segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Progressista - escrito como quiserem! Ricardo Araújo Pereira e os perigosos inimigos invisíveis.

Ricardo Araújo Pereira (RAP) é um homem inteligente, deixemos desde já estabelecido este ponto, como serviço aos leitores que, militantes na causa das vitórias garantidas, já afiam os dentes na áspera lima das suas mórbidas expectativas, e partem do princípio que vamos aqui atacar o talento humorístico ou a capacidade estratégica do maior humorista português dos últimos, digamos, vinte anos. Contudo, caros camaradas, a inteligência é uma propriedade fisiológica, não um método infalível. E sendo uma propriedade fisiológica, tendo em conta o que julgamos conhecer quanto à estrutura evolutiva do nosso ecossistema, enfrenta crescentes desafios, consoante o ambiente se torna aparentemente mais dócil para o indivíduo na sua progressão, íamos a dizer labuta, diária. O que hoje constitui uma deliciosa facilidade, pode revelar-se a horrorosa tragédia do amanhã: eis a grande lição de mais de dois mil e quinhentos anos de literatura estóica. Acontece, todavia, aos melhores, o serem amolecidos pela aclamação precoce. Creio que foi (e é) esse o caso de RAP no seu último livro, Reaccionário com Dois Cês, Rabugices sobre os Novos Puritanos e Outros Agelastas, Tinta da China.

Para poupar os leitores a uma análise fastidiosa, vou abordar o texto impresso na badana do livro, até pelo poder simbólico que representa na economia do sistema editorial.



No texto que serve de aperitivo ao perspicaz livro de compilação das suas Crónicas, RAP constrói uma situação absurda, em que pretende revelar a pouca inteligência dos utilizadores das redes sociais. Vejam bem, falamos aqui dos utilizadores das redes sociais, isto é, nós mesmos, que somos tolinhos e não atingimos o significado oculto das nossas acções populistas, demagógicas e pouco esclarecidas. Utilizadores que, na sua boçal compreensão das coisas, sujeitam os corajosos, sensíveis e espectaculares produtores de conteúdos de valor cultural reconhecidamente excelente, a um rol de interpretações delirantes. E que faz RAP para erigir esta crítica sobre o delírio da internet? Resolve teletransportar Shakespeare para os nossos dias, submetendo-o à violência bárbara e obscurantista de uma alegada italiana farmacêutica, natural de Verona e utilizadora do Facebook. Percebemos perfeitamente onde RAP pretende chegar e estamos solidários com a sua luta. E isto apesar de por vezes cometermos o nosso imperdoável pecado, a saber, sermos detentores de uma opinião crítica sobre a realidade, baseada em, digamos, valores «politicamente correctos».

Acontece que o absurdo da situação se revela relativamente pouco absurdo, na nossa modestíssima opinião. E quase temos vergonha de o dizer, caros leitores, para não melindrarmos a liberdade de expressão de ninguém.

Sobre o facto de a simpática farmacêutica italiana de Verona - imaginada por RAP - ter ficado indignada com a facilidade de aquisição do veneno, comprado por Romeu a um pobre Boticário, deve assinalar-se que o próprio Shakespeare foi bastante cuidadoso com esse aspecto. Podemos dizer, com a coragem que nos caracteriza, que o poeta e autor de Romeu e Julieta chegou mesmo a ser, digamos, «politicamente correcto». Pois deixa bem claro no texto da peça, pela própria boca do Boticário, como a lei de Mântua punia com a morte quem vendesse ao público aquele veneno letal. Eram cuidadosos os cidadãos de Mântua. E vergonhosamente, politicamente correctos. Se Shakesperare fosse utilizador das redes sociais, talvez, ele mesmo, considerasse uma infâmia não se ter esclarecido o público sobre esse curioso aspecto.

Que a página do Globe Theatre fosse invadida por centenas de mensagens, também não nos parece uma situação insólita. Na época tinham métodos bastante mais eficazes para expressar o politicamente correcto, nomeadamente, o encerramento do teatro, a prisão dos autores e dos actores, ou simplesmente a monumental vaia, a interrupção da peça, ou o civilizado pontapé directamente aplicado ao rabo dos artistas.

Sobre a mensagem negativa de Romeu e Julieta, quanto ao universo problemático dos jovens adolescentes, que a preocupada mãe de Verona e farmacêutica - imaginada por RAP - julgou necessário noticiar nas redes sociais, para aviso dos futuros amantes, julgamos que, sobretudo neste aspecto, não andará a bela italiana de Verona longe das intenções de Shakespeare ao escrever a peça.

Antes de mais, um ponto de ordem. Se estamos realmente na posse das nossas faculdades mentais (o que não é garantido) julgamos ter compreendido o sentido da ironia do nosso inteligente humorista, RAP. A histeria crítica do nosso tempo - a que alguns chamam o integrismo ou puritanismo do «politicamente correto» - se existisse na época do bardo inglês, teria inibido o poder criativo de Shakespeare. Teria implicado com os poderes artísticos do maior poeta de todos os tempos. Dito de outro modo, se Shakespeare existisse hoje, talvez a sua gloriosa imaginação estivesse (esteja) a ser reprimida por esses infames inquisidores do «politicamente correcto».

Contudo, sou forçado a dizer (embaraçosamente) que Romeu e Julieta é - precisamente - uma peça sobre o «politicamente correcto» e não precisamos de ser escravos da preocupação com as redes sociais para interpretar cabalmente o assunto.

A peça começa com um edital ou a publicação de uma Lei - como muitas das peças de Shakespeare - na tentativa de estabelecer a ordem, perante o desconcerto do mundo. O que revela, desde logo, uma certa ansiedade com a repressão dos comportamentos. Ou seja, Shakespeare era um homem preocupado com o «politicamente correcto». Qualquer pessoa que participasse em distúrbios ou confrontos públicos na cidade de Verona, seria punida com a morte. Shakespeare estaria preocupado com a escalada de violência na sociedade em que vivia, e fez decorrer a acção sobre o absurdo irracional de todos aqueles que, desobedecendo à lei, consideravam os interesses de família, direito e propriedade, superiores ao amor  selvagem entre duas mentes rebeldes. Ou muito me engano, ou isto soa um bocado «politicamente correcto». Mas estamos contigo, RAP, e não nos deixaremos perturbar.

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Vamos deixar de lado o facto de Shakespeare ter escrito Titus Andronicus (1592-1594) antes de Romeu e Julieta (1594-1596) pois são pormenores eruditos que não interessam à luta pela liberdade. Com efeito, são muitos os temas que na Lamentável Tragédia de Romeu e Julieta, poderiam ter sensibilizado RAP a construir uma reflexão sobre o mundo em que vivemos. O ataque à luta feudal entre duas poderosas famílias - considerando que as dinastias familiares e os seus fetiches de poder (que o diga a Sonae) já não serviam como fundamento da realidade, numa sociedade cada vez mais entusiasmada com o comércio e os direitos dos indivíduos. Mas RAP não quis abordar o mundo diurno da lei, dos livros e da autoridade, com as suas regras de conduta rígidas, crescendo ameaçador sobre os sonhos de prazer da juventude. Nem mesmo a forma como o velho Capuleto ameaça a sua filha, se esta continuasse a rejeitar a autoridade do pai e a recusar o casamento com Paris, arriscando Julieta, nada mais, nada menos do que a expulsão de casa, da protecção e do conforto, com a multiplicadora violência que esta ameaça lançava sobre uma jovem mulher. Curiosamente, caros leitores (e contra mim falo, de lágrimas nos olhos) Romeu e Julieta - tal como o debate que hoje ameaça engolir-nos - é sobre o direito das mulheres exercerem a sua justa parte num mundo governado por homens. Homens com poder, quase sempre, com alguma tendência para serem parvos e abrutalhados.

Photo of Claire Danes from Romeo + Juliet (1996)

Em todo caso, Shakespeare - e lamento desiludir RAP - está bastante preocupado com as mensagens negativas em torno dos adolescentes, tal como a farmacêutica de Verona, utilizadora do Facebook. Se estivermos atentos à peça, veremos que a criada de Julieta faz menção de recordar - irónica e provocadoramente - como tinha perdido a virgindade aos doze anos. Na verdade, Julieta vê-se confrontada com uma decisão de casar com um homem indesejado, ainda antes de fazer catorze anos. Se RAP estivesse um pouco mais atento (embora compreendamos que a sua luta é exigente e monopolizadora) teria percebido que esse é precisamente o tema central da peça.

Dirão os corajosos defensores da liberdade contra os esbirros do politicamente correcto: «a ironia de RAP pretende apenas denunciar como a deriva inquisitorial dos bons costumes corre o risco de inibir ou reprimir, ou até impedir, a expressão artística no seu mais elevado nível de realização». Certo, estaremos todos de acordo, embora, do meu ponto de vista, os critérios que permitem uma elevada realização artística dificilmente podem ser relacionados com o aumento ou a diminuição da liberdade de expressão, com muita pena o digo.

Ricardo, se me está a ouvir, deixa-me dizer-te: Romeu e Julieta é uma peça sobre o conflito de gerações e a incapacidade de compreender os riscos e a beleza das paixões (aparentemente irracionais) dos novos tempos e dos seus mais frágeis filhos, os mais jovens. A geração mais velha, presa nos seus livros, na sua sabedoria arcaica (e muitas vezes elitista) nos seus direitos de propriedade, nos seus feudos, revela-se quase sempre incapaz de compreender a nova realidade e as suas circunstâncias, a começar por novas formas de amor (pois é, pois é).

