor para fixar esta curiosa semelhança entre o romance considerado vanguardista e o tipo de comunicação comercial do mundo contemporâneo, que parece contaminar toda a literatura dita de ruptura. Na verdade, a suposta ruptura, imposta pelo «fluxo de consciência» não é mais do que a consagração dos meios de comunicação de massas (jornais, rádio, televisão e agora facebook e twitter) em termos literários, de forma mais ou menos irónica, e basta, como exemplo, invocar a enorme preponderância da estrutura das notícias impressas em folha de jornal no Ulisses de James Joyce.

Com efeito, confesso estar perdido acerca do que pretende o crítico assinalar neste novo e desorientado livro de Mafalda Ivo Cruz. Mas temo ser aqui forçado a informar o referido crítico e a romancista, acerca de uma velha e recorrente problemática da arte narrativa: dizer qualquer coisa de relevante e original, com estilo, elegância e profundidade, é muito difícil, é quase um acidente estatístico, e depende de muitas coisas para além da vontade do autor. Ou seja, é preciso muito mais do que um ambiente propício e interesse literário. É necessário termos sido agraciados com uma espanholada das deusas, ou um minete dos deuses (para não sermos acusados de descriminação) mas aviso desde já como as deusas e os deuses são muito selectivos naqueles a quem conferem espanholadas e minetes. Ou seja, aos promotores da ideia da necessidade de excelência quanto aos leitores e à palavra como instrumento de pensamento, esquece tantas vezes que, pelos mesmos padrões de exigência, 99% dos escritores considerados como dotados de qualidade literária, não passam de pedantes desajeitados, com amizades seguras em pontos estratégicos da nossa cidade. Exemplo:

Nesse aspecto, importa que Schönberg compareça em Pequena Europa na sua dupla condição de compositor e pintor. Não só porque essa condição dual o torna menos linear e, portanto, mais frutífero para este romance de formação elíptica, espiralar, à maneira de Sebald, mas também porque a arte, no geral, desempenha um papel fulcral em Pequena Europa.

Em crítica admite-se tudo, menos o facto dos críticos não terem lido os livros. Ver neste livro Pequena Europa qualquer semelhança com Sebald é digno de uma arbitragem de José Pratas. Sebald tem um domínio narrativo, sequencial, e convencionalmente respeitador da paciência dos leitores, que em nada se pode comparar com o livro em apreço. A comparação com Sebald, portanto, só pode ser apontada por quem nada compreendeu dos textos de Sebald, onde a sensação de vertigem é dada pela deambulação interior da personagem, e não pela deambulação da linguagem do narrador, e é nesta tensão que está o génio de Sebald, o que vem na melhor tradição germânica. Como mostrar o absurdo e a loucura do mundo, virando o convencionalismo, a disciplina e a ordem (fontes de autoridade artificial) contra si mesmas, sempre respeitando a mais burocrática das subserviências perante a gramática e até um certo conservadorismo formal da linguagem. Isto, naturalmente, provoca tonturas. No fundo, se há coisa segura, sistematicamente cadenciada, quase proporcionalmente maquinal, de tão constante, na sua frieza recolectora, é a linha narrativa de Sebald. Nem sequer o parágrafo longo pode ser confundido com qualquer tipo de confusão permanente. Uma elipse não é uma espiral. Tal como a revienga de Zidane não é a revienga de Bruno Caires (e por isso, não há vídeos). O desajustamento entre as ideias da personagem, um homem perdido e deslocado do mundo, e o registo rigoroso, ordenado, até meticuloso da narrativa, é precisamente o grande feito daquele autor alemão. Por alguma coisa, Sebald eliminou as notas de rodapé dos seus livros, e como grande artista, percebeu rapidamente o estrondoso ruído provocado por qualquer acumulação pedante e deslocada de notas de rodapé, e tratou de conferir ao todo o livro a simetria e proporção. Exactamente ao contrário deste A Pequena Europa, onde a autora julga até pertinente informar-nos sobre os excertos onde a tradução é da sua autoria.


Sim, devemos todos perguntar: não começarão as tiranias pela publicação de romances estandardizados? Não começarão as tiranias pela leitura da revista Maria? Por certo, o gelado Calippo tem o seu papel na instauração dos regimes totalitários. Mas o que é um romance standardizado, professora doutora Mafalda Ivo Cruz? É um romance rapidamente publicitado e aclamado nas páginas de um dos jornais outrora mais vendidos em Portugal, sem isso corresponder a qualquer interesse público?

