quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Convosco, Dorsa Derakhshani, uma personagem imortal, criada por Roberto Bolaño








sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Kumbaya, my lord, Kumbaya

Vamos hoje abordar um problema, digamos, delicado. Esta recente e muito interessante entrevista serve de mote à consideração, pela enésima vez, de um tremendo e muito generalizado equívoco, a saber, as famigeradas ambições de um criticismo legítimo, aprendido na Academia, por oposição ao criticismo do mercado, ou seja, falamos da injusta, sumária e superficial condenação (enquanto sedes de juízo estético) da gaja boa ou do troglodita que por acidente, e porque lhes apetece, decidem comprar um livro para passar o tempo, sobretudo, quando são muitos (gajas boas e trogloditas) a comprar livros, não nos esqueçamos das nossas raízes democráticas, amen. Não quero com isto dizer que a invisibilidade da mão, manipulada por muita mamalhuda e por muito avantajado, represente, por si só, uma consagração automática do valor literário. Longe de mim defender, com uma venda nos olhos, essas robinsonadas dos economistas austríacos. Mas quero com isto dizer, se me é permitido, que não devia fazer-nos comichão o facto de existir uma, e passo a citar, literatura de mercado, ou seja, literatura light (sem as típicas gorduras dos aparelhos ideológicos de Estado, o que me parece uma elogiosa definição) ou nesse caso, teríamos de sentir a mesma coceira pelo facto de alguém vender a aprendizagem, a oficina, o treino, o segredo, a janela de oportunidade, aos pobres esperançosos apostados em fugir da tenaz do lucro e em não cair (ó clemência, ó piedade) no caldeirão infernal da famigerada literatura de mercado, benza-os deus.


Não teria resumido melhor o equívoco. Ou seja, o diabo veio de tenaz em punho e acabou com o tempo onde reinava uma tranquila tradição especificamente literária, que aliás, em Portugal, produziu toneladas de génios literários, é consultar a nossa glorioso história. Tirando Camilo e Eça (produzidos em grande medida pelo mercado) e excepção feita a Fernando Pessoa (que limpou o rabinho com a tradição especificamente literária) qual o escritor digno de registo produzido pela tradição especificamente literária? Herberto Trau Hélder? Quem? O gajo que não aparecia para melhor valorizar o produto? Almeida o Professor Faria? O José Estúdios Cor Saramago foi produzido fora do mercado? Lobo Antunes (com os seus 750 livros e as suas 3500 crónicas) não será uma espectacular produção do mercado especificamente literário? O Luiz arranja aí vinte paus Pacheco? Pensem nisto durante o Braga-Benfica.


Portanto, que seja o público, juntamente com esse grande escultor e adepto das touradas, o tempo, a seleccionar o valor literário entre o descomunal número de livros, é o grande pecado da literatura de mercado. É portanto preferível que seja o amigo, de um amigo, de um primo, de um amigo, a fazer a selecção, ainda em estado de manuscrito, e por critérios especificamente literários, e com o risco dos custos de impressão assegurados pelo Orçamento de Estado (ou por um primo na administração Gulbenkian) escolhendo quem são os legítimos operários (plástica e inventivamente) da língua portuguesa, paga aí a minha tosta mista. Claro que só podia ser um nicho, um nichozinho, um pequerrucho nichozinho, de mãos dadas com os leitores (sem contaminações comerciais) num Kumbaya autêntico, familiar, um verdadeiro policiamento de proximidade ao escritor. Portanto, não lembra às pessoas espectaculares da tradição especificamente literária que esta tradição especificamente literária, tão próxima, tão familiar e tão autêntica, devido, precisamente, à limitação da sua proximidade e âmbito familiar, seja o mais directo caminho para um provincianismo estético e literário, sacrificando (se não existisse literatura de mercado) centenas e centenas de autores com potencial.

Além disso, pergunto: quem é o escritor que se preze, interessado em conhecer os seus leitores? Para isso, não publicava livros, nem imprimia esse meio de comunicação à distância, o livro. Candidatava-se a uma vida pastoral no Seminário (por sinal, uma palavra nascida nas entranhas da Universidade, está tudo bem).

Neste modelo familiar, autêntico, próximo, terão de ser poucos a aceder a tão secretos e misteriosos critérios estéticos (até porque neste modelo de literatura, as cunhas financeiras não chegam para todos, claro está). Por certo, nos dirão que estes poucos são poucos também por selecção natural de robustez - ah, a tradição especificamente literária - ou por grandeza da massa cinzenta, ou por abnegação filosófica e altruísmo moral, terão de ser poucos esses que, não vivendo da literatura (o dinheiro ganho com os livros tem peçonha) ganham a vida com outras actividades, nomeadamente, ensinado as especificidades da literatura, para, com efeito, poderem dedicar-se a torcer plástica e inventivamente a língua portuguesa. Kumbaya, my Lord,Kumbaya.

Acontece que, e em verdade vos digo, se a língua é considerada portuguesa, é porque, com efeito, uma comunidade chamada Portugal, cuja complexidade histórica vai da centralização manuelina (trau) passando pela degeneração católico-monárquica (oleada por um latinismo fedorento e tardio) até ao falhanço republicano em generalizar a leitura e os livros (que deu origem a essa miséria moral, política e pirotécnica, chamada Estado Novo) se foi construindo segundo critérios que não são meus, nem são teus, mas nossos. É com a língua portuguesa que todos havemos de lamber o cu do destino, mas daí a definir previamente quais a lambidelas mais inventivamente plásticas (que nem sempre são as mais capazes de suscitar prazer ou introspecção) vai uma distância do tamanho das pernas de D. Afonso Henriques.

Ora, a consciência das merdas em geral, devia tornar deveras complicado definir, excluídos os aparelhos ideológicos do ensino da literatura portuguesa, o que é ou deixa de ser uma invenção plástica da língua, quanto muito, podemos definir um projecto pessoal de invenção estética de uma dada língua (que a literatura de mercado, se deus quiser, irá submeter dinamicamente ao juízo da mamalhuda e do avantajado, pois que, no mercado, há lugar para todos), isto se o escritor tiver engenho para tanto, pois para mim, a inventividade plástica pode estar mais em reproduzir a técnica de Ovídeo, ou em glosar o calão de Margarida Rebelo Pinto, do que na mundividência estético-mental da procissão de gurus, adestrados na tradição especificamente literária, que fazem parte, nomeadamente, da instituição, legitimamente promovida, na referida entrevista. E não é certo que a mamalhuda, bendito seja o deus da criação, não prefira Ovídeo ou Shakespeare, ou se quisermos, Sebald - para dizer um nome contemporâneo - à tradição especificamente literária da inventividade plástica da língua portuguesa. E quanto ganhou Shakespeare, submetendo ao mercado a tradição especificamente literária, utilizando para tal a tenaz do lucro? As pessoas precisam de suar um bocadinho mais, se pretendem construir um sistema de legitimação da supremacia da tradição especificamente literária sobre a literatura de mercado. Não basta cantar o Kumbaya.

Em todo o caso, quero deixar bem claro: não condeno, nunca condenei, nunca condenarei, quem pretenda ganhar a vida ensinando a tradição especificamente literária, mas é de mau tom lançar do alto anátemas contra a tenaz do lucro, só porque, aparentemente, algumas pessoas não preenchem os critérios estéticos preconfigurados numa alegada tradição especificamente literária. Aliás, é curioso como a legitimidade estética negada à literatura de mercado, se revela adequada ao ensino da escrita criativa, através de um disparatado e pseudo-científico discurso em torno do conceito de optimização (aplausos) e de técnica de expressão (risos). Permitam-nos uma citação longa, mas o interlocutor, justiça lhe seja feita, é estimulante.