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Romeo + Juliet (1996) de Baz Luhrmann com Claire Danes (Julieta) e Leonardo DiCaprio (Romeu). 

Compreendemos que a manutenção de poder dos meios de comunicação de massas seja um tema caro a quem ganha a vida nos meios de comunicação de massas e teme a boçalidade da multidão. Shakespeare também viveu essa angústia, mas revelou-se progressista, abraçou o mercado do teatro isabelino, onde a concorrência era forte e o público soberano, por isso o bardo se apressa a dizer, logo no Prólogo de Romeu e Julieta: «se quiserem ouvir com benévola atenção, o nosso zelo há-de esforçar-se por corrigir o que na peça acharem digno de emenda». Inaceitável contemporização diante do público. Mas perdoemos Shakespeare, pois era um homem «politicamente correcto».

Compreendemos que um humorista como RAP não possa perder tempo com estas ninharias, ocupado a enfrentar multidões perigosas furiosamente teclando nos seus computadores, multidões que vandalizam com horrorosa cacofonia as páginas de Facebook das editoras, dos jornais de referência e das televisões e chegam mesmo a fazer ameaças perturbadoras como: «isso que o senhor disse é machismo». Quem pode resistir a ataque tão violento como este? Quem pode ficar impassível quando os valores da liberdade são atacados por mulheres sensíveis e alfabetizadas?

Compreendemos que RAP tenha de enfrentar irascíveis cardeais munidos com caldeiras de água benta, e donas de casa católicas, frequentadoras dos cursos espirituais dos jesuítas, e perigosas associações de pais de liceus prestigiados, e ameaçadoras advogadas de associações de protecção às vítimas, e selváticas e perigosas jornalistas do Diário de Notícias, e membros de coros alentejanos, e agremiações defensoras da moral pública, com o seu tentacular poder, e ferozes membros da associação dos amigos dos animais, e militantes de grupos activistas defensores da macrobiótica. O número de oponentes cresce todos os dias. Os idosos e reformados já se posicionam para atacar a liberdade e defender os bons costumes. Todos os braços são poucos para travar esta perigosa luta. O inimigo multiplica as suas forças, gerando milhares de pequenos balões de mensagens nas letais caixas de comentários.

Felizmente, temos homens como RAP. Homens que nunca deixarão de lutar em favor da liberdade, apesar de apenas podermos ouvir a sua voz nos frágeis e ameaçados espaços de informação como a TVI24, a Sport TV, a TSF, a Visão ou a Rádio Comercial. Apesar de frágeis, continuarão o seu corajoso trabalho. Não deixarão pisar a dignidade ortográfica da língua.

Guerras, injustiças, desigualdade económica, poder mediático das televisões e dos grandes grupos de comunicação, violências sobre as mulheres, racismo? Que são todas essas ninharias perante a escandalosa supressão de uma consoante surda?

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

A Estranha Ordem das Coisas e a bizarra preguiça intelectual de António Damásio

A ciência está a entrar na sua fase totalitária - o que é uma pena, mas talvez seja uma fase inevitável de qualquer projeto cultural agressivo - e o novo livro de António Damásio, A Estranha Ordem das Coisas, aí está para o provar. 60% do livro (o que não consiste em descrições seguras da biologia evolutiva do cérebro) é formado por banalidades, lugares comuns (e algumas imprecisões) a propósito das culturas humanas. Não tenho por hábito diabolizar a ciência, antes pelo contrário, prefiro diabolizar as Humanidades, mas desta vez julgo que atingimos a fase imperialista do cientismo.

É como se o Boaventura Sousa Santos publicasse um livro resumindo - de forma tosca, rápida e atrapalhada - os últimos 50 anos de publicações nas neurociências, mas omitindo ou lendo apressada e erradamente o contributo dos principais cientistas, e perante esse facto insólito, toda a gente baixasse reverentemente a cabeça. Não pretendo policiar o direito dos neurocientistas dizerem banalidades sobre a cultura. Eu próprio vivo da publicação de algumas banalidades sobre todos os assuntos disponíveis, incluindo a pesca do atum. Já me parece mais preocupante que ninguém até ao momento (que eu saiba) - nem sequer os antropólogos - tenha reagido publicamente a um livro cuja ambição não me parece minimamente adequada às capacidades reveladas pelo autor ao longo do livro. Deixo apenas um exemplo.

Uma parte do que é apresentado como novidade - a precedência (ou pelo menos a enorme relevância) dos sentimentos na criação das culturas humanas (e só esta expressão já faz corar de vergonha uma pessoa educada) - é um problema profundamente discutido, sem conclusões definitivas, na Antropologia, sobretudo desde os artigos de Cliford Geertz, publicados nos anos 70 e 80, para não falar em Levi-Strauss que Damásio arruma numa nota de rodapé, citando bizarramente um único trabalho L'Anthropologie face aux problèmes du monde moderne. Já não refiro Michel Foucault – que o autor despacha sem qualquer referência concreta e ainda dizendo que o seu título (A Estranha Ordem das Coisas) nada deve à publicação em inglês de As Palavras e As Coisas, traduzido como The Order of Things, sendo que Foucault pouco mais fez do que escrever, durante trinta anos, sobre a armadilha das simplificações, na interpretação biológica da natureza, bem como sobre a manipulação cultural dos sentimentos, ou seja, sobre a dificuldade de os interpretar fora de uma ordem (relativa) discursiva.

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Damásio refere que a linguagem e a sociabilidade desfilam na história cultural mas não os sentimentos. Talvez por ser difícil dizer mais do que banalidades funcionais sobre os sentimentos, sem recorrer à linguagem. Eu, que sou um ignorante, tenho a ligeira sensação de que a formação da mente cultural é associada pela tradição da história natural (e pelas Humanidades) à linguagem, precisamente por se identificar que o salto qualitativo e significativo, não se compreende sem a linguagem e a complexidade descritiva (dos estados interiores e da relação com o ambiente) implícita na quase infinita gama de possibilidades permitida pela linguagem (e não pela maquinaria biológica básica sentimental). Podemos explicar por sinais (e analisar como fez Darwin) as expressões faciais, mas isso não permite avançar um milímetro na compreensão da evolução das culturas humanas. Como o próprio Damásio reconhece várias vezes, varrendo a contradição para baixo do tapete, as origens da maquinaria sentimental são humildes e comuns a outros animais. Eureka! Daí os cientistas sociais e biólogos terem escolhido a linguagem (e não uma coisa tão difícil de interpretar como os «sentimentos») para momento chave na evolução cultural. Além do mais, a linguagem é a porta (por excelência) para a análise dos sentimentos, como o próprio Damásio reconhece também, invocando a importância da literatura, e definindo Shakespeare como o maior especialista na sua área. Não se percebe então, para lá da graçola nos jornais, a razão de não ter recorrido a Shakespeare para estruturar o seu livro. Seguramente, a coisa tinha corrido melhor, na forma e no conteúdo.


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Sobre a novidade implícita no livro.

Deixo um excerto de Geertz (inteiramente ignorado no livro, talvez trocado por coisas mais actuais, mas serôdias - o primeiro erro do cientismo é considerar a novidade cronológica como valor em si) com respectiva citação, para os interessados pesquisarem depois, se quiserem, e confrontarem com algumas das banalidades escritas por Damásio (quando fala de cultura e história cultural) e para os desconfiados a quem passa pela cabeça neste momento a hipótese de eu ser um pobre pedante, sem noção dos meus limites e indiscutível estupidez, por descrever nestes termos o trabalho do senhor professor doutor António Damásio.

«And therefore, the development, maintenance, and dissolution of "moods," "attitudes," "sentiments," and so on - which are "feelings" in the sense of states or conditions, not sensations or motives - constitute no more a basically private activity in human beings than does directive "thinking." The use of a road map enables us to make our way from San Francisco to New York with precision; the reading of Kafka's novels enables us to form a distinct and well-defined attitude toward modern bureaucracy. We acquire the ability to design flying planes in wind tunnels ; we develop the capacity to feel true awe in church. A child counts on his fingers before he counts "in his head"; he feels love on his skin before he feels it "in his heart." Not only ideas, but emotions too, are cultural artifacts in man. Given the lack of specificity of intrinsic affect in man, the attainment of an optimal flow of stimulation to his nervous system is a much more complicated operation than a prudent steering between the extremes of "too much" and "too little." Rather, it involves a very delicate qualitative regulation of what comes in through the sensory apparatus ; a matter, here again, more of an active seeking for required stimuli than a mere watchful waiting for them. Neurologically, this regulation is achieved by efferent impulses from the central nervous system which modify receptor activity.» 

Geertz, The Growth of Culture and the Evolution of Mind, The Interpretation of Cultures, Basic Books, 1973, pp. 81-82.

 Esta "novidade" foi publicada em 1973.


Camaradas! Não se trata aqui de esgrima sobre notas de rodapé. Trata-se de uma guerra pelo estatuto e mais uma prova de como as Humanidades estão em irreparável perda, em parte por culpa própria, por ignorância, cobardia e situacionismo dos senhores professores doutores em Humanidades. Todo este ensaio de Geertz é impressionante - e fundamental para o tema abordado por Damásio - e posso garantir que dificilmente lerão algo tão rigoroso e profundo, no que respeita à relação entre sentimentos, evolução, mente e cultura, no livro de António Damásio. O livro A Estranha Ordem das Coisas merecia uma estranha discussão à altura da terraplanagem nele contida, mas suspeito que o silêncio vai reinar como uma imperatriz asiática.