Da mesma forma, pergunto: o que é uma arquitectura previsível? Quando Julieta está prestes a ingerir o veneno, numa standardizada sequência, ou seja, numa sequência muito bem contada, sabe a professora doutora se a belíssima Julieta irá ter sucesso no seu encontro com o bem amado Romeu? E quando Julieta, diante da ilusão do seu amado morto, por uma falha de sequência no plano idealizado, decide interromper a vida, o que nos diz o percurso do veneno no seu corpo acerca da linearidade do tempo narrativo?

Com efeito, tenho uma outra explicação para esta tão popular recusa da linearidade: é mais difícil esconder o facto de não termos nada para dizer quando nos dispomos a falar claramente. Será um crime não ter nada para dizer? Não. Mas isso, de uma forma ou de outra, acaba sempre por notar-se, e de que maneira.

A narração revisita acções e atitudes, movimentações e características, como se estas fossem fantasmas que perseguissem a própria possibilidade de narrar, questionando, obsessivamente, “Como é ainda possível ficcionar, como contar?” (num paralelo irresistível com os loucos ou alegados loucos que povoam o romance) Porque Pequena Europa é muito mais um romance que pergunta do que afirma. Duvida mais do que acredita. Descrê da capacidade afirmativa e, sobretudo, lúdica do literário.

Se há coisa que me interessa na sociologia da literatura contemporânea, é esta embirração com a possibilidade do ficcionar e do contar e o lúdico no literário. Mas desde quando foi fácil contar? Só o olímpico desconhecimento da história da literatura considera ter existido um tempo onde era fácil contar. Que tenham existido pessoas com facilidade em contar ou escritores com uma prodigiosa capacidade de narrar, não significa que a sua eficácia lhes tenha sido oferecida de mão beijada. Quantas horas de conversa, quantos manuscritos lançados ao lixo. Mas não vieram para os jornais lamentar as suas limitações, pois a dificuldade do narrar é, no fundo, a dificuldade em legitimar o projecto literário, ou seja, é o centro explosivo do que faz de uma pessoa alguém consagrado pelo tempo e a comunidade como um escritor. Pois é, caríssimos leitores, menos choradeira e mais paciência. a fama perene, como bem sabiam os antigos, implica o risco da própria vida.

Muitos anos depois do pobre Walter Benjamim ter escrito, numa introdução a Leskov, umas páginas confusas (mas apesar de tudo pertinentes), acerca do declínio do narrador no mundo industrial, este autor que vos fala quer dizer como tantas vezes ouviu velhas analfabetas manejar com invejável arte todos os segredos da narrativa. A complexidade do enredo, a densidade das personagens, as suspensões e acelerações, as divagações sobre o saber técnico (e lembro as páginas admiráveis de Italo Calvino sobre a técnica de marinhagem nas fábulas populares italianas) as famigeradas quebras de linearidade, a diversidade dos pontos de vista, e até a torrente e o fluxo da consciência, tudo isso é familiar a muita gente absolutamente desconhecida, anónima, analfabeta, entretanto morta e enterrada e perdida para sempre. Creio que três elementos alimentavam essa magistral arte de contar, em risco de perder-se diante do pedantismo da literatura impressa: a alegria e o prazer da voz entoada, aquilo a que Ariosto chamava o «canto»; o amor pela fragilidade humana e a consciência das limitações da razão e do discurso, que tantas vezes vi, em criança, de olhos esbugalhados diante dessas velhas sábias, magoadas e dotadas de uma coragem física e moral intransponível; e por último, e apesar de tudo, o profundo amor pela vida e o sentido de utilidade da comunicação humana e do contar aos outros, mesmo diante de todo o mal, mesmo diante de todos os perigos e desastres, ou se quiserem, sobretudo, perante todos os perigos e os desastres, a começar pela dificuldade em ganhar o pão de cada dia.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Um dos mais impressionantes inícios da literatura do século XX recusado por todas as editoras

I am made out of water. You wouldn't know it, because I have it bound in. My friends are made out of water, too. All of them. The problem for us is that not only do we have to walk around without being absorbed by the ground but we also have to earn our livings.

Actually there's even a greater problem. We don't feel at home anywhere we go. Why is that?