Portanto, se andássemos todos aqui a dormir, não notaríamos que ensinar a moldar uma plasticina requer um conjunto de critérios para diferenciar (esteticamente) os diferentes actos de moldagem dessa plasticina, caso contrário, uma criança de três anos também poderia ministrar o curso. Mas esses critérios não são revelados, a não ser por cada um dos formadores, e após pagamento da inscrição (aplausos), e segundo a subjectividade da experiência dos formadores, o que pouco aproveitará ao aprendiz (digo eu), e desde logo, reproduz a supremacia do mestre sobre o aluno, ou seja, a Universidade é um vírus muito eficaz a parasitar a actividade criativa, aparecendo agora sob novas, mais obscuras e mais decadentes roupagens. Claro que nenhum dos escritores formadores expõe publicamente esses critérios, não só por razões comerciais (prefere vender os segredos de oficina à porta fechada e em fascículos), mas também porque não faz a mais pequena ideia do que seja um critério universal em literatura, e teria de confessar a figura triste que anda a fazer, tão pobre de razões metafísicas (e tão eficazmente pragmático) é hoje o travejamento estético de um escritor.

Não lamentamos, contudo, nada nesta situação. Tudo isto é mercado, tudo isto é legítimo, tudo isto é impulse, mas por isso, recomendamos menos moralização da literatura ligth. Por outro lado, optimizar ferramentas de expressão implica uma economia estética e uma escala de desperdício, o que implica uma retórica universal das ferramentas literárias, o que só pode provocar o riso.  A optimização da ferramenta narrativa utilizada por Marcel Proust (salvo seja) é um desperdício em Italo Calvino e o processamento da expressão em Faulkner é uma cacofonia aberrante, à luz dos processos em Marguerite Yorcenar. Entretanto, paga aí a tosta mista. O que é legítimo, desde que não impliquem com a minha vontade de comer morcela ou hambúrgueres americanos a transbordar de gorduras saturadas.


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

A azia da influência: António Lobo Antunes e a dolorosa consciência da sua própria irrelevância

«Até Tolstoi é uma sombra insignificante, se for passear com Anna Karénnina».
Elena Ferrante, Escombros


Concordo em geral com o comentário aqui deixado, pelo nosso estimado leitor, Gerónimo Cão, à mais recente polémica literária, embora, no meu caso, dispensasse também as entrevistas dos últimos vinte anos, juntamente com os últimos vinte livros de António Lobo Antunes (daqui em diante, e até que a morte nos separe ALA). Arrisco dizer, a partir de Fado Alexandrino, entramos numa dolorosa e dorida repetição. Na verdade, estamos diante de um caso típico. Um escritor talentoso, abençoado pelo nascimento, a educação, e as condições materiais, um moiro de trabalho e um gigante na determinação, acaba por revelar-se incapaz de produzir uma obra à medida das suas ambições. Se quisermos resumir tudo numa frase jornalística, estamos perante um caso clássico de azia da influência.

Não queremos com isto colar à obra de ALA o rótulo de falta de interesse, o problema é a medida dos espaços intergalácticos sonhados pelo escritor, e o resultado do confronto entre esse sonho de infância e a qualidade/alcance da obra publicada. Por muito que se repitam os insultos a vultos das letras portuguesas (vultos esses que devem aparecer no silêncio da noite a ALA tanto maiores quanto mais a sua própria figura literária se vê reduzida com o passar dos anos) e por muito que se proclame o «consenso dos Steiners e dos Blooms» (no fundo, e para todos os efeitos de imortalidade, apenas dois velhinhos com livros tendencialmente irrelevantes) ALA entrou há muito num processo de sportinguização (peço desculpa a toda a gente) perante a realidade.

Comparações com Céline? Como responsabilidade política, é um disparate. ALA pode insultar todos os dias Camões e mijar para cima do busto de Almeida Garrett, nada disso se assemelha ao colaboracionismo nazi. Como medida do talento literário, um disparate ainda maior, pois ALA não chegou nunca a arranhar nem a originalidade temática e estilística, nem a dimensão artística do referido escritor francês. O crítico Alberto Velho Nogueira interroga-se sobre que tipo de culpa justificará esta raiva perante José Saramago. Tenho uma hipótese: ALA, como autor inteligente e muito culto do ponto de vista literário, terá uma vaga consciência do seu falhanço e de como a sua obra, sendo interessante, não é a magia que Cesarynamente procurava.

Proponho um teste simples: digam-me uma, digam-me só uma, uma personagem memorável criada por ALA. Podemos trabalhar a linguagem no torno, podemos torcer o frasear, fazer do hiperbato e da hiperbole os bombardeiros das nossas intenções narrativas, podemos desmontar peça a peça toda a gramática, triturar a acção, cortar em pedacinhos o narrador, isso de modo algum colide com o derradeiro teste de toda a potência literária: a criação de uma realidade, claramente definida num destino narrativo, mais intensa e duradoura que o próprio autor. Não existe, aliás, numa obra conseguida, qualquer contradição entre inovação (e até provocação) estilística e a energia revelada pelos personagens, antes pelo contrário.

Se tomarmos o caso de Ulisses (exemplo clássico de constante terrorismo perante as convenções narrativas) temos, nada mais, nada menos do que três personagens memoráveis: Leopold Bloom, Stephen Dedalus e Molly Bloom, a quem o primeiro terá beijado, legitimamente, as nádegas. Ora, no caso de ALA não sobra nada a não ser uma indefinida cacofonia emocional multiplicada infinitamente pelas infinitas hipóteses de infelicidade do destino humano, personagens a que não chegamos sequer a fixar os nomes, de tal forma são meras convenções, escravizadas pelos ais e uis do tom narrativo, que a certa altura, nos começa a parecer sempre a mesma pessoa, ou seja, um escritor de livros sem outro interesse a não ser a sua própria glória literária (isto topa-se ao longe). Todavia, o projecto até seria razoavelmente interessante, se não tivesse sido feito centenas de vezes. ALA tentou uma mistura entre o anonimato Tchékoviano (com a sua galáxia de impressivas e breves tragédias quotidianas) e a interioridade de Joyce (com a sua torrencial transferência do sofrimento interior submergindo o eixo da narrativa) mas não produziu nada de verdadeiramente novo, a não ser um fluxo de interminável comentário a outros escritores maiores. ALA é um caso de evidente derrota às mãos de gigantes passados.

Há sempre grande escândalo quando se procura enquadrar, com alguma severidade, autores tão amplamente consagrados como ALA. Neste aspecto, o próprio ALA oferece um glorioso paradoxo, qualificando a obra de Saramago como «uma merda». No fundo, está a chamar (mesmo que involuntariamente) a atenção para o carácter precário e subjectivo de toda a obra literária. Faz bem, só é pena não lhe conhecermos o raciocínio crítico, e nisto reside a sua maior fragilidade e a clara denúncia do carácter angustiado da sua imitativa obra. Quanto a prémios e traduções, apenas um exemplo: sabiam que Luís Sttau Monteiro, durante os anos sessenta, era traduzido no impenetrável mercado dos EUA, e com muito favorável crítica no New York Times? Moral da história: calma, muita calma.

Com efeito, James Joyce tem sido uma espécie de Segurança Social para uma infinidade de escritores com razoável talento mas sem a força criativa (muito rara, diga-se) suficiente para virar o curso da historiografia literária do Ocidente. De Virginia Woolf a William Faulkner, passando por Beckett, ALA é só mais uma triste derivação na atormentada história das desesperadas tentativas para superar as muitas linhas de raciocínio literário abertas pelo mais famoso zarolho irlandês. ALA tem a seu favor, e devia recordar-se disso (o que certamente aliviaria o fardo) o facto de ser extremamente difícil produzir qualquer coisa de novo e duradouro em termos literários, ao contrário do que parece proclamado todas as semanas nos comunicados oficiais dos prémios. O que não significa qualquer elitismo da nossa parte, antes pelo contrário. Como tenho insistido aqui, a luta continua, e a primeira e mais duradoura regra da evolução literária, pode ser resumida no famoso aforismo evangélico: muitos são os chamados mas poucos os escolhidos.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Gentil Senhora Ferrante, estarei apaixonado por si?