Isto é decisivo para o ponto principal desta minha esfusiante indignação: Damásio parte de uma ideia - a de que os sentimentos são um motor decisivo das culturas - apresentando-a como novidade, ou seja, lançando para o caixote das irrelevâncias três séculos de estudos em Humanidades. O que dizer do total silêncio a que vota Rousseau, um homem para quem, até às suas dolorosas lágrimas derramadas na estrada de Vincenne, a enorme preponderância dos sentimentos não tinha sido tida em conta na análise da cultura, das artes e das ciências?

Não resisto a brindar o leitor com uma entusiasmante novidade:

«Pretende-se que a linguagem dos primeiros homens corresponda à língua dos geómetras, mas o que nós vemos é que ela tem antes que ver com a língua dos poetas. E assim deve ter sido. Não se começa por raciocinar mas por sentir. Diz-se que os homens inventaram a fala para exprimir as suas necessidades, mas esta opinião parece-me insustentável. (...) Qual seria então a sua origem? As necessidades morais, as paixões. (...) Não foram nem a fome nem a sede mas sim o amor, o ódio, a piedade ou a cólera que pela primeira vez soltaram a fala dos homens. (...) Os frutos não nos fogem das mãos, podemo-los comer calados; é também em silêncio que se persegue a presa que se pretende abater - mas para conseguir comover um coração ainda inocente ou afastar um agressor injusto é a natureza que nos dita os seus acentos, exclamações ou lamentos.» 

Esta simples conclusão acerca da importância dos sentimentos na história cultural - apresentada por Damásio como novidade - foi escrita por Jean-Jacques Rousseau, no Ensaio sobre a Origem das Línguas, provavelmente, entre 1753 e 1756 e publicada apenas postumamente em 1781. (edição portuguesa, 1981, Estampa, pp. 47-48)

Isto acontece, apesar de António Damásio referir logo no prefácio como as Humanidades são importantes. Sim, importantes, sobretudo como público comprador dos seus livros e consumidor da sua ciência, e para utilizar como emblema na lapela do casaco, citando Shakespeare, pois a forma olímpica como Damásio contorna a biblioteca das Humanidades, o que empobrece o seu trabalho, é verdadeira e espetacularmente, digamos, acrobática. 

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Com a exceção de Hume, Marx, Durkheim, Freud e o inclassificável William James, Damásio praticamente não considera relevante abordar as ideias de autores provenientes da tradição histórica, filosófica e antropológica. Chega a falar da forma como se tem negligenciado o intestino como fenómeno de equilíbrio homeostático, quando para além dos gregos (não exijo o conhecimento de toda a tradição peripatética) por exemplo, Nietzsche escreveu e muito sobre o tema. E o que dizer da lateralização de Adam Smith e das suas impressionantes tentativas de circunscrever uma teoria dos sentimentos morais? A leitura de Smith teria impedido Damásio de escrever os confrangedores parágrafos a propósito de lucro celular, lucro social e ganância.

Para os mais desatentos, o que Damásio acaba por fazer, mesmo involuntariamente, prolongando um imortal debate, é defender a precedência de uma natureza universal (neste caso sentimental) sobre a cultura, com tudo o que isso significa de homérica ignorância sobre a força do hábito, e das segundas naturezas, e sobre as armadilhas dos projetos educativos e éticos, baseados em coisas tão imprestáveis como o conceito de virtudes clássicas. Como já dizia Tucídides, «sagradas são as armas quando só nelas reside a esperança». Talvez Damásio queira explicar a sua teoria educativa aos terroristas, quer os árabes, quer os cristãos, ou talvez os considere como ignorantes, a precisarem de ser educados, ou doentes mentais, a precisarem de internamento, ou talvez reconheça que o contexto das culturas humanas evolui sobre as manipulações da linguagem, a retórica e a escultura dos «sentimentos» e que a compreensão das coisas implica sempre uma certa violência sobre as coisas.

Como não sou um guru académico, não vou cair na tentação de me pronunciar sobre o tema, e fujo cobardemente para a minha irrelevância, mas não deixo de vislumbrar - e este é o sentido deste longo, desagradável e aborrecido post - um certo facilitismo da parte de António Damásio. O que me custa, num autor pelo qual sinto (lá está) um certo respeito.

Deixo uma prova final com a retumbante conclusão a que Damásio chega depois de milhões de anos de análise do caldo de bactérias até às sinfonias metafóricas do Livro do Desassossego, de Bernardo Soares, com que nos brinda para nos elucidar – como se fosse preciso, valha-nos Deus - sobre a complexidade da relação entre sentimentos e consciência:

«A educação, no sentido mais vasto do termo, é o caminho óbvio a seguir. Um projeto educativo a longo prazo que tenha como objetivo criar ambientes saudáveis e socialmente produtivos terá de destacar comportamentos éticos e cívicos e de encorajar as virtudes morais clássicas - honestidade, bondade, empatia e compaixão, gratidão, modéstia.» A Estranha Ordem das Coisas (p. 307).

Saúde e Produção. Ética e Cidadania. Valha-nos Deus, pela segunda vez! Se isto é o que um especialista sobre a Vida, os Sentimentos, as Culturas Humanas (um tema supermodesto, note-se) tem para nos dizer, estamos perdidos. Consta que no Médio Oriente tentaram este projeto educativo, há cerca de 2000 anos, e não tem corrido muito bem. Em parte devido à nossa propensão (Ocidental) para a saúde e a capacidade produtiva.

 Walking to school in  Syria via 

No fundo, António Damásio prescreve como modelo para a educação da humanidade o professor doutor António Damásio.

Bem sei, o professor doutor António Damásio trabalha respeitosamente dentro das disciplinas mas quer dinamitar os limites das disciplinas. Contudo, não se pode ter sol na eira e chuva no nabal, como bem diz o povo, que não vai à escola, mas tem sentimentos.

terça-feira, 27 de junho de 2017

O homem pré-histórico, a dor emocional e João Tordo

Nada tenho contra o autor multi-premiado João Tordo, e digo isto com toda a sinceridade que me é possível, tendo em conta o facto de me terem sido concedidos, no atrapalhado e aleatório processo de evolução, um sistema nervoso, competências sociais e linguagem natural dotada com o poder da ambiguidade, mas as reacções apaixonadas dos leitores, e acreditando na escassez de intencionalidade individual implícita na natureza humana, levam-me a esta torturante e infinita missão de compreender os para mim desesperantes enigmas do comportamento em rede, e dou por mim a ler críticas literárias de jovens mulheres, no GoodReads, tal como a que vai seguir-se:


Ser-se português implica carregar todo um legado emocional. Se é verdade que o sentimento saudade só tem palavra definida na nossa linguagem, também é verdade que existem pequenas particularidades que parecem ser encontradas só na nossa gente. A literatura portuguesa tem-se mostrado, nos grandes romancistas, recheada de uma profundidade que é raro encontrarmos na literatura estrangeira. Não falo de complexidades ou genialidades, falo antes de uma capacidade em explorar emoções e locais intrincados da mente humana no que toca ao relacionamento do eu consigo mesmo e do eu com os outros. Estreei-me na escrita de João Tordo com Biografia Involuntária dos Amantes e não demorei muito a aperceber-me que estava perante um escritor com essa capacidade. O luto de Elias Gro, embora num registo diferente, confirma esse talento nato, de alguém já amadurecido na escrita e capaz de enfrentar as suas próprias sombras.

E remata com um excerto do referido livro, O Luto de Elias Gro da autoria do próprio João Tordo:

"Parece que o lugar onde estamos nunca é suficientemente agradável. Deixa-me ver se acolá se está melhor. E, quando lá chegamos, percebemos afinal que a vida também estava a acontecer onde estávamos. Mas agora já estamos acolá e não podemos regressar, porque a vida também acontece acolá."

Vamos deixar por agora esta variação primária, da autoria de João Tordo, sobre um tema original de António Variações, Estou Além, e concentrar a nossa atenção sobre o que nos diz esta simpática leitora que vou manter no anonimato. Quero sublinhar uma afirmação da jovem leitora, quando na posse de uma invejável lucidez diz: Não falo de complexidades ou genialidades, falo antes de uma capacidade em explorar emoções e locais intrincados da mente humana no que toca ao relacionamento do eu consigo mesmo e do eu com os outros. Apetece-me assinalar aqui a enorme generosidade das mulheres, como dizia Vinicius de Morais, colocadas no mundo «só para sofrer pelo seu amor e ser só perdão», não creio que restem dúvidas sobre isso.

Queridos leitores, não quero ser mal entendido! Nesta altura do campeonato já não tenho saúde, idade ou peso para condenar a experiência psico-motora dos meus concidadãos quando se sentem democraticamente representados na página de um livro. A minha perplexidade é sincera, fruto de uma intratável curiosidade mórbida pelo amor gratuito e injustificado, e decorrente de um filtro lógico (imposto à minha mente por um misto de disciplina escolar e recusa da autoridade) viciado em compreender padrões de adesão à realidade. 