The answer is World War Two.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Convosco, Dorsa Derakhshani, uma personagem imortal, criada por Roberto Bolaño








sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Kumbaya, my lord, Kumbaya

Vamos hoje abordar um problema, digamos, delicado. Esta recente e muito interessante entrevista serve de mote à consideração, pela enésima vez, de um tremendo e muito generalizado equívoco, a saber, as famigeradas ambições de um criticismo legítimo, aprendido na Academia, por oposição ao criticismo do mercado, ou seja, falamos da injusta, sumária e superficial condenação (enquanto sedes de juízo estético) da gaja boa ou do troglodita que por acidente, e porque lhes apetece, decidem comprar um livro para passar o tempo, sobretudo, quando são muitos (gajas boas e trogloditas) a comprar livros, não nos esqueçamos das nossas raízes democráticas, amen. Não quero com isto dizer que a invisibilidade da mão, manipulada por muita mamalhuda e por muito avantajado, represente, por si só, uma consagração automática do valor literário. Longe de mim defender, com uma venda nos olhos, essas robinsonadas dos economistas austríacos. Mas quero com isto dizer, se me é permitido, que não devia fazer-nos comichão o facto de existir uma, e passo a citar, literatura de mercado, ou seja, literatura light (sem as típicas gorduras dos aparelhos ideológicos de Estado, o que me parece uma elogiosa definição) ou nesse caso, teríamos de sentir a mesma coceira pelo facto de alguém vender a aprendizagem, a oficina, o treino, o segredo, a janela de oportunidade, aos pobres esperançosos apostados em fugir da tenaz do lucro e em não cair (ó clemência, ó piedade) no caldeirão infernal da famigerada literatura de mercado, benza-os deus.


Não teria resumido melhor o equívoco. Ou seja, o diabo veio de tenaz em punho e acabou com o tempo onde reinava uma tranquila tradição especificamente literária, que aliás, em Portugal, produziu toneladas de génios literários, é consultar a nossa glorioso história. Tirando Camilo e Eça (produzidos em grande medida pelo mercado) e excepção feita a Fernando Pessoa (que limpou o rabinho com a tradição especificamente literária) qual o escritor digno de registo produzido pela tradição especificamente literária? Herberto Trau Hélder? Quem? O gajo que não aparecia para melhor valorizar o produto? Almeida o Professor Faria? O José Estúdios Cor Saramago foi produzido fora do mercado? Lobo Antunes (com os seus 750 livros e as suas 3500 crónicas) não será uma espectacular produção do mercado especificamente literário? O Luiz arranja aí vinte paus Pacheco? Pensem nisto durante o Braga-Benfica.


Portanto, que seja o público, juntamente com esse grande escultor e adepto das touradas, o tempo, a seleccionar o valor literário entre o descomunal número de livros, é o grande pecado da literatura de mercado. É portanto preferível que seja o amigo, de um amigo, de um primo, de um amigo, a fazer a selecção, ainda em estado de manuscrito, e por critérios especificamente literários, e com o risco dos custos de impressão assegurados pelo Orçamento de Estado (ou por um primo na administração Gulbenkian) escolhendo quem são os legítimos operários (plástica e inventivamente) da língua portuguesa, paga aí a minha tosta mista. Claro que só podia ser um nicho, um nichozinho, um pequerrucho nichozinho, de mãos dadas com os leitores (sem contaminações comerciais) num Kumbaya autêntico, familiar, um verdadeiro policiamento de proximidade ao escritor. Portanto, não lembra às pessoas espectaculares da tradição especificamente literária que esta tradição especificamente literária, tão próxima, tão familiar e tão autêntica, devido, precisamente, à limitação da sua proximidade e âmbito familiar, seja o mais directo caminho para um provincianismo estético e literário, sacrificando (se não existisse literatura de mercado) centenas e centenas de autores com potencial.

Além disso, pergunto: quem é o escritor que se preze, interessado em conhecer os seus leitores? Para isso, não publicava livros, nem imprimia esse meio de comunicação à distância, o livro. Candidatava-se a uma vida pastoral no Seminário (por sinal, uma palavra nascida nas entranhas da Universidade, está tudo bem).

Neste modelo familiar, autêntico, próximo, terão de ser poucos a aceder a tão secretos e misteriosos critérios estéticos (até porque neste modelo de literatura, as cunhas financeiras não chegam para todos, claro está). Por certo, nos dirão que estes poucos são poucos também por selecção natural de robustez - ah, a tradição especificamente literária - ou por grandeza da massa cinzenta, ou por abnegação filosófica e altruísmo moral, terão de ser poucos esses que, não vivendo da literatura (o dinheiro ganho com os livros tem peçonha) ganham a vida com outras actividades, nomeadamente, ensinado as especificidades da literatura, para, com efeito, poderem dedicar-se a torcer plástica e inventivamente a língua portuguesa. Kumbaya, my Lord,Kumbaya.