Nem sempre é fácil resumir cabalmente o papel desempenhado por este blog. A crítica raramente pode ser excessiva ou injusta, pois quanto aos escritores de escasso talento, consagrados pelo afecto pessoal, a Academia e o mandarinato, sempre insidiosos e manipuladores, a enviar likes e beijinhos a figuras destacadas do meio literário (e falo de casos reais), será sempre difícil neutralizar a sua estratégia medonha em tempo útil, e muito menos nos anima qualquer espírito inquisidor. Tenham muitas felicidades, convençam os júris formados por cinco velhinhos/as e um galã literário, e alcancem todos os prémios possíveis, mas não nos peçam para apoiar (e silenciar) a venda a céu aberto de gatinho rafeiro estufado, nas vezes da lebre de coentrada.

Quanto aos escritores, aqueles a quem justamente podemos qualificar como tal, esses terão sempre a última palavra, sem precisarem de mais do que a página do livro, e triunfarão sobre a inveja, a maldade, a sobranceria ou a severidade das apreciações. Por isso, nem um ano passado sobre um azedo tratamento do seu anonimato, sou forçado a partilhar o momento em que a gentil senhora Elena Ferrante (Escombros, p. 40) me agarrou pelos testículos e me obrigou a ajoelhar, para grande prazer da minha inteligência, aliás, sempre pronta a declarar-se derrotada, se para tal existem razões e méritos literários.

«A pergunta é a seguinte: porque é que, apesar de ter lido o meu livro há um ano, apesar de o ter apreciado como diz, concretizou a ideia de entrar em contacto comigo só agora, depois de ter sabido que vai ser feito um filme baseado em Um Estranho Amor?
Se tivéssemos, não digo de fazer uma entrevista, mas de ter uma conversa amigável, eu discutiria consigo sobretudo as razões para ter levado tanto tempo, partindo por exemplo de uma observação sua. Escreve você, mas menos brutalmente do que eu resumo: o seu livro diz-me alguma coisa mas o seu nome não me diz nada. Pergunta: se o meu livro não lhe tivesse dito nada e o meu nome lhe tivesse dito alguma coisa, teria levado menos tempo a pedir-me uma entrevista?»

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Shakira e Literatura: alguns aspectos


António pessoa ungida pela sagacidade Guerreiro in Público

As mães do Pedro Nunes nunca terão lido Breton e Robbe-Grillet (dois gajos que não chegaram a ver a França campeã do mundo) mas daí até as mães do Pedro Nunes (como entidade institucional) desconhecerem as contradições implícitas no admirável e litúrgico mundo do pinanço em espetacularidade, vai uma distância do tamanho que for mais adequado à satisfação de cada um. Ou seja, o senhor general e almirante António Guerreiro, no seu confuso texto, comete um erro típico, várias vezes aqui aludido (e também por nós praticado, pois gostamos de meter a mão no prato com pecadores e publicanos) isto é, toma a realidade pelas coisas lidas nos livros, uma cena que já alegadamente motivou a má fama do Quixote.

Isto não significa privilegiar a experiência em relação à teoria (deixámo-nos disso desde que o António Veloso falhou um penalti em Estugarda) mas apenas reconhecer o gigantismo da nossa ignorância sobre a realidade, dada a amplitude da sua complexidade e a sua natureza amplamente precária, para não falar da problemática relação entre a realidade e os ponteiros do relógio. Esta ignorância não exclui um razoável domínio daquilo a que as pessoas em geral (e cremos que o Jorge Gabriel também) chamam a Literatura. Antes pelo contrário, a Literatura (bem como a fixação escrita de todas as linguagens) é precisamente uma forma de esconder a ignorância sobre as coisas em geral, e a arte de bem cavalgar toda a ignorância através da linguagem, implica conhecimentos técnico-táticos em múltiplos domínios, mas não nos detenhamos por agora em assuntos demasiado perigosos. Quero com isto dizer que não desdenharia visitar a vida sexual das mães do Pedro Nunes.

Com efeito, o António Guerreiro (com uma reacção à perda fortíssima e por isso mesmo, exagerando, no referido texto, as consequências extraídas do sucesso sociológico da angeologia no meio literário português) devia contudo saber que, precisamente, e em geral, o tipo de «alma» criada na Travessa da Lapa e na censura da porcalhice é também muito fértil em potência criativa ao nível da mesma e referida porcalhice, tal como já todos devíamos saber por intermédio desse vulto da pornografia doméstica, o arquitecto Tomás Taveira. António Guerreiro talvez pretenda, contudo, sublinhar isso mesmo. As mães do Pedro Nunes são umas porcalhonas mas não querem os filhos a serem iniciados na porcalhice. Uma posição aliás legítima. Se bem entendo, o caso é simultâneamente mais clássico e mais infelizmente esquerdalho, ao nível dos preconceitos culturais: António Guerreiro mostra-se tentado a afirmar que as burras das mães do Pedro Nunes são precisamente parte do grupo responsável pelo sucesso do Valter, mas somente enquanto o retrato público do Valter foi o da superficialidade mediática do curador de almas, transmitida pelo jornalismo, uma vez que só o António Guerreiro lê livros. Mas quando o referido Valter resolve mostrar o seu lado caxineiro, as mães do Pedro Nunes, segundo António Guerreiro, entraram em histeria existencial. O mundo é mais complicado, e estaremos todos de acordo, não se aprende sobre as relações entre erotismo e pornografia na Travessa da Lapa, mas muito menos se aprendem essas relações em Breton ou Robbe-Grillet, e com isto, já não estaremos todos de acordo. Talvez as mães do Pedro Nunes não pretendam que seja o Valter a explicar o mundo aos seus filhos, ainda que por aí tenham aparecido teorias sobre a importância da leitura, como se recomendar Valter Hugo Mãe a adolescentes, não fosse precisamente o mais directo caminho para erradicar da juventude todo o prazer da leitura. Nisto, estou com as mães do Pedro Nunes, com todo as minhas forças morais, talvez não pelas mesmas razões das mães do Pedro Nunes, que aliás desconheço, mas não desdenharia conhecer.

Não sei até quando será necessário repetir: a literatura não pode representar utilidade universal na vivência do mundo, como já acima se referiu quanto à supracitada tragédia do mais famosos leitor de romances. Por outro lado, e alegadamente, até o Diabo teve um passado ligado à Travessa da Lapa e à angeologia. Quanto a eventuais problemas de adequação literária às estratégias pedagógicas, confesso o meu desinteresse conjuntural no tema. No fundo, a Shakira também é mãe e deve estar para inscrever os filhos numa Travessa da Lapa qualquer, e não estou a vê-la a apreciar a literatura do valter hugo mãe, mas isto é por certo um preconceito da minha visão estética do mundo.