Bem sei que um teste sobre a cultura literária (e as competências analíticas e linguísticas dos leitores) nos desvendariam, com excruciante simplicidade, a chave destas problemáticas relações sociais de produção de gajas e gajos apaixonados por livros cheios de tralha sentimental, sem ponta de compreensão sequer da ponta de um corno de um touro de Benavente, quanto mais sobre os locais intrincados da mente humana no que toca ao relacionamento do eu consigo mesmo. Uma das características do eu na relação consigo mesmo é a incapacidade de saber de que forma o eu dos outros se relaciona com eles mesmos. Neste domínio, recomendo um vídeo de Gustavo Santos.

Sabemos bem como tudo isto resulta da liberal desigualdade na distribuição de motores de busca adequados à procura de sentido para o absurdo medo do mundo em que vivemos, num tempo em que a religião deixou de ser socialmente aceitável. As pessoas (e bem) ficaram entregues a si próprias, e invadiram desesperadas as livrarias, em busca de um texto onde a sua incapacidade de subjugar os outros pela inteligência (ou o poder profissional e financeiro) encontre o justo (e generoso) correlato de uma cura para as dúvidas sobre as suas próprias inseguranças. 

Em cima de uma linguagem saturada de palestinianos pescadores de sandálias e platonismo filtrado pelo voluntarismo semita (repetida incansavelmente aos nossos ouvidos durante dois milénios) os sacerdotes descentralizados da pós-modernidade (os cultores da palavra impressa) já muito encostados à parede pela jargão da psicologia popular (os lugares emocionais, as feridas da memória, os amores feridos) vão agora, esfarrapados e esfomeados, recolher pobres leitores perdidos nesse gigantesco subúrbio formado pelos corações atribulados da sociedade do (risos) conhecimento. Sofrem as mulheres (em maior número, na medida em que sempre foram o público mais dotado em capacidades de organização do tempo e interesse pelo que os homens confusos têm a dizer) e sofrem os homens apanhados nas garras da sentimental-literatura-premiada pelo desejo de negociar em espécies raras.

Será justo libertar o riso por cima desta Tragédia? Sim, pois não se trata de uma tragédia mas da vida de todos os dias, em que é necessário respeitar o adversário, mas não dar tréguas à ignorância, ao oportunismo e à falta de respeito pelas pessoas, mesmo, ou sobretudo, as que não devem ser tratadas como atrasadas mentais só porque não possuem um Doutoramento em Sociologia dos Transgénicos Pouco Apreciados por Tatuados Comedores de Saladas Biológicas Com Familiares Afro-Ameríndios. Claro que a reacção mais evidente será a de recusar um discurso, neste caso, o meu, assente na expressão eventualmente grosseira de um julgamento (eventualmente sobranceiro e cruel) sobre a trapalhada sentimental em que labora o projecto literário de João Tordo. Afirmativo, como dizem os agentes da autoridade, é essa a beleza de sermos todos diferentes (em diversa relação com o nosso eu e com o eu dos outros) onde acresce o facto de eu ser um gajo particularmente irritante (muitas vezes em desacordo com o meu eu) e apostado em diversificar a fauna do nosso mundo literário. Nesse sentido, queridos amigos, vou partilhar convosco um texto de trabalho, acompanhado por materiais didácticos.

 Aos 4 minutos e 54 segundos do instrutivo vídeo que o estimado leitor pode ter a oportunidade de visualizar no link abaixo, o companheiro de luta João Tordo profere as seguintes afirmações, e passo a citar:

«Como é que eu lido com o sofrimento? Quando eu escrevi o livro percebi alguma coisa sobre o sofrimento que eu não tinha percebido antes, no sentido em que, quando eu terminei o romance... (pausa, confusão mental, curto-circuito, bzzzzzzz, prossegue em esforço) Nós temos uma relação física com a dor que é muito óbvia, quando eu parto um braço (João Tordo agarra o pulso) ou se me dói aqui (João Tordo aponta para o ombro esquerdo) eu vou ao médico e trato o braço, ou trato aqui (João Tordo, um pouco atordoado, aponta para o ombro esquerdo, já visivelmente aterrorizado pela trapalhada em que se meteu) e sei instintivamente que o sítio onde está a dor física é o sítio onde a dor se cura (bzzzzzzz, pfrrrrrrrrr, válvulas em alta pressão, perigo de colapso na cabeça do João Tordo, ó rodas e engrenagens rrrrrrrr eterno! e prossegue em esforço) ou tem a possibilidade de chegar à conclusão. (João Tordo faz nova pausa, olha para o infinito, e de uma forma decidida, corajosa, autoritária, impenitente, remata para a conclusão). Na dor emocional a coisa é muito diferente. Porque na dor emocional, na dor emocional a nossa resposta é a fuga (pausa para pensar, pânico, dúvida existencial, e prossegue). E isto é assim, desde sempre (riso embaraçado, encolher de ombros, pânico, dor física no intestino, vontade de fuga, mas prossegue) Já se falava, já se falava dos homens, do, dooo, doooo, os homens pré-históricos, o homem pré-histórico reagia assim também, os, os, os, tinham três comportamentos, luta (com as mãos abertas, querendo agarrar a fugidia ideia pelos cornos) fuga e paralisia  (olha para o entrevistador como se tivesse avistado um búfalo agressivo, mas retomando a sua posição de estadista, prossegue) E a paralisia surge quando, quando há um fenómeno de tal maneira, de tal maneira, aaaaaaa, estranho ou que cause tanto sofrimento que a nossa única resposta é paralisar (sensação de alívio na cara de João Tordo por ter chegado ao fim da paralisia) E essa nossa reacção que se foi propagando geneticamente (João Tordo faz um gesto de espiral, simbolizando um esforço neuronal no limite das suas possibilidades sinápticas) chegou até hoje, portanto, a nossa resposta perante a dor emocional é fugir». 

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segunda-feira, 24 de abril de 2017

Não quero ferir susceptibilidades, nem ser desagradável (estou muito cansado) mas este conjunto de frases teve a capacidade de suscitar algumas dúvidas sobre o mundo em que vivemos


Mas se não fosse duro, como diz o Professor Rui Vitória, era para os outros. Por isso mesmo, a edição crítico-genética, os elogios da senhora professora doutora e benfiquista Maria Alzira Seixo, a celebração póstuma, a erecção perene, a ilusória intemporalidade, com sua posteridade condicional, a inscrição no programa de controlo das línguas juvenis através das senhoras coercivas professoras ideológicas de Estado, as estátuas à mercê dos pombos e das adolescentes armadas com as suas máquinas fotográficas, as obras completas condenadas às caves das bibliotecas, as citações por respeitáveis parlamentares corruptos e sábios de toga e pixa mole, tudo isso a que se chama a literatura, meus caríssimos leitores, não é para quem quer, é para quem pode.


Evolução artística da humanidade: algumas impressões lógico-técnicas sobre pessoas espectaculares, embora umas mais do que outras




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Agora, atenção!

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Calma.

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quarta-feira, 29 de março de 2017

Uma simpática interpelação (e não estou a ser engraçado, a interpelação é mesmo simpática) merece resposta digna dada a importância do assunto

Deixemos de lado o assunto sobre a correcta redacção das quotas ou cotas, sou daqueles para quem a ortografia é como a regra do fora de jogo, o que interessa é que a bola (da minha equipa, claro) entre na baliza. Assumo desde já a minha culpa, pelo facto de o texto ter sido escrito num certo estado de embriaguez, não clarificando cabalmente a minha posição. Quero dizer com toda a frontalidade: sou favorável às cotas para mulheres (isto ao som de uma fanfarra com duas bonitas bombeiras a rufar caixa logo na dianteira - peço desculpa). As cotas resolverão um importantíssimo problema: o da diversidade no acesso ao poder, não o da qualidade no exercício do poder. Mais: a justificação das cotas para mulheres com base num alegado aumento do mérito e da competência - e esse era o meu ponto - enfraquece o principal esteio na fundamentação das cotas, a saber, a justiça e a paridade no acesso a cargos de poder. E isto parece-me claríssimo como água, e foi precisamente isto que a jornalista Fernanda Câncio não compreendeu, seduzida pela força da pseudo-lógica e da autoridade do argumento científico e do sacrossanto princípio da (risos) meritocracia no mundo contemporâneo.

É precisamente pelo facto de as coisas poderem correr mal que a decisão será bonita, progressista, humana e absolutamente desejada. Se a clarificação deste ponto ofende a causa, calo-me de imediato, mas tenham paciência, estou devidamente enfadado quanto à fundamentação de valores políticos com base na eficiência. O julgamento do valor deve ser livre, e a política serve, como aliás julgo que defende a nossa leitora, para obter consensos sobre o que deve ser imposto pela força por ser moralmente desejável (como a protecção da vida ou a necessidade de abolir a saúde privada, temos pena) e por isso, impenetrável a qualquer fundamentação mecânica de ganhos materiais ou (risos), incluindo ou sobretudo, qualquer ideia de mérito ou de superioridade da inteligência.