Acontece que, e em verdade vos digo, se a língua é considerada portuguesa, é porque, com efeito, uma comunidade chamada Portugal, cuja complexidade histórica vai da centralização manuelina (trau) passando pela degeneração católico-monárquica (oleada por um latinismo fedorento e tardio) até ao falhanço republicano em generalizar a leitura e os livros (que deu origem a essa miséria moral, política e pirotécnica, chamada Estado Novo) se foi construindo segundo critérios que não são meus, nem são teus, mas nossos. É com a língua portuguesa que todos havemos de lamber o cu do destino, mas daí a definir previamente quais a lambidelas mais inventivamente plásticas (que nem sempre são as mais capazes de suscitar prazer ou introspecção) vai uma distância do tamanho das pernas de D. Afonso Henriques.

Ora, a consciência das merdas em geral, devia tornar deveras complicado definir, excluídos os aparelhos ideológicos do ensino da literatura portuguesa, o que é ou deixa de ser uma invenção plástica da língua, quanto muito, podemos definir um projecto pessoal de invenção estética de uma dada língua (que a literatura de mercado, se deus quiser, irá submeter dinamicamente ao juízo da mamalhuda e do avantajado, pois que, no mercado, há lugar para todos), isto se o escritor tiver engenho para tanto, pois para mim, a inventividade plástica pode estar mais em reproduzir a técnica de Ovídeo, ou em glosar o calão de Margarida Rebelo Pinto, do que na mundividência estético-mental da procissão de gurus, adestrados na tradição especificamente literária, que fazem parte, nomeadamente, da instituição, legitimamente promovida, na referida entrevista. E não é certo que a mamalhuda, bendito seja o deus da criação, não prefira Ovídeo ou Shakespeare, ou se quisermos, Sebald - para dizer um nome contemporâneo - à tradição especificamente literária da inventividade plástica da língua portuguesa. E quanto ganhou Shakespeare, submetendo ao mercado a tradição especificamente literária, utilizando para tal a tenaz do lucro? As pessoas precisam de suar um bocadinho mais, se pretendem construir um sistema de legitimação da supremacia da tradição especificamente literária sobre a literatura de mercado. Não basta cantar o Kumbaya.

Em todo o caso, quero deixar bem claro: não condeno, nunca condenei, nunca condenarei, quem pretenda ganhar a vida ensinando a tradição especificamente literária, mas é de mau tom lançar do alto anátemas contra a tenaz do lucro, só porque, aparentemente, algumas pessoas não preenchem os critérios estéticos preconfigurados numa alegada tradição especificamente literária. Aliás, é curioso como a legitimidade estética negada à literatura de mercado, se revela adequada ao ensino da escrita criativa, através de um disparatado e pseudo-científico discurso em torno do conceito de optimização (aplausos) e de técnica de expressão (risos). Permitam-nos uma citação longa, mas o interlocutor, justiça lhe seja feita, é estimulante.



Portanto, se andássemos todos aqui a dormir, não notaríamos que ensinar a moldar uma plasticina requer um conjunto de critérios para diferenciar (esteticamente) os diferentes actos de moldagem dessa plasticina, caso contrário, uma criança de três anos também poderia ministrar o curso. Mas esses critérios não são revelados, a não ser por cada um dos formadores, e após pagamento da inscrição (aplausos), e segundo a subjectividade da experiência dos formadores, o que pouco aproveitará ao aprendiz (digo eu), e desde logo, reproduz a supremacia do mestre sobre o aluno, ou seja, a Universidade é um vírus muito eficaz a parasitar a actividade criativa, aparecendo agora sob novas, mais obscuras e mais decadentes roupagens. Claro que nenhum dos escritores formadores expõe publicamente esses critérios, não só por razões comerciais (prefere vender os segredos de oficina à porta fechada e em fascículos), mas também porque não faz a mais pequena ideia do que seja um critério universal em literatura, e teria de confessar a figura triste que anda a fazer, tão pobre de razões metafísicas (e tão eficazmente pragmático) é hoje o travejamento estético de um escritor.