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Lamentavelmente, somos forçados a regressar a um assunto encerrado. Valério Romão voltou à carga num artigo publicado no famoso e aclamado periódico, Hoje Macau. Afinal, as ideias expostas no excerto criticado não são dele mas de uma personagem que expõe «atabalhoadamente a sua visão redutora das relações». O ponto, contudo, não é esse, nem podia ser, pois nesse caso, Valério Romão devia estar orgulhoso por ter conseguido enganar os leitores, é o sonho de qualquer autor. Mas como bem sabe o professor doutor Valério Romão, está em causa, precisamente, a falta de talento para ser atabalhoado e fingir uma visão redutora das relações que não seja diretamente contaminada pelas ideias do escritor. Está em causa, sobretudo, e se me é permitido ter opinião (muito obrigado), o direito constitucional de considerarmos os seus textos e temas terrivelmente desinteressantes, pois são, precisamente, os temas da moda. Pior do que isso, a literatura de Valério Romão é em geral uma revisitação de António Lobo Antunes (e isto é um elogio), mas com maior ruído e desacerto metafórico, muita cornucópia dispensável, muita irónica referência a marquises e ao tupperware. Mais concretamente, reservamos o direito de considerar o elemento bizarro no referido excerto, pois (parece-nos) uma personagem atabalhoada, a primeira coisa em que pensa, é em relacionar, de forma redutora, a câmara de Fellini com as relações amorosas, envolvendo nisto a pila de alguém. Tenhamos paciência.

Quando à ideia da intermediação da personagem, então, mais uma vez, o doutor Valério escorrega na sua própria casca de banana, pois nesse caso, não será o rapaz da internet, também ele (eu) quem? apenas e tão somente uma pirandelliana desdobragem ficcional neste grande teatro do mundo? Para quê considerar como sujeito real uma persona qualquer a escrever sobre literatura? No fundo, talvez seja uma personagem atabalhoada a descrever redutoramente as suas opiniões sobre o grande escritor Valério Romão? Para quê tomar pelo valor facial um texto assinado por um extraterrestre num blogue obscuro?

Na verdade, tanto o senhor doutor Valério como o excelentíssimo senhor Valter esforçam-se por representar o papel de mártires da liberdade expressão, perseguidos pela fúria indignatória desses dois pólos da perversidade universal, as redes sociais e as mães do Pedro Nunes. O caso é tanto mais ridículo se pensarmos que as alusões ao texto de Valério Romão, foram lançadas em campo estético e as críticas apenas dirigidas ao autor, e nem poderia ser de outro modo, pois não temos o prazer de conhecer a pessoa. Ou muito me engano, e eu engano-me muitas vezes, o senhor professor doutor Valério Romão insiste em fazer aos outros o que considera inapropriado quanto à sua pessoa (e peço-lhe para voltar a considerar o que escreve quase mensalmente sobre escritores menores como Chagas Freitas ou líderes espirituais como Gustavo Santos). Na verdade, talvez se aprenda alguma coisa com Gustavo Santos, quanto mais não seja, a não ter medo de lavar as próprias cuecas. Reciprocidade: ora aí está uma coisa que se aprende consumindo boa pornografia, um campo socio-cultural onde uma boa cena implica a experiência mutuamente recíproca de cada centímetro corporal lambido. Somos pois chegados a um universo paralelo, onde um escritor acusado de ser mediano e literáriamente conservador (replicando temas e estratégias estafadas e exauridas na obra de Lobo Antunes) responde acusando os seus críticos de censura, e invocado o direito a utilizar palavrões. A vitimização, sobretudo em figuras privilegiadas pelos órgãos mediáticos e pelos centros de difusão nacional da cultura, é dos espectáculos mais lamentáveis a que temos assistido.

Bem sabemos como o mártir da liberdade de expressão é uma tipologia weberiana que está para a carreira literária como o pau de Cabinda para as mães do Pedro Nunes, basta pensar naquele autor perseguido e que semanalmente é forçado pela opressão de um valor monetário a escrever copiosas crónicas no Expresso. Na verdade, colar a este blog o epíteto censório (e para utilizar um famoso delírio da percepção) é o mesmo que confundir a experiência de amar uma mulher fumadora com uma lambidela a um cinzeiro. Meus amigos, é preciso mais concentração, pois, como já por diversas vezes referi, não andamos todos aqui a dormir.

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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Equívocos da vida moderna

Em busca de uma urgentemente necessária e muito prometedora biografia de Celine, o autor de Viagem ao Fim da Noite, eis que o motor de busca capricha no rigor da devolução e me apresenta este esfíngico volume.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Esclarecimento - da autoria de um rapaz da internet

«há uns tempos um rapaz da internet fez uma crítica a uma passagem do autismo que um amigo meu partilhou no facebook, e en passant, ao autismo, a mim enquanto escritor e, passo duplamente maior que a perna, a mim enquanto pessoa.» 

Valério Romão, in Facebook (uma cena da internet, a todos os títulos, espectacular)

Nunca saberemos se este rapaz da internet é o autor que vos fala (aqui, na internet) pois o estimado escritor Valério Romão não teve a gentileza de nos fornecer essa informação, mas sabemos contudo que (vírgula) nunca procuramos criticar as: pessoas, com P grande, a não ser enquanto Pessoas sistematicamente cheias de ambição literária injustificada, pois sabemos ser esse o propósito da crítica (praticamente inexistente em Portugal, como bem sabemos). Todavia, ao contrário do senhor doutor Valério Romão, fazemos ao menos a justiça de identificar os nossos alvos, e sobretudo, tentamos não ser sistematicamente insultuosos em relação a pessoas como as alegadamente pessoas Gustavo Santos ou Pedro Chagas Freitas, no fundo, gostamos de nos meter com alguém do nosso tamanho, e como tal, o senhor doutor Valério Romão podia ter encarado a crítica como um elogio que, por arrasto deste vosso autor (eu) talvez o salve do esquecimento daqui a duzentos anos (pedimos desculpa a toda gente, pois muito ínvios são os caminhos do senhor). 

Quanto a passos maior que a perna, são os únicos passíveis de assistir a nossa mentalidade ganhadora, Domingo a Domingo, e não estamos sequer preocupados com o índice lesional das boas maneiras, partiremos o pescoço ou não partiremos, o que importa é a literatura, partam-se por isso as nossas pernas, o que importa é a literatura, estatelemos o focinho no chão, mas sejamos capazes de salvar os argumentos (e a literatura), argumentos esses a que, muito estrategicamente, o senhor doutor Valério não responde, e por isso, somos obrigados a - infelizmente - ficar por aqui nesta, por certo, enriquecedora troca de frases maiores que o nosso conhecimento da gramática.  Na verdade, temos pela natureza humana em geral - e sobretudo pelos frequentadores das redes sociais, os rapazes e raparigas da internet - o mesmo respeito civil e jurisdicional que nutrimos por escritores consagrados pelo sistema editorial das pessoas espectaculares, pelos doutores de leis, pelos presidentes da república ou cantores nascidos na Pampilhosa da Serra. Com isto, encerramos o assunto, desejando, novamente, as maiores felicidades ao excelentíssimo Valério Romão, pedindo desculpa por qualquer incómodo causado à sua sensibilidade enquanto escritor, autor e pessoa.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Ando com uma vontade de arrebentar com isto tudo

Instruções

1. carregar no play do video
2. reclinar-se na cadeira e apreciar



PS: o devido mérito e vénia ao Insónias em Carvão por ter apanhado este momento de nosso senhor salvador JJ.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

A fenomenologia da cartolina: autorreferencialidade e confusão em Maria Gabriela Llansol e Bruno de Carvalho


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quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Senhoras e Senhores, convosco, o Pai Natal

Proclamação: «Mesmo os livros de Llansol, na sua atemporalidade, e ainda que remetam para a história humana, não deixam de tocar a história portuguesa.»

Comentário: Os livros da Maria Gabriela Lençol parecem saídos da imaginação torturada de uma adolescente problemática com dislexia (peço desculpa a toda a gente) sendo que, remetendo para a humanidade da história humana, e apesar de uma primeira abordagem da história dos pinguins, Maria Gabriela Lençol limitou-se a deixar paletes de folhas manuscritas lá no sótão da casa em Fontanelas, ou na Praia das Maçãs ou em Colares, agora não tenho presente, terão de consultar a obra crítica do Pai Natal.