Clarifiquemos os princípios metafísicos do nosso raciocínio. Diz a leitora e autora do blogue Um jeito manso:


Afirmações muito interessantes mas problemáticas. A ousadia na utilização de um termo como medíocre é comum talvez em pessoas habituadas a cargos de chefia. O que é um medíocre? O que é um medíocre sobrevivente? Eu tenho uma ideia: uma pessoa num cargo de chefia. É precisamente por existir um conflito entre evolução e sobrevivência, por um lado, e valor moral, justiça, mérito ou mediocridade, por outro, que a imposição de um princípio «artificial» à evolução natural, nada nos diz sobre os benefícios para a evolução desse artifício. Como a sobrevivência não garante a bondade ou inteligência do sobrevivente mas a sua existência, não podemos fundamentar as nossas decisões políticas em termos de benefícios para a evolução, até porque, caramba, quantas vezes temos de repetir, nós não sabemos para onde vamos. Temos ao nosso lado, outros ilustres doidos varridos como Philip K. Dick ou Emanuel Pimba Kant: a capacidade de alterar as respostas em virtude da estupidez dos resultados obtidos é precisamente o que nos caracteriza como humanos, mas isso nada nos diz sobre a nossa relação com a natureza, pois, senhoras e senhores deputados, nós não sabemos onde termina a natureza e começa o artifício. Mais: a ideia de mérito tem uma relação muito problemática com a evolução e ainda mais com a inteligência, e julgo que nisto também estamos de acordo. Vamos então pensar se andam entre nós andróides, ou seja, pessoas estúpidas e mentecaptas.

Como é evidente, não vos sei dizer, mas posso eventualmente tentar responder onde andam pessoas maldosas - seguramente, muitas, nos cargos de chefia das organizações - e essa é talvez a ideia mais bonita da literatura em geral, sobretudo na obra do não devidamente apreciado e já referido autor, Philip K. Dick. Todavia, tenho cada vez mais dificuldade em qualificar as pessoas como estúpidas, não pela inexistência de estupidez, mas por nos estarem vedados, quer as razões da estupidez dos outros, quer o contributo dessa estupidez para benefícios eventualmente gerais mas invisíveis no momento. Sei como isto me aproxima perigosamente de um qualquer budista californiano neste momento pedrado com canabis e a babar-se algures em S. Francisco, no meio de uma pilha de livros de Tagore, mas como leitor de Cervantes (meu amado mestre) não posso trair a minha natureza de pessoa com uma certa coragem para enfrentar a realidade.

Na verdade, estou convicto de que a infinita beleza e especificidade do ser humano reside precisamente no facto de as pessoas mentecaptas poderem reconverter-se e sei muito bem como a autora de Um jeito manso pensa como eu, ou não teria perdido tempo a dirigir-me a palavra, tentando reconverter um engraçadola que não tem qualquer experiência sobre a dificuldade de ser mulher. E por isso, aconteceu aqui um daqueles bonitos momentos tão comuns nas redes sociais, mas a que os aparelhos ideológicos do Estado não conferem a devida importância: foi-nos apontada cordialmente uma outra perspectiva, com base numa comunicação simples, e nós aceitamos o reparo. Ou seja, a minha estupidez tem obviamente limites e não me julgo muito melhor do que a esmagadora maioria das pessoas. Vou então refazer o meu raciocínio - agora sem alusões indirectas - reforçando uma conclusão radicalmente diferente. Peço paciência para quem me acompanhar.

Sim, é verdade, o poder de sobrevivência nada tem a ver com o mérito ou a mediocridade, posso sobreviver e isso resultar num rotundo falhanço da minha inteligência, aliás, posso sobreviver precisamente por ser um bocado estúpido. Estamos portanto de acordo. E pode dar-se o caso de as mulheres eleitas para cargos de poder, precisamente por estarem, na sua formação, sujeitas a um ambiente muito adverso, serem ainda mais estúpidas do que os homens chegados de forma «natural» aos cargos de poder. Teríamos de analisar cada caso, pois em assuntos humanos, é muito perigoso aplicar princípios gerais em assuntos como o mérito: e este, repito, era o meu ponto. Creio que continuamos a usar a selecção natural e a teoria da evolução sem uma cabal compreensão do equivalente à hereditariedade genética em termos de reprodução em cargos de relevância social. Ou seja, não conhecemos muito bem a economia humana na articulação entre autoridade, prestígio e género sexual, caso contrario, já estaríamos todos no paraíso. Vamos então à adaptabilidade do mecanismo das quotas no sentido de garantir o triunfo sobre a mediocridade. Senhoras e senhores, aqui começam os problemas. 


A autora refere «não acreditar» na inexistência geral de uma mulher pelo menos tão competente quanto o menos competente dos homens nessa comissão, mas a sua crença e a sua experiência pessoal são argumentos, se me permite, muito frágeis, pois eu diria que depende muito da organização, do número de mulheres a trabalhar nessa organização e sobretudo, dos critérios de quem escolhe os colaboradores. Não subestimaria a hipótese de a mulher escolhida ser pior do que o pior dos quatro homens (e pior em quê?), tudo depende do conjunto, e sobretudo dos critérios, repito, dos critérios com que foram seleccionados os homens e as referidas mulheres. A autora de um jeito manso diz que, em geral, em níveis mais baixos das organizações, há normalmente muitas mulheres e esse é um dado em que tenho de confiar, mas é um dado no mínimo vago. Na verdade, um dos problemas das cotas, será a obrigatoriedade de estender a obrigatoriedade de um mínimo de mulheres escolhidas, em todos os níveis da organização, caso contrário, o efeito pode ser um bocado pífio, e resultar precisamente no contrário aos objectivos pretendidos, um fenómeno aliás, estatisticamente muito comum na política. 

Creio que no afã de suportar uma causa justa (e a causa é justa, relembremos) estamos a esquecer que o mesmo raciocínio poder servir para um caminho inteiramente diverso. E por isso, a argumentação do meu post anterior: se o machismo é dominante e se os homens estão em franca maioria (e não me parece que apenas no cargos de chefia, depende das profissões, e por isso, teremos de, em seguida, passar ao problema das profissões «masculinas»), a pressão de competição entre os homens será maior, e talvez a injustiça, em termos relativos, quanto a nomeações por competência nos cargos de chefia, seja até maior no caso dos homens. Não vejo por isso qualquer relação entre a determinação de cotas para mulheres e o aumento da competência nos cargos de chefia - e este era o meu ponto. A obrigatoriedade de cotas para mulheres no topo das organizações pode, pelo contrário, demonstrar uma «falsa» inaptidão da mulher para cargos de chefia, ao recrutar num ambiente menos numeroso, mas muito adverso, e isso seria mortal para o argumento da competência e da meritocracia. Todavia - e agora as bombeiras começaram a rufar as caixas - isto não tem qualquer interesse para o argumento da paridade no direito da mulher obter um cargo de chefia, seja mais ou menos incompetente do que os seus colegas homens. 

Talvez o meu erro tenha sido argumentar sobre um assunto onde, concedo, a urgência de garantir a igualdade deve preceder considerações de ordem meritocrática, até porque as organizações, as empresas, os clubes de futebol, estão cheios de homens estúpidos e incompetentes. Nesse sentido, tenho o prazer de anunciar que concedo inteiramente este ponto. Talvez não seja o tempo de cobardes considerações teóricas sobre os equívocos da meritocracia em termos de selecção dos cargos de chefia (até porque em geral as pessoas escolhidas, i.e., os sobreviventes, serão, com toda a certeza, lamento, os piores de nós). Talvez seja, sim, o tempo de conceder a igualdade de acesso às mulheres no comando da sociedade. Quanto aos resultados, logo se vê.

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terça-feira, 28 de março de 2017

Na sociedade da informação, o mérito, seja homem ou mulher, é de quem conseguir terraplanar a complexidade com um sorriso nos lábios


Portanto, deixem-me ver se estou já devidamente embriagado ou não. A imposição (artificial) de um mínimo de representação de mulheres vai acabar com a escolha dos homens só por serem homens. A meu ver, invocando a teoria dos conjuntos e as pressões reprodutivas da selecção natural, a avaliação dos mecanismos de «escolha dos homens só por serem homens», no caso de uma suposta medição dos critérios e análise da eventual justiça meritocrática da escolha, teria sempre de lidar com quantidades relativas, como por exemplo o número de homens interessados em cargos políticos à partida, num estado inicial, e as escolhas efectivas, no ponto de chegada, introduzindo depois o elemento, e passo a citar, «natural», acerca dos géneros reproduzidos no ecossistema, avaliando então o sistema informal de cotas. Até se pode dar o caso de termos uma pressão muito superior nos concorrentes masculinos. Imaginem um cenário onde 10 000 homens tentaram ser políticos e apenas 100 conseguiram e 50 mulheres tentaram idêntico desiderato (uma palavra que ainda não tinha utilizado no meu tempo de vida) e apenas 5 mulheres conseguiram o cargo. Não é necessário ter recebido o nome de Isaac Newton para compreender que a pressão meritocrática, nesta hipótese académica, seria superior para os homens, apesar da inferioridade comparativa em termos absolutos. O que estaria aqui em causa não seria tanto o mecanismo de selecção mas a razão de existirem muito menos mulheres interessadas nos cargos políticos, o que não é a mesma coisa. Não sei se o estudo faz isto, não fui ler, não sou maluco. 

Na verdade, é absolutamente espectacular de um ponto de vista cosmológico que a Fernanda Câncio, sempre disposta a ter em conta os meandros infinitesimais do sofrimento humano, apareça aqui a defender que o mero estreitamento dos canais de acesso a um dado conjunto humano, seja por si só, uma garantia de justiça e paz no amplo conjunto dos interessados na vida eterna. Saúdo os mais recentemente convertidos ao capitalismo selvagem legitimados pela luta de género. Acho, contudo, extraordinário, a introdução da meritocracia (oleada pela mecânica dos fluídos) ao nível da sustentação dos direitos sociais legítimos. As cotas também podem (se os critérios de escolha dos homens forem simplesmente parvos) expulsar ainda mais homens competentes dos cargos políticos, e trazer as únicas cinco mulheres incompetentes para a representação política, Aliás, creio que esta é a hipótese mais provável, no actual cenário.