Não lamentamos, contudo, nada nesta situação. Tudo isto é mercado, tudo isto é legítimo, tudo isto é impulse, mas por isso, recomendamos menos moralização da literatura ligth. Por outro lado, optimizar ferramentas de expressão implica uma economia estética e uma escala de desperdício, o que implica uma retórica universal das ferramentas literárias, o que só pode provocar o riso.  A optimização da ferramenta narrativa utilizada por Marcel Proust (salvo seja) é um desperdício em Italo Calvino e o processamento da expressão em Faulkner é uma cacofonia aberrante, à luz dos processos em Marguerite Yorcenar. Entretanto, paga aí a tosta mista. O que é legítimo, desde que não impliquem com a minha vontade de comer morcela ou hambúrgueres americanos a transbordar de gorduras saturadas.


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

A azia da influência: António Lobo Antunes e a dolorosa consciência da sua própria irrelevância

«Até Tolstoi é uma sombra insignificante, se for passear com Anna Karénnina».
Elena Ferrante, Escombros


Concordo em geral com o comentário aqui deixado, pelo nosso estimado leitor, Gerónimo Cão, à mais recente polémica literária, embora, no meu caso, dispensasse também as entrevistas dos últimos vinte anos, juntamente com os últimos vinte livros de António Lobo Antunes (daqui em diante, e até que a morte nos separe ALA). Arrisco dizer, a partir de Fado Alexandrino, entramos numa dolorosa e dorida repetição. Na verdade, estamos diante de um caso típico. Um escritor talentoso, abençoado pelo nascimento, a educação, e as condições materiais, um moiro de trabalho e um gigante na determinação, acaba por revelar-se incapaz de produzir uma obra à medida das suas ambições. Se quisermos resumir tudo numa frase jornalística, estamos perante um caso clássico de azia da influência.

Não queremos com isto colar à obra de ALA o rótulo de falta de interesse, o problema é a medida dos espaços intergalácticos sonhados pelo escritor, e o resultado do confronto entre esse sonho de infância e a qualidade/alcance da obra publicada. Por muito que se repitam os insultos a vultos das letras portuguesas (vultos esses que devem aparecer no silêncio da noite a ALA tanto maiores quanto mais a sua própria figura literária se vê reduzida com o passar dos anos) e por muito que se proclame o «consenso dos Steiners e dos Blooms» (no fundo, e para todos os efeitos de imortalidade, apenas dois velhinhos com livros tendencialmente irrelevantes) ALA entrou há muito num processo de sportinguização (peço desculpa a toda a gente) perante a realidade.

Comparações com Céline? Como responsabilidade política, é um disparate. ALA pode insultar todos os dias Camões e mijar para cima do busto de Almeida Garrett, nada disso se assemelha ao colaboracionismo nazi. Como medida do talento literário, um disparate ainda maior, pois ALA não chegou nunca a arranhar nem a originalidade temática e estilística, nem a dimensão artística do referido escritor francês. O crítico Alberto Velho Nogueira interroga-se sobre que tipo de culpa justificará esta raiva perante José Saramago. Tenho uma hipótese: ALA, como autor inteligente e muito culto do ponto de vista literário, terá uma vaga consciência do seu falhanço e de como a sua obra, sendo interessante, não é a magia que Cesarynamente procurava.

Proponho um teste simples: digam-me uma, digam-me só uma, uma personagem memorável criada por ALA. Podemos trabalhar a linguagem no torno, podemos torcer o frasear, fazer do hiperbato e da hiperbole os bombardeiros das nossas intenções narrativas, podemos desmontar peça a peça toda a gramática, triturar a acção, cortar em pedacinhos o narrador, isso de modo algum colide com o derradeiro teste de toda a potência literária: a criação de uma realidade, claramente definida num destino narrativo, mais intensa e duradoura que o próprio autor. Não existe, aliás, numa obra conseguida, qualquer contradição entre inovação (e até provocação) estilística e a energia revelada pelos personagens, antes pelo contrário.

Se tomarmos o caso de Ulisses (exemplo clássico de constante terrorismo perante as convenções narrativas) temos, nada mais, nada menos do que três personagens memoráveis: Leopold Bloom, Stephen Dedalus e Molly Bloom, a quem o primeiro terá beijado, legitimamente, as nádegas. Ora, no caso de ALA não sobra nada a não ser uma indefinida cacofonia emocional multiplicada infinitamente pelas infinitas hipóteses de infelicidade do destino humano, personagens a que não chegamos sequer a fixar os nomes, de tal forma são meras convenções, escravizadas pelos ais e uis do tom narrativo, que a certa altura, nos começa a parecer sempre a mesma pessoa, ou seja, um escritor de livros sem outro interesse a não ser a sua própria glória literária (isto topa-se ao longe). Todavia, o projecto até seria razoavelmente interessante, se não tivesse sido feito centenas de vezes. ALA tentou uma mistura entre o anonimato Tchékoviano (com a sua galáxia de impressivas e breves tragédias quotidianas) e a interioridade de Joyce (com a sua torrencial transferência do sofrimento interior submergindo o eixo da narrativa) mas não produziu nada de verdadeiramente novo, a não ser um fluxo de interminável comentário a outros escritores maiores. ALA é um caso de evidente derrota às mãos de gigantes passados.