Proclamação: «O mesmo aconteceu com a poesia em grupos como o do Cartucho (Joaquim Manuel Magalhães, João Miguel Fernandes Jorge, Helder Moura Pereira,António Franco Alexandre) que obrigaram a poesia a um regresso ao real. Mas um real que espelhava o novo Portugal, urbano, fortemente desencantado,profundamente melancólico, mesmo se irónico. É aqui que encontramos também poetas como Vasco Graça Moura, Fernando Pinto do Amaral, Luís Miguel Nava, Al Berto…»

Comentário: A poesia - contrariada - lá se dispôs a regressar ao real.


Proclamação: «A importância das escritoras para a renovação da literatura portuguesa é algo que já vem dos anos 60 mas que se vai solidificar nos anos 80e 90. Quer no romance, com Agustina, Lídia Jorge, Maria Velho da Costa,Teolinda Gersão, quer no conto com Maria Judite Carvalho, Teresa Veiga, Luísa Costa Gomes, quer em obra sem género definido como são os livros de Llansol ou Hélia Correia, foram as mulheres que mais arrojaram em termos temáticos, estilísticos. Elas introduzem uma desordem, com a polifonia, a meta-narrativa, a intertextualidade, uma nova ordem do simbólico que se manifesta na forma como usam os tempos, a auto referencialidade, a subjetividade. Nas escritoras a busca de uma voz é a busca de um sentido e, nesse caminho, elas fizeram uma rebeliãocontra o discurso masculino que dominava a ficção portuguesa.»

Comentário: Aprende, aprende humildemente, o velho é que a leva direita. Gostava entretanto - se me é permitido - de dizer (com todo o respeito) duas ou três palavras: Carlos de Oliveira. Tem pilinha, mas alegadamente, de um ponto de vista da «desordem, polifonia, meta-narrativa, intertextualidade, uma nova ordem do simbólico que se manifesta na forma como se usa o tempo, a autoreferencialidade e a subjetividade» parece-me indiscutivelmente que. Quanto ao referido grupo, tenho dificuldade em, digamos, expressar o meu sentido crítico por motivos, digamos, autoreferenciais, mas note-se: a Hélia Correia não gosta de sol e tem como principal atributo o coleccionismo de memorabilia em torno de uma ou duas notas de rodapé da história da literatura decadentista. Alegadamente, também leu os clássicos, mas lamentavelmente, nunca a vi no estádio da Luz, pelo que, não pode ser. A Teolinda Gersão também sabe alemão, de resto, é uma pessoa espetacular que tenho o prazer em desconhecer absolutamente. A Lídia Jorge diz que a literatura é o prolongamento da infância, uma coisa a todos os títulos de uma originalidade infinita. A Maria Judite de Carvalho não sei quem é. A Teresa Veiga confundo com uma pessoa que vive na Madeira, mas se calhar é a mesma. A Luísa Costa Gomes, calma camaradas. A Agustina é chato, é rural, é exótico, é psicótico, é Camilo com peso a mais.


Proclamação: «A literatura e a poesia são sobretudo um trabalho deestruturação de um olhar sobre o mundo e depois a colocação desse olhar sob aforma de linguagem. Uma linguagem que não se limite a contar factos (isso, láestá, é o que fazem os media) mas que dê a ver o invisível através do visível.»

Comentário: Ôéó-ó! Ôéó-ó, Ôéó-ó-ó-ó-ó, Ôéó-ó-ó-ó-ó!


Proclamação: «A imposição do romance quase como sinónimo de literatura apagando a poesia e o conto, o realismo de cariz conservador e banal, a pobreza da linguagem, são sintomas de um mundo sem memória, onde a cultura, a arte e aliteratura se regem por paradigmas economicistas. O único lugar onde ainda existem valores é na Bolsa. A vida das pessoas gira em torno do consumo e das vivências do corpo mas apenas na sua perspetiva hedonista. Logo, o simbólico, aletra, a palavra saem a perder. A tecnologia apaga a palavra. A literatura foi totalmente contaminada pela acumulação de a tualidade, de informação, abdicandodo espaço da História, da memória. Obriga-nos a um eterno presente onde imperam as imagens.»

Comentário: A confusão é de tal ordem que temos dificuldade em desatar este novelo de disparatada oração ao Santíssimo Sacramento da Literatura. Se o romance é uma forma comercial e metiaticamente apetecível (tal como o era o teatro grego na antiguidade ou o drama isabelino no final do século XVI ou o folhetim, depois romance em fascículos no século XIX) que tem isso a ver com a qualidade (risos) e a originalidade do conteúdo (olé) veiculados por essa forma? E se a mesma é apreciada por um público disposto a pagar a liberdade do artista, onde está a relação linear entre as preferências do público e a suposta falta de qualidade do produto consumido para fins de edificação mental? Paradigma economicista? Mas agora somos forçados ao paradigma economicista das Universidades centralizadamente financiadas com impostos onde todo o respeitável e reputado escritor deve inexoravelmente ir ajoelhar? O simbólico clube de Portugal está em crise? Mas não estão os estádios cheios? Mas estaremos aqui a ignorar a revitalização do salto-agulha? Professor, doutor, camarada, Barrento, o excelentíssimo professor possui apenas 76 anos, não os transforme, com todo o respeito, em 1776 anos.

Vejamos a seguinte ilustração simbólica do paradigma economicista-consumista numa dimensão, digamos, hedonista de satisfação do corpo enquanto vivência ou quisermos, enquanto delinquência moral, embora, como diria Anselmo Ralph, nem lhes tocamos, apesar de serem duas, a dançar ao som de um torturado e bem-aventurado mancebo, prestes a ser introduzido no maravilhoso mundo da tragédia masculina. Em que gaveta do seu esclerosado instrumentário de apreciação do mundo coloca o senhor professor doutor este conjunto poético-comercial de estímulos mentalmente simbólicos no que à produção da linguagem diz respeito?

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Proclamação: «Há agora também a moda da violência espetacular de um autor de quem já gostei mas que hoje não acho nada interessante que é o Paulo José Miranda. Na mesma linha li um livro do Valério Romão e achei que apesar de tudo ele tem mais recursos. De entre estes novos e mediáticos escritores o único cuja obra eu considero original é o Gonçalo M. Tavares. É um escritor douto,capaz de abarcar um largo espectro de temas, de formas de linguagem, é imensamente culto e consegue trazer essa cultura para dentro dos seus livros.»

Comentário: Calma, não se zanguem. Está tudo bem.


Proclamação: «Penso que, recentemente, há a redescoberta de uma certa fé na poesia aliada a um olhar crítico e irreverente que muito me agrada e que está a acontecer com os poetas muito novos, na casa dos 20/30 anos. Entre eles destaco dois grupos: os criaturistas, Diogo Vaz Pinto, David Teles Pereira e Golgona Anghel ligados à revista Criatura que depois se transformou na editoraLíngua Morta. E os Apócrifos, um conjunto de poetas muito jovens ligados àrevista Apócrifa, cuja primeira antologia vai sair em breve com prefácio meu.Também prefaciei, a pedido da editora [Maripoza Azul], o livro Groto Sato de Raquel Nobre Guerra. Era um bom livro. Infelizmente este novo dela, Senhor Roubado, já achei fraco. Mas o que importa é fazer.»

Comentário:
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segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Não sei se já referi isto neste espaço de cultura, mas a Inês Fonseca Santos desorganiza todos os nossos esforços de construção de uma personalidade, digamos, reponsável

Parafraseando Herberto Helder, «o extremo poder dos símbolos reside em que eles, além de concentrarem maior energia que o espectáculo difuso do acontecimento real, possuem a força expansiva suficiente para captar tão vasto espaço da realidade que a significação a extrair deles ganha a riqueza múltipla e multiplicadora da ambiguidade», ou se quisermos recorrer a um tema popularizado por Marco Paulo, «quando você vem com essa cara de menina levada para a brincadeira, dá-me um arrepio na pele (...)». Não era esta a teoria de Kafka sobre a leitura dos livros fundamentais?