Estarei com isto a defender uma repugnante descriminação do sexo feminino? Não me parece. Avancem as cotas, e sem qualquer discussão sobre os critérios de selecção dos candidatos a cargos políticos em geral. Se escrevo este texto é apenas por embirração com a Fernanda Câncio (não por ser mulher, isso pelo contrário, até a favorece, peço desculpa, isto é sexismo, devia já passar ao insulto, mas nesse caso, seria acusado de sexismo, enfim, valha-me deus, estou confuso) e sobretudo indignação perante o tratamento leviano de um tão fundamental assunto. Platão já esgotou o tema com o seu diálogo Teeteto (não sei se etimologicamente o título está relacionado com tetas, mas parece-me que não). No fundo, Fernando Câncio, com a eficácia que a caracteriza, está aqui a recorrer a uma das mais bem remuneradas práticas da vida moderna: para resolver um problema, colocamos em prática um mecanismo, qualquer que seja a relação deste mecanismo com o problema. Se o mecanismo funcionar, aconteceu ciência, mesmo que o problema se tenha agravado e multiplicado por mil.

Novels are about other novels — and how they make us suffer

Felizmente, ainda há pessoas preocupadas com o nosso entretenimento. Saiu o novo livro da fabulosa Elif Batuman. Aqui.

O jihadismo está entre nós



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segunda-feira, 27 de março de 2017

Era no tempo em que os escritores ganhavam dinheiro

The editors of the Post agreed to the idea of a series, but suddenly there was a problem. Faulkner discovered that his plan would not work with just the three additional stories he had in mind. H e needed to provide a bridge; he had to use some of his material to get him from what he called "the War-Silver-Mule business"" to the Reconstruction. Then another problem developed. Graeme Lorimer, of the Post's editorial staff, would not offer as much for the series as Faulkner wanted. At this juncture the flirtation from Hollywood turned into a contract offer from Hawks: Universal Studios would hire him at $1,000 on a week-to-week basis. He may have been relieved to leave the stories for the time being, and he made plans to fly out.

terça-feira, 21 de março de 2017

Voltemos ainda, agora e sempre ao mesmo tema, a saber, trau

O vellhino, oi, joga o manuel Rentes de Carvalho tem sido motivo para reflexões ao nível das mais elementares instâncias, incluindo a excelentíssima senhora, Patrícia Construção do Vazio Reis, o que a todos nos deixa muito consideravelmente, a saber, perplexos. Não comungo da opinião daqueles que, dando o exemplo do sueco, dinarmaquês (ou norueguês) e cito de cor, Knut Hamson, se põem a falar da importância da obra por oposição à pessoa humana, e cito, do escritor. Bastaria por exemplo, pensar no caso único de um parvo como Luís Fernando de Celine Dion, talvez o único a quem se deve permitir ter sido um chapado filho da puta, por ter sido o incrivelmente autor do inacreditavelmente livro Viagem ao Fim da Noite. Mas estes acidentes cósmicos não acontecem, graças a deus, muitas vezes. Em geral, os parvos são apenas parvos, quer enquanto pessoas, quer enquanto escritores, quer enquanto parvos. É o caso de Rentes de Henrique Raposo de Carvalho.

Recentemente, o abominável homem das neves, António Lobotomia Antunes, veio muito eficazmente, palavra de honra, corrigir a péssima imagem deixada a propósito da obra do internacionalmente aclamado José é do caraças Saramago, e nisto, o senhor Antunes resolveu chamar ao cancro, uma puta (imagem a meu ver injustamente exagerada) e de caminho, acenou ao senhor Barata, explicando ainda a genealogia do seu génio (do senhor Antunes claro, do senhor Barata apenas sabemos que é tipógrafo, o resto não interessa) embora o referido senhor Antunes, nos tenha explicado o seu amor à sua obra, ainda por cima, como homem (coitado) martirizado por uma casa carente de elogios, governada por um pai, segundo homem a contar da direita do mais espectacular falhanço ao nível do prémio nobel, e por uma mãe, aparentemente pessoa capaz de exercer as mais violentas pressões ao nível do pagamento de cartas de condução. Ainda referiu, a dado momento, como o augusto autor, em hora felicíssima, optara por se dedicar à escrita, desobedecendo rebelmente à hierática e circunspecta autoridade dos pais, pois se ficara consignado apenas ao magro salário de um chefe de Serviço médico, então, isso sim, andaria agora a vender pensos rápidos nas pastelarias, o que deve ter enchido de comoção literária e remorsos luxuriantes, a seguramente muitíssimo bem paga senhora encarregue de limpar as casas de banho da Sociedade Portuguesa de Autores. Deste modo, o homem vocacionado a escritor, encontrou-se com a sua puta, perdão, o destino: a stand up comedy onde, me parece, teria alcançado fama, fortuna e a felicidade de uma obra à medida dos limites paradigmáticos das suas potenciais capacidades, ou seja, trau.

Muito se poderia dizer a propósito de reprodução social e comédia, a propósito de cartas de condução e literatura, a propósito de sentimentos de protesto e força na coluna para subir a um palanque e estar diante de uma plateia, sem nos rirmos, sem nos mijarmos, sem pedir desculpa por estarmos ali, transformados em forças vivas de uma terapêutica, aplicada aos mais ou menos pulmões destruídos de todos aqueles que, incapazes da referida e descomunal latosa, recusam deixar-se instrumentalizar pela secreta e indomável tendência para nos sagrarmos como agentes da salvação, oremos senhor. Na verdade, também o Rentes de joga o Manuel Carvalho  veio a público defender as suas ideias de escritor aclamado por efeito de livros por mim nunca lidos, nem hipoteticamente lidos, mas folheados, a saber, um neo-pós-realismo, ou para citar António Espectacular Guerreiro, um exercício provinciano e marroquino em hiper-literatura, nomeadamente, a ideia de que os marroquinos estão a roubar o dinheiro a velhinhos, talvez como o senhor Barata, mas em holandês, absorvendo os custos de uma Segurança Social, insuficiente para dar cumprimento a todos os sonhos certa vez sonhados pela República das Letras. Contudo, não lembra do professor doutor joga o Manuel Rentes de Carvalho como também os marroquinos a trabalhar na Holanda talvez ajudem a pagar os almoços dos infinitamente necessários professores de literatura portuguesa em Amesterdão, para não falar da, a saber, tão difundida ideia de que a cultura, perdão, a cultura (sic) joga o Manuel Cultura, é alguma coisa melhor e mais biologicamente necessária ao cultivo do espírito humano do que instalar soalho ao som de Quim Barreiros. Nem só de pão vive o homem, diremos, mas então, se não só de pão vive o homem, mas também de toda a hospitalidade concedida aos marroquinos, vamos lá a ser moderados no tratamento deste delicado assunto que a todos nos martiriza no actual momento.

Acontece isto porque o referido António Rentes jogo o Manuel Antunes de Carvalho insistiu em partilhar connosco as suas ideias para o futuro da Europa (e que belo futuro esse, sem marroquinos, nem transmontanos a quem talvez faltem os dentes), e sempre que os terapeutas da alma decidem partilhar as suas ideias hiper-realistas para o futuro da nossa vida em comum, mostram à saciedade como a literatura é feita, não só de pessoas inteiramente ignorantes das regras do fora-de jogo, como também de todos os bons sentimentos somados à passagem do tempo, somados à tiragem dos jornais, somados à situação específica da nossa ignorância. E isto é particularmente doloroso para todos aqueles que, como nós, não fazem puta de ideia sobre como melhorar o mundo em que vivemos, a não ser, dei-xar-mo (tracinho) nos de merdas e produzir a chamada (vírgula) literatura, incluindo nela a crítica estética (ou seja, a política mastigada) aquilo que nos sai do sangue (e sejam perdoados os nossos, perdão, pecados dada a pouca originalidade) a nós, sim, a nós, os poucos de merdosos, que, a saber, não consideram os sentimentos um material diferenciado da inteligência, e estão apostados em raspar a imaginação com uma espátula, após a necessária aplicação do devido decapante, a ver se caiem sentimentos feridos de inteligência, caso contrário, seremos convocados a conviver em almoços com amigos do elevado calibre de um José Sousa Jorge Tavares Letria de Carvalho, joga o Manuel, Antunes.

Almoços, pois, almoços. O que de modo algum pode ser visto como um caminho aceitável para quem apenas pretende menos espalhafato e mais entretenimento (e contas pagas) a saber, a inteligência sentimental como material plastificado, mas de altíssima qualidade, na medida em que, considerando a nossa particular situação num dado momento, talvez seja legítimo considerar que sempre poderia ser outra a nossa situação num outro diverso dado momento qualquer, e isto, meus amigos, não é relativismo, isto é socialismo democrático, ou seja, isto é o contrário da pessoa humana, no fundo, é ter a dolorosa consciência daquilo a que todos, e lamentavelmente, aspiramos, agora ainda e sempre (com mais ou menos talento) ou seja, sermos aclamados qual santinho imóvel e pacificado a luzir no altar do futuro.