Há sempre grande escândalo quando se procura enquadrar, com alguma severidade, autores tão amplamente consagrados como ALA. Neste aspecto, o próprio ALA oferece um glorioso paradoxo, qualificando a obra de Saramago como «uma merda». No fundo, está a chamar (mesmo que involuntariamente) a atenção para o carácter precário e subjectivo de toda a obra literária. Faz bem, só é pena não lhe conhecermos o raciocínio crítico, e nisto reside a sua maior fragilidade e a clara denúncia do carácter angustiado da sua imitativa obra. Quanto a prémios e traduções, apenas um exemplo: sabiam que Luís Sttau Monteiro, durante os anos sessenta, era traduzido no impenetrável mercado dos EUA, e com muito favorável crítica no New York Times? Moral da história: calma, muita calma.

Com efeito, James Joyce tem sido uma espécie de Segurança Social para uma infinidade de escritores com razoável talento mas sem a força criativa (muito rara, diga-se) suficiente para virar o curso da historiografia literária do Ocidente. De Virginia Woolf a William Faulkner, passando por Beckett, ALA é só mais uma triste derivação na atormentada história das desesperadas tentativas para superar as muitas linhas de raciocínio literário abertas pelo mais famoso zarolho irlandês. ALA tem a seu favor, e devia recordar-se disso (o que certamente aliviaria o fardo) o facto de ser extremamente difícil produzir qualquer coisa de novo e duradouro em termos literários, ao contrário do que parece proclamado todas as semanas nos comunicados oficiais dos prémios. O que não significa qualquer elitismo da nossa parte, antes pelo contrário. Como tenho insistido aqui, a luta continua, e a primeira e mais duradoura regra da evolução literária, pode ser resumida no famoso aforismo evangélico: muitos são os chamados mas poucos os escolhidos.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Gentil Senhora Ferrante, estarei apaixonado por si?

Nem sempre é fácil resumir cabalmente o papel desempenhado por este blog. A crítica raramente pode ser excessiva ou injusta, pois quanto aos escritores de escasso talento, consagrados pelo afecto pessoal, a Academia e o mandarinato, sempre insidiosos e manipuladores, a enviar likes e beijinhos a figuras destacadas do meio literário (e falo de casos reais), será sempre difícil neutralizar a sua estratégia medonha em tempo útil, e muito menos nos anima qualquer espírito inquisidor. Tenham muitas felicidades, convençam os júris formados por cinco velhinhos/as e um galã literário, e alcancem todos os prémios possíveis, mas não nos peçam para apoiar (e silenciar) a venda a céu aberto de gatinho rafeiro estufado, nas vezes da lebre de coentrada.

Quanto aos escritores, aqueles a quem justamente podemos qualificar como tal, esses terão sempre a última palavra, sem precisarem de mais do que a página do livro, e triunfarão sobre a inveja, a maldade, a sobranceria ou a severidade das apreciações. Por isso, nem um ano passado sobre um azedo tratamento do seu anonimato, sou forçado a partilhar o momento em que a gentil senhora Elena Ferrante (Escombros, p. 40) me agarrou pelos testículos e me obrigou a ajoelhar, para grande prazer da minha inteligência, aliás, sempre pronta a declarar-se derrotada, se para tal existem razões e méritos literários.

«A pergunta é a seguinte: porque é que, apesar de ter lido o meu livro há um ano, apesar de o ter apreciado como diz, concretizou a ideia de entrar em contacto comigo só agora, depois de ter sabido que vai ser feito um filme baseado em Um Estranho Amor?
Se tivéssemos, não digo de fazer uma entrevista, mas de ter uma conversa amigável, eu discutiria consigo sobretudo as razões para ter levado tanto tempo, partindo por exemplo de uma observação sua. Escreve você, mas menos brutalmente do que eu resumo: o seu livro diz-me alguma coisa mas o seu nome não me diz nada. Pergunta: se o meu livro não lhe tivesse dito nada e o meu nome lhe tivesse dito alguma coisa, teria levado menos tempo a pedir-me uma entrevista?»