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Para quem se pergunta o que é a crise dos media convencionais, aqui vai um exemplo

Através do blog Ouriquense tivemos conhecimento, arriscamos dizer, do mais consistente projecto crítico em literatura portuguesa, neste momento disponível aos leitores. O autor da referida obra crítica é o escritor Alberto Velho Nogueira, cuja existência desconhecíamos em absoluto (é inútil congeminar teorias) tal como não conhecemos pessoalmente o excelente autor do Ouriquense, responsável por fornecer de forma gratuita ao público, um índice de parte da referida obra crítica de Alberto Velho Nogueira,  remetendo ordeira e organizadamente os leitores, segundo títulos de livros e escritores, para a estimulante prosa crítica.

Um exemplo comprovativo, sobre o aclamado livro de Gonçalo M. Tavares, Uma Viagem à Índia:



Agora, pergunta este cansado autor que vos fala, o que andam a fazer os nossos jornalistas literários, com acesso a jornais e canais de televisão de médio e largo alcance, para só agora termos conhecimento deste blog e através do tenebroso mundo das redes sociais?

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Aquilo a que se chama a filosofia epistemológica

Kate Winslet:

Sai uma sandes de presunto e uma caneca de vinho verde (tinto) para este rapaz que se tem alimentado mal



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segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Televisão em movimento


Para lidar apropriadamente com a quantidade de ideias confusas lançadas nesta prosa poética, seria preciso uma verdadeira legião de autores com o dobro do meu gabarito intelectual e o triplo da minha energia literária, mas como bem sabe o público deste blog, nunca nos negamos ao confronto.

Subscrevemos a primeira afirmação, ou seja: a Cristina Ferreira não só é uma apresentadora de programas populistas da televisão portuguesa, como é também uma apresentadora de programas populistas da televisão portuguesa, sendo que a professora doutora camarada Paula Cosme Pinto, autora do artigo acima supracitado, considera que, em verdade vos digo, a Cristina que muito prezamos Ferreira é também (e passamos a citar, portanto, abrir - perdão - aspas): «uma grande estratega e empresária» e um símbolo vivo da «meritocracia». Recomendamos, neste momento, muita calma. Não vamos referir o investimento em horas de televisão por metro quadrado de área de construção em Malveira da Serra, mas queremos, contudo, dizer algumas palavras sobre gostar ou não gostar do tipo de programa que a Cristina Empresária Estratega Ferreira faz no pequeno ecrã: a relação entre o gosto, o valor comercial de uma marca e a capacidade de gerar audiências é um problema com capacidade para fritar os neurónios à doutora Paula Cosme Pinto, o que, bem tememos, talvez tenha acontecido. O programa é direccionado às massas, massas essas que, em verdade vos digo, concorrem para o sucesso da referida apresentadora, segundo o critério de aferição do que pode considerar-se, a preços de 2016, uma apresentadora de sucesso, ou seja, uma cavalona, digamos, de qualidade estratégica. Mas quantos anos de exposição mediática de homens com bigodinho pagos por uma televisão pública com monopólio da emissão seriam necessários para gerar o referido valor da muito justamente valorizada Cristina Ferreira? Seria justo começar por aqui.

Será que isto belisca a nossa consideração pela condição, digamos, feminina? En-ten-da-mo-nos, se queremos citar o camarada Francisco Louçã, pois o público bem sabe estar, no caso da minha pessoa, na presença de um autor que, inclusivamente, frequentou o mês de Maria, rezou o terço, ajoelhou muitas vezes diante da graciosa e imortal criatura, a estrela da manhã, o berço de virtudes, a cheia de graça, farol do desejo, graciosa mãe natureza, vulgo, a mulher.

Deixando de lado a melindrosa questão acerca do reverencial respeito com que eventualmente se possa misturar chavascal e consideração, perguntamos à doutora professora engenheira Paula Cosme Pinto, de que modo se consegue a atenção de milhões de pessoas sem o recurso a um canal de televisão e à companhia de um desde já por si, apresentador com a atenção de milhões de pessoas, vulgo, Manuel Luís com todo o respeito Goucha? De modo algum queremos aqui beliscar a honorabilidade da referida Cristina Tranca Ferreira, e tudo temos feito neste blogue para a salvaguardar dos vampiros da crítica literária, mas não levemos longe de mais o esforço de justiça, transformando esta questão num problema de índole, digamos, filosófica.

Pergunta, pois, e de lágrimas nos olhos, este famigerado autor que vos fala: quantos anónimos extenuados de trabalho, empenho, profissionalismo, tenacidade, capacidade de criar uma marca em torno de si próprios, continuam a limpar casas de banho ou a levantar graciosamente tabuleiros no centro comercial - com um máximo de televisiva simpatia, eloquência, competência, apetência, suavidade - sem que isso se traduza, digamos, num centésimo do valor conferido pelo sistema de preços, vulgo, carrocel circense em que vivemos? E isto apesar do valor estratégico com que levam o detergente às imundas casas de banho, ou da cabal responsabilidade com que encaminham os hóspedes à porta de um hotel.

No fundo, o Portugal dos pequeninos é o Portugal onde os pequeninos nunca podem, contudo, exteriorizar o seu ódio em paz, ou seja, apenas podem, no fundo, utilizar os recursos democraticamente postos à disposição pelo capitalismo libertário, para fundamentar os pilares da criação de riqueza, oleados pelo ódio (e o desejo) dos referidos pequeninos (quando não incomodam ninguém), e isto num continuado ciclo sofredor que faz as delícias dos doutorados em Economia austríaca com sotaque portuense. Na minha humilde opinião, este estado de coisas tem beneficiado muito pouco o público, no sentido em que as ineficiências de mercado (geradas por tiques de autoritarismo pedante) continuam a representar uma rigidez essencialmente frígida no que ao sistema de preços diz respeito. E isto significa que a valorização dos produtos - se continuamente condicionada por organizações centralizadas, como as televisões - continua a ser cavalgada por uma hierárquica, soviética, católica, apostólica, vitoriana, concepção do público enquanto conjunto de solteironas e solteirões (somos sensíveis às questões de género) muito pouco dados a, digamos, sair das suas, digamos, posições conservadoras, ou se quisermos, dos seus sofás. Vejamos, a título de medição do empenho, um excerto diarístico, da referida Cristina vulgo Ferreira:


Isto não justifica qualquer tipo de insulto, embora revele níveis de empenho e trabalho muito reduzidos, e por isso, convidamos os leitores a pensarem esta relação entre o sucesso da «estratega e empresária» Cristina vulgo Ferreira, e os «valores do trabalho, do empenho, do profissionalismo, da tenacidade, da capacidade de criar uma marca em torno de si própria, partindo do zero».

Na verdade, caríssima psicóloga engenheira doutora juíza Paula Cosme Pinto: não serão as razões do sucesso de Cristina Ferreira bem mais prosaicas (nomeadamente, sorte e tempo de antena) apesar de inteiramente legítimas? Que os projectos comerciais promovam o ódio é justamente compreensível, sobretudo quando milhares de pessoas com o triplo da inteligência e da capacidade de trabalho da Cristina Ferreira não beneficiam das suas condições, nomeadamente, a oportunidade como apresentadora da televisão, um trabalho que consideramos um justo castigo para todas as pessoas ambiciosas. Em suma, a consideração do intervalo entre as capacidades de Cristina Ferreira e a sua remuneração (directa e indirecta) justifica moralmente a difamação? Talvez não, mas seria mais fértil avançar para um enquadramento da referida difamação que não passasse pela consideração topológica e geométrica das pessoas. Entretanto, uma vez que a referida Cristina Ferreira está longe de ser caso único, recomendo ao público calma e paciência.