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S. Sebastião a ser curado por Santa Irene, Niccolo Renieri, 1625.

sábado, 18 de março de 2017

Levantai hoje de novo o esplendor de Portugal


O negócio do luxo a nível mundial dará, alegadamente, para comprar um equipa de 10 000 (dez mil) Cristianos Ronaldos, e por isso, Portugal deve apostar no negócio do luxo, disse a simpática senhora representada à direita na imagem, e responsável pelos Cursos de Luxo no ISEG, rematando com uma imperturbável e solene invocação do hino: «Levantai hoje de novo o esplendor de Portugal». Parece inventado, mas não é, acabou de acontecer, num programa intitulado A Cidade na Ponta dos Dedos, mais uma referência no mínimo dúbia, o que demonstra um conhecimento muito consolidado das subtilezas do mestre Quim Barreiros. Na verdade, podemos repetir: quem está disposto a levantar o esplendor de Portugal? Eu, considerando a espectacular realidade em que vivemos, e com muita pena minha, sinto-me um pouco cansado. Mas fica o apelo.

sexta-feira, 10 de março de 2017

A Pequena Europa e a grande chatice


Não sei se temos considerado devidamente a relação entre os «planos inclinados» e a «palavra como instrumento do pensamento». No meu caso, nutro um considerável interesse pela palavra como suspensão do pensamento ou mesmo como veículo das intenções mais baixas do instinto humano, ó maravilha fatal da nossa idade, a saber, a divinização de tudo quanto é humano, para citar Philip K. Dick, não foi o homem a matar deus, foi deus quem engoliu o homem, e isso tem sido um vasto problema, estamos todos cheios de ambições desmedidas, no fundo, não temos trabalhado bem o jogo interior, nem a reacção à perda, e isto vai de goleada em goleada.

Vamos lá ver se nos entendemos: a chamada recriação, nomeadamente, do porco preto, será também ela (a recriação do porco preto) subsidiária do pensamento? E quanto à cultura do pastel de bacalhau? Este exemplo foi dado por Lobo Antunes, numa entrevista relativamente recente, e parece-me um notável sintoma de hipocrisia intelectual, pois nunca vi a cultura do pastel de bacalhau devidamente tratada nas obras de Lobo Antunes, e o tanto que teríamos todos a ganhar com isso. Na verdade, se eu for andar de carrocel e tentar em simultâneo resolver umas palavras cruzadas, estamos diante de um exercício de recriação ou de um instrumento do pensamento?

Pergunta: onde pretende o senhor doutor autor da supracitada peça crítica, traçar a linha divisória entre pensamento e recriação? Paradoxalmente, os críticos literários, talvez por visitarem muitas vezes exposições de arte contemporânea, mantêm, regra geral, uma atribulada relação com a clareza do raciocínio, não gostam do lúdico, nem do entretenimento, nem do prazer da chalaça e do chavascal imagético, no fundo, são filhos do modernismo (essa adolescência tardia da civilização), não esqueçamos a carrada de horas passadas pelo pobre James Joyce entre melancólicos padres.

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Este assunto é tratado de um ponto de vista radical, num filme italiano da autoria de Tinto Brass, curiosamente, transmitido pela Correio da Manhã TV, numa madrugada destas. Com a excelente Anna Alexandrovna Jimskaya, nascida no Uzbequistão, de mãe ucraniana e padre russo, uma acrobata com experiência do circo, fabulosa atleta, praticante de ginástica artística e exímia bailarina clássica, o filme é uma reflexão sobre o mundo editorial, o desejo e as diferenças entre arte superior e chavascal. Vamos ver algumas imagens.

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Neste filme, a bela protagonista, fantasia eroticamente com uma relação adúltera, pois o marido (um editor) parece desinteressado de uma cabal utilização de todas as possibilidades do corpo feminino, isto sem ponta de exploração ou violência, mas numa verdadeira e cabal análise do prazer físico humano, amen. Com o pito a arder (peço desculpa mas a expressão artística não é minha) a bela protagonista trava conhecimento com um artista francês que a certa altura confronta o prazer oferecido pela leitura de vários autores, Byron incluído, e a posse, ainda que precária e breve, das excelsas ancas e das volumosas e firmes nádegas da bela protagonista, que vai coligindo todos os seus secretos raciocínios num livro, considerado pelo seu marido, e já perto do final do filme, como um obra-prima de erotismo. Dirão os mais conservadores: para certos homens, a mulher é apenas um objecto de prazer. Sim, é uma questão que nos inquieta, admitamos. A nós e a Homero, essa instituição colectiva, segundo a qual, a posse (repitamos, a posse) de uma mulher, leva os mais abrutalhados guerreiros do mundo antigo a mergulharem num arraial de porrada e assassínio, para resgatar a bela Helena. Isto é literatura masculina, por certo, e não estarei a ironizar quando antevejo um problema complicado, no momento em que o professor Eduardo Pitta considera que os melhores romances das últimas décadas tenham sido escritos por mulheres, dando o fabuloso exemplo da sua colega de trabalho, a vice-directora da Revista Sábado (onde, creio, escreve o professor doutor engenheiro Eduardo Pitta) de seu nome, Dulce Garcia, uma pessoa para quem Julian Barnes e Ian MacEwan são os modelos a seguir: o sagrado coração de Maria nos proteja, a julgar por este trailer, o livro deve ser um prodígio da profundidade literária, um hino à inteligência humana.

Ora, arrisco dizer, estamos aqui diante do principal problema literário de todos os tempos: atingimos a felicidade pelo chavascal ou pela ascese? E pensará a mulher da mesma maneira ou prepara, na sombra, uma revolução capaz de separar de uma vez por todas chavascal e ascese, negando aos homens a relação atribulada com o corpo feminino? Meus amigos, não será esta uma falsa questão? Creio que estamos, homem e mulher (e todas as variáveis possíveis a partir deste modelo binário) unidos na mesma luta: como intensificar o prazer sem destruir a fonte do prazer e sem nos destruirmos?

Do meu ponto de vista, e ao contrário do preconceito, não há qualquer divisão entre os sonhos de fusão sexual, voluptuosidade matrona e o triunfo intelectual da mulher. Curiosamente, as mulheres (devido ao alto valor conferido pelo desejo masculino ao prazer sexual) parecem ser as principais promotoras desta divisão, fazendo pagar bem caro a posse da beleza (loira burra) e ameaçando com o ostracismo social toda a mulher, apostada em baixar o preço do relacionamento sexual, o que é antes demais, uma tremenda castração da mulher como sujeito do desejo, e isso é justamente o que o filme de Tino Brass põe em causa, ainda que a condição fisiológica da mulher, considerada em geral submissa (como anatomicamente penetrada) seja um problema difícil de ultrapassar e tenda  a inquinar uma parte do debate. Diria, com a coragem que me assiste, que os homessexuais têm uma palavra a desempenhar na história sexual da humanidade, expondo como o ser penetrado (uma razão de opróbrio para a cultura romana e latina) em nada devia beliscar a dignidade das pessoas.

Na verdade, basta ler os comentários sobre as mulheres participantes na Casa dos Segredos ou das mulheres envolvidas na indústria da pornografia para se ter uma ideia deste problema, como se vender o corpo diante de uma câmara fosse assim tão diferente de vender a inteligência ao comércio da literatura e da reputação artística, ou da santidade religiosa. Custa-me sobretudo que Jesus Cristo tenha visto claramente visto este problema («comem comigo pecadores e publicanos») mas as pessoas em geral insistam em não ver.

No fundo, o problema da raiva contra o entretenimento, é um sub-problema da nossa relação com o prazer físico, ou seja, da nossa relação com os limites do nosso corpo. Não quero ressuscitar o cadáver de Freud, mas o facto deste velho austríaco e devasso se ter enganado em muita coisa, não significa que não tenha olhado para o fundo do abismo. Aliás, foi por ter olhado, sem medo, para o fundo do abismo que falhou redondamente e motivou o ódio generalizado, foi por nos ter assustado que hoje tão facilmente cuspimos no seu maravilhoso delírio.

Quanto a mim, e considerando as coisas de um certo ponto de vista, digamos, rebarbado, a recriação, o lúdico, o entretenimento, são conceitos a que falta uma historiografia do uso mediático e literário. Posso jogar xadrez, é certo, e com isso estaria a usar o pensamento, mas também posso recriar-me observando a Casa dos Segredos, e aí posso usar o pensamento mas também outro tipo de complexos físico-neurológicos. Na verdade, este assunto continua a ser embrulhado em celofane e distribuído como brinde avulso em jeremiadas produzidas por uma grande parte das pessoas da Cultura, sempre muito amiguinhas dos desgraçados, e veja-se o mais recente filme São Jorge, mas também sempre prontas a considerarem o seu gosto como um modelo da excelência universal. Pergunto: qual a diferença substancial entre o pensamento utilizado para tocar uma Sonata de Mozart ou aturar a Teresa de Guilherme, respondendo a perguntas comportamentais, durante meia hora? Claro que o problema está sobretudo naquilo a que chamamos educação, hábito, mecanismos de reputação, e não tanto no grau ou na intensidade da inteligência ou do pensamento. Não negamos contudo os continentes de distância em termos de horas de treino e automatismo acumulado na infância (para os quais é imperioso guito e estatuto), para não falar do custo de um piano em casa, o que desde logo nos remete para uma economia das funções intelectuais, tema que não tem merecido o interesse dos vanguardistas dos nossos dias (talvez exceptuando o chatíssimo e péssimo escritor Bordieu) e sabemos bem porquê. #poesia

Voltemos portanto ao assunto que aqui nos trouxe, um livro escrito por uma mulher educadíssima e espectacularmente inteligente.