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Shakira e Literatura: alguns aspectos


António pessoa ungida pela sagacidade Guerreiro in Público

As mães do Pedro Nunes nunca terão lido Breton e Robbe-Grillet (dois gajos que não chegaram a ver a França campeã do mundo) mas daí até as mães do Pedro Nunes (como entidade institucional) desconhecerem as contradições implícitas no admirável e litúrgico mundo do pinanço em espetacularidade, vai uma distância do tamanho que for mais adequado à satisfação de cada um. Ou seja, o senhor general e almirante António Guerreiro, no seu confuso texto, comete um erro típico, várias vezes aqui aludido (e também por nós praticado, pois gostamos de meter a mão no prato com pecadores e publicanos) isto é, toma a realidade pelas coisas lidas nos livros, uma cena que já alegadamente motivou a má fama do Quixote.

Isto não significa privilegiar a experiência em relação à teoria (deixámo-nos disso desde que o António Veloso falhou um penalti em Estugarda) mas apenas reconhecer o gigantismo da nossa ignorância sobre a realidade, dada a amplitude da sua complexidade e a sua natureza amplamente precária, para não falar da problemática relação entre a realidade e os ponteiros do relógio. Esta ignorância não exclui um razoável domínio daquilo a que as pessoas em geral (e cremos que o Jorge Gabriel também) chamam a Literatura. Antes pelo contrário, a Literatura (bem como a fixação escrita de todas as linguagens) é precisamente uma forma de esconder a ignorância sobre as coisas em geral, e a arte de bem cavalgar toda a ignorância através da linguagem, implica conhecimentos técnico-táticos em múltiplos domínios, mas não nos detenhamos por agora em assuntos demasiado perigosos. Quero com isto dizer que não desdenharia visitar a vida sexual das mães do Pedro Nunes.

Com efeito, o António Guerreiro (com uma reacção à perda fortíssima e por isso mesmo, exagerando, no referido texto, as consequências extraídas do sucesso sociológico da angeologia no meio literário português) devia contudo saber que, precisamente, e em geral, o tipo de «alma» criada na Travessa da Lapa e na censura da porcalhice é também muito fértil em potência criativa ao nível da mesma e referida porcalhice, tal como já todos devíamos saber por intermédio desse vulto da pornografia doméstica, o arquitecto Tomás Taveira. António Guerreiro talvez pretenda, contudo, sublinhar isso mesmo. As mães do Pedro Nunes são umas porcalhonas mas não querem os filhos a serem iniciados na porcalhice. Uma posição aliás legítima. Se bem entendo, o caso é simultâneamente mais clássico e mais infelizmente esquerdalho, ao nível dos preconceitos culturais: António Guerreiro mostra-se tentado a afirmar que as burras das mães do Pedro Nunes são precisamente parte do grupo responsável pelo sucesso do Valter, mas somente enquanto o retrato público do Valter foi o da superficialidade mediática do curador de almas, transmitida pelo jornalismo, uma vez que só o António Guerreiro lê livros. Mas quando o referido Valter resolve mostrar o seu lado caxineiro, as mães do Pedro Nunes, segundo António Guerreiro, entraram em histeria existencial. O mundo é mais complicado, e estaremos todos de acordo, não se aprende sobre as relações entre erotismo e pornografia na Travessa da Lapa, mas muito menos se aprendem essas relações em Breton ou Robbe-Grillet, e com isto, já não estaremos todos de acordo. Talvez as mães do Pedro Nunes não pretendam que seja o Valter a explicar o mundo aos seus filhos, ainda que por aí tenham aparecido teorias sobre a importância da leitura, como se recomendar Valter Hugo Mãe a adolescentes, não fosse precisamente o mais directo caminho para erradicar da juventude todo o prazer da leitura. Nisto, estou com as mães do Pedro Nunes, com todo as minhas forças morais, talvez não pelas mesmas razões das mães do Pedro Nunes, que aliás desconheço, mas não desdenharia conhecer.

Não sei até quando será necessário repetir: a literatura não pode representar utilidade universal na vivência do mundo, como já acima se referiu quanto à supracitada tragédia do mais famosos leitor de romances. Por outro lado, e alegadamente, até o Diabo teve um passado ligado à Travessa da Lapa e à angeologia. Quanto a eventuais problemas de adequação literária às estratégias pedagógicas, confesso o meu desinteresse conjuntural no tema. No fundo, a Shakira também é mãe e deve estar para inscrever os filhos numa Travessa da Lapa qualquer, e não estou a vê-la a apreciar a literatura do valter hugo mãe, mas isto é por certo um preconceito da minha visão estética do mundo.