Por outro lado, e em verdade vos digo, toleramos todo o género de badalhoquice ao nível das cabeças de topo nos sistemas centralizados, mas quanto à liberdade de expressão no espaço público, alto lá, insultos é que não. Entretanto, está tudo bem, a Cristina Ferreira continuará a prosperar, sem revelar especial incómodo pelo ódio da turba de inquisidores, por estar plenamente consciente - e disto estamos também nós plenamente conscientes - da importância da turba na criação do valor de que a própria Cristina vulgo Ferreira se alimenta. Pode dizer-se que a bela e simpática Cristina Ferreira será nisto de um alcance mental a que justamente podemos colocar o epíteto de estratégico. Estou certo de que a mesma compreende cabalmente os insultos que, certamente, em dado momento da sua vida, também lhe terão passado pela cabeça, ou se não passaram, isso certamente se deveu a um particular benefício dos deuses da televisão. Temos pena que neste particular não seja acompanhada por mais pessoas. Por outro lado, o ódio do público nutre-se de uma justificada consciência da exploração das fragilidades civilizacionais, o que de modo algum deve ser negligenciado pelo público, sendo que, digamos, está tudo bem. Que os medíocres colunistas do Expresso ou do Diário de Notícias julguem importante insultar o público dado a insultos, é apenas um sinal de que, digamos, também está tudo bem.

© Revista Cristina

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Tudo o que tu quiseres

A julgar pelas informações continuamente despejadas pelo Facebook sobre as nossas cabeças, os jovens escritores aclamados pela crítica fazem Like, em todos os textos de estrelas emergentes, vulgo, a Alexandra Lucas Espectacularmente Coelho, com toda a sua eloquência supostamente pop, não faltando a nossa sacerdotiza inatingível, a imortalmente bela, a doutora Inês Fonseca Santos. Temos vindo a colocar esta questão do star system, vulgo, amiguismo, seguidismo, surrealismo, sem contudo obter qualquer tipo de resposta. O que nos diz esta escassa informação sobre o mundo em que vivemos? Nada, somos apenas escritores (risos) a tentar viver das suas mais singelas capacidades, a saber, o uso da inteligência,  a saber, uma coisa tão pouco escassa quanto qualquer outro dos humanos atributos, nomeadamente, um pastor chamando as ovelhas, um taxista palitando os dentes, um bombeiro coçando a urgente micose, um lojista vendendo a sua fruta, uma produtora de televisão com os seus lábios maravilhosamente untados com bâton, se for o Curto Circuito da SIC Radical, digamos, friamente, uma bela, uma belíssima rapariga, embora desligada dos frágeis mecanismos das relações (pausa) humanas, o que só podemos compreender, perfeitamente, e em toda a sua plenitude, tendo em conta as calças de cintura (trau) subida, ou seja, os ténis dourados da referida produtora, não apagam, facilmente, o cansaço de uma vida ao serviço do sucesso.

Ocorre-me indagar, pois, qual a razão do sucesso de Pedro Chagas Freitas? Só pode ser, numa palavra, a condição tão humanamente humana das pessoas, tão humana quanto no tempo de Fernandinho Nogueira, o tótó, Pessoa (ainda assim, remetemos o leitor para a miséria do historicismo), uma época em que, tal como a nossa, os familiares da Rita Ferro - da qual ilibamos os seus descendentes humanos de inegável sucesso - estavam prestes a colaborar na entronização de uma solução política de tendência, digamos, anti-democrática, anti-popular, anti-desenvolvimentista (saudações ao camarada José Neves) e anti-digamos, PUM. E isto, sem, no entanto, beliscar o futuro comercial de qualquer projecto editorial, no fundo, aos famosos será mais fácil ter sucesso editorial do que entrar no reino nos céus, o que só pode constituir motivo de esperança para o mundo dos vivos. Seremos camelos ou não seremos. Gostamos muito de sol, aguentamos a extensão do caminho, estamos conscientes da nossa responsabilidade, a saber, constituir um acidente estatístico, ou se quisermos, um milagre, no fundo, aquilo que faz da natureza o particular atributo da natureza, a saber, um espaço contínuo onde os milagres, a preço de sangue e lágrimas, são obrigados a cavar o seu glorioso caminho.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Sentir

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Segundo consta, a autora Cristina Ferreira terá vendido 15 000 livros em três dias, uma marca considerável para o Portugal leitor. Isto, escassos dias depois de Valter Hugo Mãe ter procurado cantar um fado num programa de televisão, no Brasil, seguido por muitos milhões de brasileiros. Não estou inteiramente seguro da relação entre estes dois imponentes eventos, mas o grande livro da natureza terá algures uma linha onde se explica a relação entre o desejo das pessoas e a infinita generosidade das pessoas, uma linha passível de ser representada matematicamente, no sentido de tranquilizar as mentes mais indignadas perante o curso da história. Entretanto, recomendo calma a toda gente. Vai tudo correr bem.


Neste sentido, não há nenhuma evidência no sentido de considerar que uma pessoa gostar de ver gajas na internet seja sinal de superficialidade



Antes pelo contrário, os instintos funcionam a níveis, para utilizar linguagem freudiana, bastante profundos, ainda que não tenhamos qualquer pejo em afirmar que os instintos, por si só, nada explicam, sendo necessário colocar no terreno, para estudo empírico-teórico, toda a parafernália de experiências linguístico-mentais, a que por vezes se dá o pomposo nome de literatura. A psicanálise bem tentou colocar ordem neste albergue espanhol, mas acabou a fazer programas de rádio com mulheres maduras, por sinal, de voz bastante atraente.

Consideramos que recorrer ao conceito de superficialidade para comentar as redes sociais é uma das coisas mais superficiais de todos os tempos

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

No fundo, no fundo, o escritor contemporâneo (com sucesso junto das elites) é um gajo que não aguenta a pressão do progresso

«Chega a ser proibido
O que os meus sentidos
Me dizem em segredo
Para eu fazer contigo»

Mickael Carreira, Tudo o que tu quiseres

Vamos falar de catequese, vulgo, literatura contemporânea, elites, jornalismo cultural, investigação em letras financiada pelo Estado, vamos falar de pedantice, vamos falar de tempo livre, vamos falar de autonomia e liberdade moral, vamos falar de desorientação e ilusão, vamos falar de ideologia universitária e sobranceria moral, vamos falar de pseudo-hegemonia cultural e decadência, vamos falar de um certo descontrolo verbal, vamos falar de imediatismo e preconceito, vamos falar de amor: o mais maravilhosamente plastificado dos conceitos.





















Este excerto chegou-me numa outra rede social e pertence ao aclamado livro de Valério Romão, Autismo. Curiosamente, o autismo é uma patologia tornada visível numa civilização onde domina a cultura hipnótica, repetitiva e obsessiva do alfabeto, e da normalização da linguagem - e por isso, do comportamento - com o seu belo corolário artificial, o livro impresso. Com grande perplexidade seguimos a sinuosa prosa deste autor e não pudemos deixar de alinhavar algumas notas: pelos vistos, a segunda pergunta deste excerto, quer saber se o desejo é um atributo guiado de tal forma que um dado objecto a desejar exclui todas as outras hipóteses de satisfação. Como bem sabemos, ou deveríamos saber, o funcionamento da natureza não corresponde a uma mera repetição das limitadas capacidades humanas. Será necessário utilizar o raciocínio para fazer escolhas, mais ou menos exigentes do ponto de vista das vaginas ou dos pénis com os quais queremos relações de uma considerável, digamos com o Professor Doutor Valério, urgência.