A própria disposição textual do romance engendra um sistema respiratório do romance em que manchas textuais distintas correspondem a diferentes intensidades e sentidos. 

Isto poderia ser dito sobre o romance, o facebook, a lista telefónica, as legendas informativas do telejornal, os letreiros e montras de um Centro Comercial ou o teleponto da Cristina Ferreira. Peço ao estimado leitor para fixar esta curiosa semelhança entre o romance considerado vanguardista e o tipo de comunicação comercial do mundo contemporâneo, que parece contaminar toda a literatura dita de ruptura. Na verdade, a suposta ruptura, imposta pelo «fluxo de consciência» não é mais do que a consagração dos meios de comunicação de massas (jornais, rádio, televisão e agora facebook e twitter) em termos literários, de forma mais ou menos irónica, e basta, como exemplo, invocar a enorme preponderância da estrutura das notícias impressas em folha de jornal no Ulisses de James Joyce.

Com efeito, confesso estar perdido acerca do que pretende o crítico assinalar neste novo e desorientado livro de Mafalda Ivo Cruz. Mas temo ser aqui forçado a informar o referido crítico e a romancista, acerca de uma velha e recorrente problemática da arte narrativa: dizer qualquer coisa de relevante e original, com estilo, elegância e profundidade, é muito difícil, é quase um acidente estatístico, e depende de muitas coisas para além da vontade do autor. Ou seja, é preciso muito mais do que um ambiente propício e interesse literário. É necessário termos sido agraciados com uma espanholada das deusas, ou um minete dos deuses (para não sermos acusados de descriminação) mas aviso desde já como as deusas e os deuses são muito selectivos naqueles a quem conferem espanholadas e minetes. Ou seja, aos promotores da ideia da necessidade de excelência quanto aos leitores e à palavra como instrumento de pensamento, esquece tantas vezes que, pelos mesmos padrões de exigência, 99% dos escritores considerados como dotados de qualidade literária, não passam de pedantes desajeitados, com amizades seguras em pontos estratégicos da nossa cidade. Exemplo:

Nesse aspecto, importa que Schönberg compareça em Pequena Europa na sua dupla condição de compositor e pintor. Não só porque essa condição dual o torna menos linear e, portanto, mais frutífero para este romance de formação elíptica, espiralar, à maneira de Sebald, mas também porque a arte, no geral, desempenha um papel fulcral em Pequena Europa.

Em crítica admite-se tudo, menos o facto dos críticos não terem lido os livros. Ver neste livro Pequena Europa qualquer semelhança com Sebald é digno de uma arbitragem de José Pratas. Sebald tem um domínio narrativo, sequencial, e convencionalmente respeitador da paciência dos leitores, que em nada se pode comparar com o livro em apreço. A comparação com Sebald, portanto, só pode ser apontada por quem nada compreendeu dos textos de Sebald, onde a sensação de vertigem é dada pela deambulação interior da personagem, e não pela deambulação da linguagem do narrador, e é nesta tensão que está o génio de Sebald, o que vem na melhor tradição germânica. Como mostrar o absurdo e a loucura do mundo, virando o convencionalismo, a disciplina e a ordem (fontes de autoridade artificial) contra si mesmas, sempre respeitando a mais burocrática das subserviências perante a gramática e até um certo conservadorismo formal da linguagem. Isto, naturalmente, provoca tonturas. No fundo, se há coisa segura, sistematicamente cadenciada, quase proporcionalmente maquinal, de tão constante, na sua frieza recolectora, é a linha narrativa de Sebald. Nem sequer o parágrafo longo pode ser confundido com qualquer tipo de confusão permanente. Uma elipse não é uma espiral. Tal como a revienga de Zidane não é a revienga de Bruno Caires (e por isso, não há vídeos). O desajustamento entre as ideias da personagem, um homem perdido e deslocado do mundo, e o registo rigoroso, ordenado, até meticuloso da narrativa, é precisamente o grande feito daquele autor alemão. Por alguma coisa, Sebald eliminou as notas de rodapé dos seus livros, e como grande artista, percebeu rapidamente o estrondoso ruído provocado por qualquer acumulação pedante e deslocada de notas de rodapé, e tratou de conferir ao todo o livro a simetria e proporção. Exactamente ao contrário deste A Pequena Europa, onde a autora julga até pertinente informar-nos sobre os excertos onde a tradução é da sua autoria.


Sim, devemos todos perguntar: não começarão as tiranias pela publicação de romances estandardizados? Não começarão as tiranias pela leitura da revista Maria? Por certo, o gelado Calippo tem o seu papel na instauração dos regimes totalitários. Mas o que é um romance standardizado, professora doutora Mafalda Ivo Cruz? É um romance rapidamente publicitado e aclamado nas páginas de um dos jornais outrora mais vendidos em Portugal, sem isso corresponder a qualquer interesse público?

Da mesma forma, pergunto: o que é uma arquitectura previsível? Quando Julieta está prestes a ingerir o veneno, numa standardizada sequência, ou seja, numa sequência muito bem contada, sabe a professora doutora se a belíssima Julieta irá ter sucesso no seu encontro com o bem amado Romeu? E quando Julieta, diante da ilusão do seu amado morto, por uma falha de sequência no plano idealizado, decide interromper a vida, o que nos diz o percurso do veneno no seu corpo acerca da linearidade do tempo narrativo?

Com efeito, tenho uma outra explicação para esta tão popular recusa da linearidade: é mais difícil esconder o facto de não termos nada para dizer quando nos dispomos a falar claramente. Será um crime não ter nada para dizer? Não. Mas isso, de uma forma ou de outra, acaba sempre por notar-se, e de que maneira.

A narração revisita acções e atitudes, movimentações e características, como se estas fossem fantasmas que perseguissem a própria possibilidade de narrar, questionando, obsessivamente, “Como é ainda possível ficcionar, como contar?” (num paralelo irresistível com os loucos ou alegados loucos que povoam o romance) Porque Pequena Europa é muito mais um romance que pergunta do que afirma. Duvida mais do que acredita. Descrê da capacidade afirmativa e, sobretudo, lúdica do literário.

Se há coisa que me interessa na sociologia da literatura contemporânea, é esta embirração com a possibilidade do ficcionar e do contar e o lúdico no literário. Mas desde quando foi fácil contar? Só o olímpico desconhecimento da história da literatura considera ter existido um tempo onde era fácil contar. Que tenham existido pessoas com facilidade em contar ou escritores com uma prodigiosa capacidade de narrar, não significa que a sua eficácia lhes tenha sido oferecida de mão beijada. Quantas horas de conversa, quantos manuscritos lançados ao lixo. Mas não vieram para os jornais lamentar as suas limitações, pois a dificuldade do narrar é, no fundo, a dificuldade em legitimar o projecto literário, ou seja, é o centro explosivo do que faz de uma pessoa alguém consagrado pelo tempo e a comunidade como um escritor. Pois é, caríssimos leitores, menos choradeira e mais paciência. a fama perene, como bem sabiam os antigos, implica o risco da própria vida.

Muitos anos depois do pobre Walter Benjamim ter escrito, numa introdução a Leskov, umas páginas confusas (mas apesar de tudo pertinentes), acerca do declínio do narrador no mundo industrial, este autor que vos fala quer dizer como tantas vezes ouviu velhas analfabetas manejar com invejável arte todos os segredos da narrativa. A complexidade do enredo, a densidade das personagens, as suspensões e acelerações, as divagações sobre o saber técnico (e lembro as páginas admiráveis de Italo Calvino sobre a técnica de marinhagem nas fábulas populares italianas) as famigeradas quebras de linearidade, a diversidade dos pontos de vista, e até a torrente e o fluxo da consciência, tudo isso é familiar a muita gente absolutamente desconhecida, anónima, analfabeta, entretanto morta e enterrada e perdida para sempre. Creio que três elementos alimentavam essa magistral arte de contar, em risco de perder-se diante do pedantismo da literatura impressa: a alegria e o prazer da voz entoada, aquilo a que Ariosto chamava o «canto»; o amor pela fragilidade humana e a consciência das limitações da razão e do discurso, que tantas vezes vi, em criança, de olhos esbugalhados diante dessas velhas sábias, magoadas e dotadas de uma coragem física e moral intransponível; e por último, e apesar de tudo, o profundo amor pela vida e o sentido de utilidade da comunicação humana e do contar aos outros, mesmo diante de todo o mal, mesmo diante de todos os perigos e desastres, ou se quiserem, sobretudo, perante todos os perigos e os desastres, a começar pela dificuldade em ganhar o pão de cada dia.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Um dos mais impressionantes inícios da literatura do século XX recusado por todas as editoras

I am made out of water. You wouldn't know it, because I have it bound in. My friends are made out of water, too. All of them. The problem for us is that not only do we have to walk around without being absorbed by the ground but we also have to earn our livings.

Actually there's even a greater problem. We don't feel at home anywhere we go. Why is that?

The answer is World War Two.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Convosco, Dorsa Derakhshani, uma personagem imortal, criada por Roberto Bolaño