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Lamentavelmente, somos forçados a regressar a um assunto encerrado. Valério Romão voltou à carga num artigo publicado no famoso e aclamado periódico, Hoje Macau. Afinal, as ideias expostas no excerto criticado não são dele mas de uma personagem que expõe «atabalhoadamente a sua visão redutora das relações». O ponto, contudo, não é esse, nem podia ser, pois nesse caso, Valério Romão devia estar orgulhoso por ter conseguido enganar os leitores, é o sonho de qualquer autor. Mas como bem sabe o professor doutor Valério Romão, está em causa, precisamente, a falta de talento para ser atabalhoado e fingir uma visão redutora das relações que não seja diretamente contaminada pelas ideias do escritor. Está em causa, sobretudo, e se me é permitido ter opinião (muito obrigado), o direito constitucional de considerarmos os seus textos e temas terrivelmente desinteressantes, pois são, precisamente, os temas da moda. Pior do que isso, a literatura de Valério Romão é em geral uma revisitação de António Lobo Antunes (e isto é um elogio), mas com maior ruído e desacerto metafórico, muita cornucópia dispensável, muita irónica referência a marquises e ao tupperware. Mais concretamente, reservamos o direito de considerar o elemento bizarro no referido excerto, pois (parece-nos) uma personagem atabalhoada, a primeira coisa em que pensa, é em relacionar, de forma redutora, a câmara de Fellini com as relações amorosas, envolvendo nisto a pila de alguém. Tenhamos paciência.

Quando à ideia da intermediação da personagem, então, mais uma vez, o doutor Valério escorrega na sua própria casca de banana, pois nesse caso, não será o rapaz da internet, também ele (eu) quem? apenas e tão somente uma pirandelliana desdobragem ficcional neste grande teatro do mundo? Para quê considerar como sujeito real uma persona qualquer a escrever sobre literatura? No fundo, talvez seja uma personagem atabalhoada a descrever redutoramente as suas opiniões sobre o grande escritor Valério Romão? Para quê tomar pelo valor facial um texto assinado por um extraterrestre num blogue obscuro?

Na verdade, tanto o senhor doutor Valério como o excelentíssimo senhor Valter esforçam-se por representar o papel de mártires da liberdade expressão, perseguidos pela fúria indignatória desses dois pólos da perversidade universal, as redes sociais e as mães do Pedro Nunes. O caso é tanto mais ridículo se pensarmos que as alusões ao texto de Valério Romão, foram lançadas em campo estético e as críticas apenas dirigidas ao autor, e nem poderia ser de outro modo, pois não temos o prazer de conhecer a pessoa. Ou muito me engano, e eu engano-me muitas vezes, o senhor professor doutor Valério Romão insiste em fazer aos outros o que considera inapropriado quanto à sua pessoa (e peço-lhe para voltar a considerar o que escreve quase mensalmente sobre escritores menores como Chagas Freitas ou líderes espirituais como Gustavo Santos). Na verdade, talvez se aprenda alguma coisa com Gustavo Santos, quanto mais não seja, a não ter medo de lavar as próprias cuecas. Reciprocidade: ora aí está uma coisa que se aprende consumindo boa pornografia, um campo socio-cultural onde uma boa cena implica a experiência mutuamente recíproca de cada centímetro corporal lambido. Somos pois chegados a um universo paralelo, onde um escritor acusado de ser mediano e literáriamente conservador (replicando temas e estratégias estafadas e exauridas na obra de Lobo Antunes) responde acusando os seus críticos de censura, e invocado o direito a utilizar palavrões. A vitimização, sobretudo em figuras privilegiadas pelos órgãos mediáticos e pelos centros de difusão nacional da cultura, é dos espectáculos mais lamentáveis a que temos assistido.

Bem sabemos como o mártir da liberdade de expressão é uma tipologia weberiana que está para a carreira literária como o pau de Cabinda para as mães do Pedro Nunes, basta pensar naquele autor perseguido e que semanalmente é forçado pela opressão de um valor monetário a escrever copiosas crónicas no Expresso. Na verdade, colar a este blog o epíteto censório (e para utilizar um famoso delírio da percepção) é o mesmo que confundir a experiência de amar uma mulher fumadora com uma lambidela a um cinzeiro. Meus amigos, é preciso mais concentração, pois, como já por diversas vezes referi, não andamos todos aqui a dormir.

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