Diria que se estas gentes «se aprontam a meter a picha onde Fellini nunca ousou meter a câmara», para além da péssima imagem, seria motivo para que as referidas gentes merecessem a nossa admiração artística. Sobre a alma, remeto o leitor e a leitora para o catecismo da Igreja Católica, não sou um especialista em metafísica, deixo isso ao critério dos poetas. Por outro lado, não vejo qual a relação entre neurotransmissores, publicidade, maquilhagem e a existência de quaisquer problemas na fornicação de fantasmas, com os quais não devemos excluir à partida o contacto físico, isto se os referidos fantasmas cumprirem os preceitos da elevada lei moral Kantiana, e corresponderem ao nosso juízo estético e moral em torno de uma, digamos, certa ideia de prazer. Mas agora é proibido manter relações sexuais sem estar devidamente apaixonado? Em que universo paralelo a paixão é um fenómeno menos artificial do que a indústria dos cosméticos? Ainda que admitamos um certo automatismo na ideia de desejo, quantas calorias serão necessárias ao trabalho da imaginação para converter uma simples e frágil impressão no poderoso império da paixão?

Apetece-nos recorrer aqui a Mickael Carreira, «O teu corpo é tudo o que vejo» sendo que a passagem das impressões do corpo a uma ideia de paixão mental, só é possível com o concurso de  todos os artificialismos morais, da família cristã ao sadomasoquismo, consoante a maravilhosa e diferenciada cabeça do apaixonado, que é sempre fruto de uma esforçada narrativa, se quisermos utilizar uma expressão cara ao engenheiro José Sócrates.  No fundo, a aclamada literatura (um produto circunstancial da derrota universitária das Humanidades) é a continuação, por outros meios, da cansativa e extenuada catequese vitoriana. Valha-nos Deus.

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Como apreciadores da beleza agressiva, gostamos imenso de livros.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Toy, Levinas ou Blanchot: isto não é uma daquelas merdas para ter piada, aqui falamos muito a sério, ou seja, metemos o nosso pescoço nos carris onde passa impiedoso o mortal comboio da história

C’est dans cette perspective que Maurice Blanchot avançait cette formule admirable de précision et de grâce : « les amants sont ensemble, mais pas encore ». L’amour semble n’offrir qu’une illusion de plénitude. Il dépouille l’Autre qui lui est de fait impénétrable. D’où le paradoxe. Moins qu’une entreprise de destruction de l’Autre, l’amour serait une vaine passion, l’amour essaye de dompter une figure opaque, insensible à la caresse. L’amour est un investissement éperdu, une étrange ascèse, une marche vers l’invisible. Le toi du « je t’aime » n’est jamais mon contemporain. Terminons avec Levinas : Je l’ai choisie pour ce qu’elle avait de merveilleux, de spécial, ou d’unique ; maintenant, « j’aime en elle non pas une qualité différente de toutes les autres mais la qualité même de la différence ». Elle a beaucoup changé.

Mas também seria possível recorrer a Herberto Helder, o poetastro:

De meu recente coração a vida inteira sobe,
o povo renasce,
o tempo ganha a alma. Meu desejo devora
a flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espuma
de crepúsculos e crateras.
Ó pensada corola de linho, mulher que a fome
encanta pela noite equilibrada, imponderável -
em cada espasmo eu morrerei contigo.

E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo


eu morrerei contigo.

Uma espuma de crepúsculos e crateras? A fome encanta? Talvez, talvez, em todo o caso, neste final, é Toy quem triunfa, o poeta sente-se intoxicado pela pirotecnia de imagens bizarras (para não dizemos burguesas) e converte-se aos encantos da utilidade, no fundo, sente os limites da racionalidade e encara a língua de frente, assume corajosamente a sua pobre condição de pessoa que acabou a viver da única coisa que lhe foi possível manejar com uma certa distinção, a língua: «Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo eu morrerei contigo.» Ainda que não estejamos certos de que o poeta esteja disposto a morrer por uma gaja, não sabemos, apesar de tudo, o Toy parece mais convincente. Posto isto, venho informar o público sobre a espectacular sabedoria democrática das nossas vidas empurradas umas contra as outras, de onde tem resultado uma esforçada mas inequívoca marcha em sentido de um Kantiano e germânico progresso. Quer isto dizer que o caminho é fácil? De modo nenhum, se fosse fácil era para os outros. Como diria Rui Vitória, não estou nada focado nesse tipo de coisas, é preciso encarar cada jogo com seriedade e ter alegria em jogar, mas que isto não nos distraia das nossas responsabilidades, o progresso, atentos aos sinais do grupo, do colectivo, da soma desta maravilhosa espécie a que pertencemos e temos orgulho em pertencer. Como sinal e prova dos fundamentos pelos quais norteamos as nossas decisões aqui fica o exemplo. Podemos interpretar o amor à luz dos textos de Blanchot, ou podemos ouvir Toy que diz - o senhor, a natureza, a humanidade e a semiótica sejam louvados - a mesmíssima coisa de forma mais económica, mais democrática, mais transparente, mais exígua e travejada, numa palavra, de forma mais racional.

Porque é que eu vou ao teu encontro se nem me vês/ porque é que me arranjo e me apronto, fico a teus pés/ (L’amour semble n’offrir qu’une illusion de plénitude) vou fingindo que até nem percebo que te sou indiferente/ E apenas por uma palavra que tu me dirijas, eu fico contente/ Porque é que eu prometo a mim mesmo não mais te ver/ e no dia seguinte procuro me convencer/ porque ainda é possível quem sabe, voltar a ter carinho/ nessa esperança procuro falar-te mas acabo sozinho/ (Il dépouille l’Autre qui lui est de fait impénétrable) Estupidamente apaixonado (D’où le paradoxe) quem me manda ser assim/ a culpa é minha por sofrer (l’amour serait une vaine passion, l’amour essaye de dompter une figure opaque, insensible à la caresse) com a mania de viver à espera que gostes de mim/ estupidamente apaixonado 
é mais forte do que eu/ tenho a certeza vou deixar a vida inteira para te amar porque o meu coração é teu. Terminons avec Levinas (j’aime en elle non pas une qualité différente de toutes les autres mais la qualité même de la différence).

A quem explicar a diferença entre o José Maria Varia Mendes e o Pedro Chagas Freitas, ficaremos eterna e penhoradamente agradecidos e ofereceremos um disco de Toy.

A Inês Fonseca Santos (aguilhão torturante das nossas manhãs, sacerdotisa do nosso ofício de viver, farol do nosso desgovernado desejo, pináculo de todos os nossos esforços catedralícios para sermos pessoas reconhecidamente pessoas) entrevistou mais um monumento de emoção, sensação, tentação, absorção, o grande, o único, o profundo, José Maria Vieira Mendes, autor das linhas que se vão seguir:

«Prefiro assim. Detesto perceber as pessoas. As pessoas que percebes não têm piada nenhuma. Normalmente são pessoas que não são pessoas. Quer dizer, são pessoas que são assim uma imagem de qualquer coisa que elas imaginam que é uma pessoa. Pessoas que se querem fazer perceber. Não consigo perceber. Não consigo perceber essa necessidade. E portanto também não percebo essas pessoas. Se calhar é como não te perceber a ti. Mas não é a mesma coisa. É diferente, é. Não sei explicar melhor do que isto.»


sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Apesar de todos os acontecimentos histórico-histéricos, nós, os verdadeiramente derrotados, vamos continuar a manter níveis de calma em posições espectacularmente elevadas

Professor Lord's book, like the studies of Milman Parry, is quite natural and appropriate to our electric age, as The Gutenberg Galaxy may help to explain. We are today as far into the electric age as the Elizabethans had advanced into the typographical and mechanical age. And we are experiencing the same confusions and indecisions which they had felt when living simultaneously in two contrasted forms of society and experience. marshall mcluhan, gutenberg galaxy, 1962



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